[ESPECIAL DIA DAS CRIANÇAS] Minha mãe nunca se interessou por videogames, e agora eu entendo ela

Para esse dia das crianças, eu quero fazer uma coisa diferente. Enquanto todo mundo lembra da sua infância, do cheirinho do bolo de fubá da sua vó, e de assistir Cavaleiros do Zodíaco, eu vou fazer aqui o papel do fantasma do natal futuro e pintar um quadro trágico: sobre quando a infância começa a terminar.

Para muitos, é óbvio, isso se chama puberdade. Para mim foi quando eu comecei a achar videogames desinteressantes. Fique comigo. Talvez você se identifique com o que eu vou dizer.

Estive pensando muito sobre o dia das crianças. Bastante mesmo. Lembro que quando eu era criança, dia das crianças era dia de ganhar presentes, como para qualquer criança de classe média alta (isso é, antes de eu me tornar dolorosamente pobre, mas essa é uma história para outro dia). A questão do que eu gostaria de ganhar de presente é bastante simples, na verdade: videogame. Obviamente. Nintendo (bom, um nesclone genérico na época), Super Nintendo, Playstation, PS2… O ciclo natural da vida.

Estive pensando bastante sobre isso nesse dia das crianças porque hoje, já quase três décadas depois, com um emprego e salário de adulto, eu totalmente poderia comprar um PS4 se eu quisesse. Não meter a mão no bolso e puxar o dinheiro, mas não é algo impossível realmente. Só que eu não quero. Não lembro disso jamais ter acontecido comigo em uma geração de videogames, tanto desinteresse assim. Eu poderia ser populista e fazer média com o publico dizendo “no meu tempo os jogos eram bons, hoje em dia só tem porcaria”, ou qualquer merda que assim que as pessoas adoram dizer na internet, porque nada dá mais audiência do que puxar o saco do seu público-alvo.

Mas não. Na verdade isso fez eu me lembrar da minha mãe.

Minha mãe nunca se interessou por games quando eu era pequeno. Olhando por cima do seu jornal, ela dava um sorriso suave ao me ver absorvido em Super Mario Brothers antes de voltar a ler.

“Mãe!”, eu dizia, “Joga Mario comigo!”. Com alegria eu lhe alcançava o controle, apenas para ver ela fazer uma careta enquanto a via acidentalmente jogar o pobre do Mario de um penhasco. “Eu não sei jogar esse jogo”, ela dizia, me devolvendo o controle. Com um suspiro, eu retomava o controle e continuava.

Tentando o quanto quisesse, minha mãe nunca conseguiria mover aquele “homenzinho”, como ela chamava, pela tela. Para ela, os jogos eram brinquedos; brinquedos infantis, uma habilidade na qual não valia a pena investir tempo em aprimorar.

Os jogos não forneciam lições, nenhum conhecimento útil, nenhuma recompensa que a interessava. Eles funcionavam para nós, crianças, mas para ela, um adulto inteligente, eles eram uma perda de tempo.

Foi só muitos anos depois que comecei a compartilhar o ponto de vista da minha mãe. Fiquei desapontado ao descobrir que, à medida que eu amadurecia, estava deixando os jogos para trás.

Enquanto meus interesses em outros meios de comunicação cresceram e se tornaram substancialmente mais adultos – do Sábado Animado para os canais de ciência no YouTube, da coleção Vagalume a George Orwell. Mas os jogos não pareciam ter uma contraparte mais inteligente para eu seguir em frente.

Com o passar dos anos, fiquei menos interessado no entretenimento sem sentido e mais interessado em encontrar novas ideias. Eu não queria mais matar o tempo; Eu queria aproveitá-lo! Eu queria ser desafiado com novos conceitos, aprender novos paradigmas, processos e possibilidades!

Para preencher minha crescente necessidade de alimentação intelectual, passei a investir cada vez menos tempo em jogos, e migrei para outros meios de comunicação. Na busca de ideias, encontrei livros de ficção e não ficção, como Brave New World e 1984, que enriqueceram minha vida e me levaram a fazer perguntas que eu nunca havia feito. Com A História Sem Fim eu encontrei a mais criativa metáfora que eu já vi até hoje sobre abrir mão de quem você é para atingir seus objetivos. Com O Caso dos Dez Negrinhos (não faço ideia de qual seja o nome do livro hoje, pois sei que esse título é politicamente incorreto e não se usa mais ele), aprendi a magia de construir uma obra-prima nos detalhes.

Você pegou a ideia.

Enfim, meu ponto é que eu passei a criar um gosto pelo entretenimento com propósito. Mesmo nas séries mais blockbusters e comerciais eu pude encontrar algo para ressonar comigo além do entretenimento.

Mas os jogos que joguei não pareciam ter nada a dizer nesta discussão sobre o pragmático. E quando tinham algo relevante a dizer, era tão entrecortado por algo tão juvenil e bleh, que ficava difícil se comunicar. Ninguém discute, por exemplo, que Bioshock Infinite tem uma das histórias mais incríveis da ficção em qualquer mídia. Outra coisa que ninguém pode discutir que é essa história incrível é menos de 10% do jogo, os outros 90% é um brinquedo juvenil sobre atirar em capangas infinitos sem nome.

Imagine que cada 1 minuto de Apocalypse Now fosse seguido por outros 9 minutos com cenas de ação saídas de Deadpool. Ok, eu sei que o adolescente dentro de você está urrando que essa é a melhor ideia de todos os tempos, mas se tirar dois segundos para pensar sobre o que faz um filme funcionar, vai ver que essa é uma péssima ideia.

Como tal, um jogo como BioShock Infinite representa um grande problema para alguém que quer contar uma história. O escritor ou diretor é limado de dispositivos narrativos fundamentais: ele ou ela não pode controlar a velocidade em que os eventos se desenrolam, e todo o trabalho colocado em estabelecer um determinado tom é prejudicado porque os jogadores ficam entediados se não estiverem atirando em alguém a cada 3 segundos.

Não acho que nenhuma narrativa possa suportar esse tipo de tratamento.

O Bioshock original é pior ainda. Todo grande conceito, cenário e personagens que seriam interessantes têm que ser freados porque o jogo mesmo é sobre atirar em zumbis (ok, tecnicamente não são, mas na prática são). Imagino se, em algum momento, Barry Jenkins cogitou colocar zumbis a cada 5 minutos em Moonlight, porque, né, senão o filme ia ficar chato!

Percebe o real problema com os videogames?

E olha que Bioshock já é o creme de la creme. A maioria dos jogos sequer tem esse problema, porque eles nem sonham em ter uma história interessante para contar.

Como jogador de videogame de longa data, eu comecei a me perguntar: é realmente necessário ser assim? Por que os jogos estão presos a essa obsessão de pré-adolescente de tiro, espadada, zumbis, nazistas e peitos, enquanto outras mídias conseguiram satisfazer diferentes consumidores em diferentes estágios da vida?

Os livros, por exemplo, também são capazes de puro entretenimento. Então, por que a palavra escrita era versátil o suficiente para aprofundar a psique humana, enquanto os jogos só podiam proporcionar uma diversão simples? Certamente havia uma maneira de fazer jogos com mais profundidade do que o Super Mario. Mas, se sim, onde estavam?

Comecei a comparar jogos com outras formas de comunicação, e notei que alguns meios de comunicação atingiram a tal da “maturidade”, por assim dizer. Mais idealmente, misturar entretenimento com discussões significativas. A televisão dominou essa arte. Os filmes, então, nem se fala. Livros e revistas, nada atrás.

Não por coincidência, todas essas mídias são universalmente aceitas e nem sequer questionadas quando as vemos expressando as preocupações mais profundas da realidade. Simplesmente uma paleta sobre a qual os artistas podem criar seu ofício. Eles são capazes de ser puro entretenimento ou puro discurso intelectual. Como mídia, eles são livres.

Games não têm esse luxo. Para muitas pessoas, os jogos só podem existir para o entretenimento puro. O irmão mais velho dos videogames, nesse aspecto, são os quadrinhos. Eu sei, estou ouvindo você dizer “ah, mas quadrinhos são uma mídia adulta e respeitada!”

É mesmo? Então por que criamos o termo “graphic novel” para diferenciar esse ramo de “quadrinhos para adultos”? Aliás, eu estou tendo que explicar “quadrinhos para adultos”, o que meio que já demonstra todo o meu ponto aqui. O artista Scott McCloud escreveu (e desenhou) extensivamente sobre a tragédia dos quadrinhos. Eles, como os jogos, são um meio que ainda é associado a uma audiência infanto-juvenil.

Se possível leia “Desvendando os Quadrinhos” dele. É um insight maravilhoso sobre o que HQs realmente significam

Apenas um pequeno punhado de quadrinhos conseguiu alcançar conceitos mais profundos e intelectuais do que a ação de super-heróis. Assim como qualquer gamer gagueja para citar 5 jogos que não sejam uma fantasia de poder juvenil, não é tão diferente assim com os quadrinhos que não envolvam pessoas de roupas coloridas. No entanto, McCloud argumenta que os quadrinhos, como um meio, são capazes de muito mais do que as fantasias infantis. Temas de romance, biografia, sátira ou surrealismo não estão fora do alcance deles.

Mas estou me desviando do ponto aqui. Então, como resolver isso?

Os jogos têm muito o que fazer antes de estarem prontos para serem ouvidos. Mas imagine quando chegarmos lá: imagine jogos que possam ajudá-lo a entender a vida fora do seu país, a conceituar as dificuldades dos pobres. Imagine jogos que possam expandir sua mente e tornar o seu mundo pessoal mais rico do que antes. Esses são jogos que merecem ser procurados.

Não que outros tipos não mereçam, não é esse o ponto aqui. Eu gosto da série Velozes e Furiosos, e não quero que ela deixe de existir, porque às vezes é bom você só poder assistir caras foda fazendo coisas foda. Do mesmo modo que eu não quero que Overwatch deixe de existir, porque eu só quero instalar torretas da morte com um anão mecânico. O que eu quero dizer é que eu não quero que deixe de ser isso, eu quero apenas que seja TAMBÉM muito mais que isso.

“Ah, mas você está esquecendo de…”

Não, eu não estou. Alguns jogos já chegaram a esse ponto e têm muito a dizer como experiência narrativa de uma forma que nenhuma outra mídia conseguiria. Jogos que, quando você desliga o console, algo permanece com você; Meu próximo artigo será justamente sobre os jogos que chegaram onde eu quero que cheguem. TOP 10 de jogos para adultos.

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