[ESPECIAL NGF] Cheiro de Infância: Eu e os Quadrinhos

minha breve historia com historias em quadrinhos

Em dias como o de hoje, acho importante relembrar o que trouxemos conosco da infância e que ainda está presente em nossas vidas. No meu caso, uma de minhas paixões que nasceu quando ainda mal sabia ler, e que até hoje nutro, são as histórias em quadrinhos.

super homem 33 abril jovemNão sei precisar exatamente quando eu comecei a ler quadrinhos. O registro mais antigo que tenho é uma já surrada e com páginas faltantes Super-Homem #33 da 1ª série da Abril Jovem, de março de 1987. Nela ocorria um encontro do Super-Homem com o Monstro do Pântano escrito por ninguém menos que Alan Moore e desenhado por Rick Veitch. Óbvio que, na época, eu não tinha a menor noção da importância desses dois, mas não deixou de ser um “presságio” de minha admiração futura pelo trabalho de ambos. Na mesma edição havia uma história da Corporação Infinito desenhada pelo Todd McFarlane, pra qual não dei muita atenção.

Na época é certo fui atraído pelo desenho da capa, além de obviamente não entender muito sobre o que estava acontecendo na história por ter pego “o bonde andando”. E pelo estado em que desenterrei o exemplar de uma pilha de revistas velhas anos depois, não devo ter ligado muito pro fato de que aquelas páginas deviam ser lidas, e não arrancadas pra, sei lá, talvez fazer aviõezinhos de papel, ou recortar pra depois fazer colagens? Enfim, não sei que fim tiveram as que não sobreviveram ao meu “homicídio” editorial.

revista-alegria-n-88-abrilO que eu sei é que comecei a me interessar conscientemente por desenhos que contavam histórias quando misturados com balõezinhos cheios de texto quando passei a colecionar, no início sem muita consciência de que estava começando uma coleção, a finada Alegria. Era uma revista que, além de quadrinhos, era cheia de atividades, como páginas para colorir, cruzadinhas, jogos de ligar os pontos, entre outras coisas que as crianças adoram fazer no período em que ainda estão aprendendo a ler.

Numa delas, e desta eu me lembro muito bem, veio um papertoy que de nada menos que a Batwing do Batman de Tim Burton, que na época tinha acabado de estrear nos cinemas. Isto foi em meados de 1989.

as aventuras dos trapalhoes abril jovem

Não foi muito tempo depois disto que eu comecei a colecionar As Aventuras dos Trapalhões, que a cada edição parodiava algum sucesso dos cinemas e da TV, em quadrinhos protagonizados pelos Trapalhões. Na mesma época eu estava no primário, atual ensino fundamental (ou seja lá como chamam as primeiras séries hoje em dia…), onde conheci meu amigo mais antigo, o Lucas, que já escreveu aqui pro site. O ápice desse período foi o fabuloso lançamento da primeira graphic novel que comprei na vida, cuja capa diz mais do que qualquer coisa que eu possa dizer a respeito dela (mas escreverei sobre ela em breve, de qualquer forma):

didi volta para o futuro graphic trapa abril jovem

Daí pra frente, tendo um amigo com quem dividir impressões do que eu lia, a vontade de colecionar só aumentou.

Foi só 1994 que “redescobri” os quadrinhos de super-heróis. Quase um ano após sua “morte”, o Superman (na época ainda chamado de Super-Homem, antes da DC “cismar” que ele devia ser chamado oficialmente de Superman no Brasil) iria retornar na minissérie em 3 edições O Retorno do Super-Homem. Um evento tão importante que a Abril Jovem chegou a veicular propagandas na TV mostrando a 1ª edição com sua capa “vazada”, a impactante página inicial estrelada pelo Super-Ciborgue, e um miolo com papel diferenciado. Meu irmão, o Thiago, comprou a HQ, e no mês seguinte, influenciado pelo desenho animado que passava na TV Colosso, começou a colecionar X-Men a partir da edição 72, que tinha uma capa tripla (!) desenhada por Jim Lee. Onde eu entrei nessa história? Bom, eu pegava as HQs emprestadas dele, é claro (algumas vezes de madrugada, sem ele saber, o que contribuiu muito pra eu desenvolver miopia e astigmatismo).

No ano seguinte, como consequência do retorno do Super-Homem, o Superboy, um dos coadjuvantes da saga, ganharia uma série mensal. Como meu irmão havia decidido colecionar a mensal do Homem de Aço, eu resolvi colecionar a do clone adolescente dele. E daí pra frente as séries mensais que colecionávamos só foram aumentando. O Thiago passou a comprar Batman e Liga da Justiça e Batman, além da mensal do Wolverine. Eu fiquei um tempo só colecionando Superboy mesmo. Até que em 1996 começaram a sair no Brasil as primeiras séries de super-heróis da Image Comics: Spawn e The Savage Dragon. Mais uma vez dividimos a “tarefa”, com o Thiago colecionando Spawn e eu Dragon.

Enfim, acho que deu pra vocês entenderem a dinâmica da coisa toda, e a tendência a colecionarmos cada vez mais. Chegou um ponto que o Thiago “cansou” de ler quadrinhos, e eu fui aos poucos incorporando as HQs dele à minha coleção, que já contava não somente com HQs da DC, Marvel e Image Comics, mas também com mangás como Dragon Ball, Evangelion, Vagabond, Dr. Slump, entre outros. Minha paixão pela 9ª arte foi aumentando exponencialmente com o passar dos anos, conforme eu ia descobrindo novos gêneros e novas manifestações da linguagem dos quadrinhos, que foi se revelando mais versátil e com mais potencial do que eu acreditava no início, algo que aqueeele Alan Moore daqueeela edição surrada de Super-Homem me ensinou quando descobri Watchmen. Lição que foi reforçada anos depois quando também tive a felicidade de ler Sandman de Neil Gaiman, Homem-Animal de Grant MorrisonPlanetary de Warren Ellis, entre outros autores que desafiavam a linguagem dos quadrinhos, expandindo suas fronteiras e explorando suas possibilidades ao máximo.

Hoje eu tenho 33 anos, e se você parar uns segundos pra fazer as contas perceberá que minha paixão pelas histórias em quadrinhos tem quase a mesma idade que eu. Portanto, não há muito que fazer a respeito, a não ser expandir a cada novo quadrinho meus horizontes de leitura, explorando Multiversos, e contando pra vocês um pouco do que achei de minhas viagens por eles neste repositório de sentimentos de nerds e geeks apaixonados. Pois, como disse ainda hoje meu amigo Aélsio – outro que conheci graças a esta minha paixão – quando terminou de ouvir o NGF Talk que gravei com Raquel Pinheiro sobre O Pequeno Príncipe: “os verdadeiros nerds são crianças que sobreviveram…”