[ESPECIAL NGF] “Coleção Sobrenatural: Vampiros” de autores diversos (resenha)

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O desejo de viver para sempre é tão antigo quanto a humanidade, assim como a ideia de que o sangue carrega a essência da vida, e é uma das possíveis fontes da imortalidade. Diante disto, não é surpreendente que os vampiros até hoje façam sucesso e povoam nosso imaginário coletivo.

Neste primeiro volume da Coleção Sobrenatural, projeto da Avec Editora organizado por Duda Falcão, 10 autores brasileiros, incluindo o próprio Duda, imaginam os vampiros em diferentes cenários e contextos, arriscando reinterpretações e reinvenções do mito do vampirismo.

O livro já abre com um prefácio de Lord A que denuncia a qualidade da coletânea, onde o leitor é presenteado com uma análise simultaneamente racional e apaixonada do vampiro como um fenômeno cultural passível de estudos e mote de reflexões sobre a condição humana, e nossa diária luta interna e externa entre a civilidade e a animalidade, entre o superego e o id, entre o consciente e o inconsciente, remetendo a vários ramos do pensamento humano. É quase o resumo de uma tese de mestrado que, por si só, vale a leitura da obra. O texto é fascinante e instigante, além de servir como um convite excepcional para a leitura dos contos que o seguem, os quais avaliarei abaixo:

O Dia da Caça” de Giulia Moon, leva o leitor pra dentro do corpo do universitário sequestrado por um vampiro que se vê na posição de alimento num mercado de sangue para vampiros socialites. É uma abordagem bem curiosa da sociedade das criaturas, além de ser imersiva desde o início, pelo uso competente e muito preciso do narrador-personagem.

Giulia também é hábil na construção de um suspense psicológico enervante e crescente, em que o protagonista vai aos poucos se dando conta de sua condição de “gado humano” prestes a ser abatido, tornando a trama envolvente conforme se aproxima do desfecho.

É um conto sobre vampiros de personalidades fortes, orgulhosos e vaidosos, e do perigo de sua impulsividade quando têm seus orgulhos feridos, ao ponto de lutarem contra seus instintos de predador.

Também há um belo e sádico trabalho de imaginação da cultura dos vampiros, e de sua arte macabra feita a partir dos corpos de suas “bolsas de sangue.”

Dizer mais do que isto estragaria algumas viradas da trama, que Giulia conduz com segurança, jamais traindo sua abordagem, e mantendo o leitor o tempo todo sob a pele do protagonista. É um ótimo início para a antologia.


Sangue e Poeira“, de Fred Furtado, é um faroeste pós-apocalíptico ambientado num Brasil que abusou do solo, com seus latifúndios e plantações de soja, tornando o país um imenso deserto. Assim, num tom de alerta premonitório, Fred inicia sua trama num mundo onde a escuridão é gerada não apenas pelo anoitecer, mas por constantes nuvens de poeira que varrem o território nacional.

Sua construção dos cenários e a narração dos progressivos ataques de um vampiro a um povoado são envolventes. Mas achei um tanto forçada a ideia dos habitantes do local acreditarem inicialmente que as mortes foram causadas por uma onça, e as crianças cogitarem a ação de alienígenas, chupa-cabra e de um assassino, e ninguém levantar a hipótese de ser um vampiro. Ainda assim, é uma narrativa bem trabalhada por Fred.

O conto remete a O Nevoeiro de Stephen King. Fred é daqueles autores que sabem aumentar as expectativas, jogando breves comentários que antecipam tragédias.

Há ainda uma bem vinda mistura de mitos indígenas brasileiros com o dos vampiros, cuja descrição sugere uma conexão entre a criatura e a floresta que possivelmente a originou. Isto compõe uma ótima reinterpretação do monstro num novo contexto cultural.


Orquidófilo” é um relato em forma de diário sobre uma caçada a uma orquídea rara que segue paralela à progressão de uma “febre” que acomete o protagonista/narrador, conforme ele avança floresta adentro e encontra, a cada passo, mais sinais de que algo muito ruim e mortal o espera adiante.

Usando o formato da narrativa a seu favor, Simone Saueressig soube mergulhar o leitor na tensão e suspense crescentes da expedição, e deixá-lo curioso sobre o desenrolar dos acontecimentos, já levantando suspeitas do que está ocorrendo com o narrador.

E ela promove uma mistura de elementos fantásticos que remete ao trabalho de Alan Moore na série Monstro do Pântano, o qual representa uma revigorante reinvenção do mito do vampirismo.


O Vampiro Cristão” de Duda Falcão aborda um conflito curioso de um monge beneditino transformado em vampiro, que insiste em cultivar sua fé, mesmo séculos depois de sua transformação. É o conto com mais criaturas fantásticas, pois o protagonista convive com uma fada e confronta-se com demônios.

É uma ótima fantasia moderna que reserva ao leitor uma bem sacada surpresa decorrente do pacto que o vampiro faz com a fada, que não apenas sugere um crossover entre aquele universo e uma história muito conhecida, como torna-o um forte candidato a ganhar uma continuação.


Olho por Olho” de Nazarethe Fonseca começa como um terror clássico, com uma mulher fugindo de seu captor, sendo estuprada logo em seguida. Mas logo o conto revela-se quase um episódio de Arquivo X ambientado no Brasil.

Sai o FBI e entra a agência S1, especializada em “padrões específicos.” No lugar de Dana Scully temos Cecily Marcos, psicóloga, socióloga e médica legal.

A narrativa possui semelhanças com filmes como O Silêncio dos Inocentes, Seven e Zodíaco, abordando o vampiro como um serial killer. Embora não seja uma ideia original, Nazarethe a desenvolveu com a mesma segurança com a qual compôs a personalidade de Cecily, sugerindo um passado traumático a ela através de indícios de seu comportamento, enquanto analisa friamente as pistas dos homicídios cometidos por Sebastian (sim, o nome do criminoso é revelado logo no início, portanto não é um spoiler, relaxe!).

Demonstrando ser hábil também nas descrições das cenas de ação que marcam o clímax, Nazarethe só peca na cena final, onde rende-se a um clichê que, particularmente, não achei que combinou com toda a construção da protagonista até aquele ponto. Poderia ter evitado esse deslize.

De qualquer forma, é um conto muito bem escrito, e que também poderia ser expandido para um livro inteiro, ou uma série deles.

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All In” de Alexandre Cabral imerge o leitor no mundo corporativo para depois mergulhá-lo no terror psicológico de um empresário intimado a participar de um jogo de pôquer valendo nada menos que todo o seu sangue.

O clima me fez lembrar um pouco aquela crueldade niilista do filme Psicopata Americano, cheio de playboys engravatados sem uma gota de compaixão.

Um detalhe que destaca o conto de Alexandre é a mania do protagonista em comparar as pessoas que conhece a fontes tipográficas, o que também indica o cuidado do autor na composição dos personagens. Embora todos sejam estereotipados, suas características são marcantes o suficiente para o leitor diferenciá-los facilmente.

O que mais incomoda na leitura é a presença de mulheres em situações degradantes, o que bate de frente com as discussões atuais sobre a representação das mulheres na cultura e na sociedade. Apesar disto, a ideia funciona dentro do contexto imaginado por Alexandre.

O ambiente onde ocorre o temível jogo de pôquer é, por si só, inquietante, um aspecto que o autor soube construir com eficácia.

A partida, por sua vez, lembra um tenso filme de vampiros dirigido por Quentin Tarantino. Remeteu-me à sequência do jogo de cartas de Bastardos Inglórios. Mas Alexandre conseguiu ser muito original e hábil na descrição das ações, e na avaliação dos jogadores vampiros feitas pelo protagonista. Além disto, ele soube descrever a partida sem exigir muito do conhecimento do leitor a respeito do jogo (que é explicado brevemente algumas páginas antes). Outro mérito do autor.


Anunciação” não só é um dos menores contos da antologia, como também o mais fraco de todos. Ju Lund usou uma narrativa muito direta e pouco descritiva que aproxima-se demais dos romances água com açúcar, remetendo à execrável “saga” Crepúsculo.

Se ainda fosse uma paródia das obras de Stephenie Meyer o conto seria aceitável, mas não há na curta narrativa elementos que indiquem tal intenção. Portanto, é inevitável sentir-se diante de uma obra simplória e pouco inspirada, que passa a impressão de ter sido escrita às pressas e no “piloto automático.”

Sem a menor dúvida é o ponto mais baixo da antologia.


A Fonte da Donzela“, de Carlos Patati, como o próprio sugere – é o título de um filme de Ingmar Bergman – explora o mundo da 7ª arte do ponto de vista da donzela do título, uma vampira que vive próxima das locações de um filme policial.

O autor soube explorar bem o espanto da criatura diante da descoberta do cinema após passar muito tempo afastada do mundo exterior. É uma narrativa lenta, porém cuidadosa, e calculadamente confusa em certos trechos, que buscam levar o leitor para dentro da experiência da protagonista.


Colonização“, de Carlos Bacci, é o conto mais curto do livro. É um bom exercício imaginativo que insere os vampiros num hipotético cenário de ficção científica. Seria interessante vê-lo explorado num conto maior, ou menos num livro.


Parsifal“, de Marcelo Del Debbio, é uma elaborada ficção histórica que mistura vampiros, Cavaleiros Templários, a história da Europa e a colonização do Brasil.

Semelhante ao que Duda Falcão e Carlos Bacci fizeram, Marcelo também imaginou um cenário que merece uma revisita em uma trama maior e mais elaborada.

É um bom conto, que mais instiga a imaginação do que apresenta uma história marcante, como muitas dos contos anteriores.


Mesmo apresentando alguns poucos contos medianos, e apenas um bem fraco, a média final é ótima, o que só aumentou minha curiosidade pra ler os próximos volumes da Coleção Sobrenatural. Enquanto eles não saem, vale a pena investir neste primeiro, que é uma bela prova do potencial criativo que os vampiros possuem.

A antologia ainda serve como amostra dos ótimos escritores que temos no país. Terminei a leitura com vontade de ler outras obras da maioria deles, o que já comprova a qualidade da obra.

Meus parabéns à Avec, e a todos os envolvidos nesta publicação, que recomendo muito para apreciadores do terror literário!


nota-4


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Editora: AVEC Editora

Publisher: Artur Vecchi

Organização e Edição: Duda Falcão

Projeto gráfico e diagramação: Marina Àvila

Revisão: Miriam Machado

Onde comprar: loja online da Avec.