[ESPECIAL NGF] À sombra da imaginação de todo garoto

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Rememorar os tempos de infância é como voltar por um velho caminho em que, ao final, encontramos uma casa, uma velha e enorme casa dentro de nós. Nela consigo me lembrar de que odiava ser chamado de bebê. Os adultos passavam a mão na minha cabeça deixando meu cabelo bagunçado e diziam, “mas que bonitinho esse bebê”. Você sabe que é um insulto colossal para um garoto de seis ou sete anos ser chamado assim. “Não sou bebê, sou criança”, respondia de braços cruzados e postura séria. Eles riam. “E o que você quer ser quando crescer?”, uma pergunta que quase sempre me faziam. Na época eu assistia a séries como “Jornada nas Estrelas” e “Terra de gigantes”, também filmes como “De volta para o futuro”, “Aliens” e “Viagem fantástica”. Creio que tenham me influenciado bastante no que foi minha resposta aos adultos por um bom tempo. “Cientista, quero ser cientista”, eu dizia sem ter ideia do que ser cientista poderia de fato representar.

Conforme crescia, praticava minha própria ciência da maneira como imaginava. Nos intervalos da escola, desenhava combates entre naves espaciais na mesa. Pensava em como seriam os sensores, o tipo de combustível mais apropriado, as armas e escudos de energia que deveria usar na estratégia de guerra. Em casa, erguia com dificuldade as poltronas, e encaixava-as de ponta cabeça sobre o sofá, deixando um espaço cúbico no interior. Provavelmente foi minha primeira invenção. Nela acionava os botões costurados nas almofadas, e então poderia voltar e avançar em qualquer tempo no espaço. Ao final da tarde tinha por hábito explorar os mundos dentro do escuro sob da cama. Caía no abismo entre a cabeceira e a parede, escorregava envolvido pelo lençol, fingindo que estava encolhendo, descobrindo e combatendo os monstros que me aterrorizavam todas as noites.

Agora fica mais claro que eu não queria ser apenas um cientista.  No fundo desejava ser um herói, igual ao rei Arthur e seus cavaleiros, homens sempre dispostos a morrer pela própria honra e pelos mais fracos. Batman, He-man, Willow e Krull foram algumas das histórias que me despertavam algo mais antigo do que a vontade humana de controlar a natureza através do conhecimento. Uma vontade mais antiga que uma estrela. Era uma semente.

Semana passada estava conversando com uma amiga sobre o tal retorno àquela terra fértil onde os sonhos germinam e todo joelho arranhado dói igual à morte. Falamos sobre nossa profissão e as perspectivas acerca do mundo adulto. Apesar de hoje podermos nos considerar algo como dois professores um pouco sensatos, não fui capaz de acreditar que nossa vida poderia reduzir-se aos anseios desta pretensa maturidade. Viagens, aumento de salário, algum amor e quem sabe filhos. Falamos por horas, mas senti que havíamos esquecido uma lição importante. É provável que seja natural a maneira como perdemos a fé da criança em si de ser um herói. Mas perder a sensibilidade imaginária daquele tempo é como apagar uma parte da alma. Uma fagulha essencial para sermos capazes de enfrentar a fantástica e terrível história que vivemos dia após dia.

Concordo que há trechos tortuosos na memória. Muros de concreto cobertos por arame farpado onde ficamos presos e nos tornamos arremedos de adultos vestindo fantasia de criança. Todavia, não posso negar este meu retorno à velha casa. Não há uma noite de sono que consiga ficar longe dela. Lá sempre iremos descobrir verdades importantes sobre nós. Descobrir todas as noites que à longa sombra da imaginação de todo garoto habita um cavaleiro.