[ENTREVISTA] Stan Lee: Entrevista para a Playboy [Parte IV – Final]

Hulk, Batman e Bob Kane, a morte, DSTs e uma visitinha de Federico Fellini são apenas algumas das coisas abordadas na última parte da imensa entrevista do mestre para a Playboy. Leia as outras partes clicando nos links abaixo:

PARTE I

PARTE II

PARTE III

PLAYBOY: Vamos voltar ao início de sua carreira por um minuto. Você se lembra da primeira revista em quadrinhos que escreveu?

LEE: Foi uma história em prosa em uma das revistas do Capitão América, uma história de duas páginas tipografadas. Ninguém lia essas histórias. Foi por isso que me deixaram fazer uma. Você não pode chamar um gibi de revista e conseguir as taxas postais para revistas sem ter pelo menos duas páginas escritas. Um dia eu estava por lá enchendo potinhos de tinha e apagando páginas para os caras, e alguém disse “Hey, Stan, precisamos de uma história de duas páginas”. Então escrevi uma. E foi isso.

PLAYBOY: Você foi para o exército na Segunda Guerra Mundial e escreveu panfletos militares com um grupo de elite que incluía Frank Capra, William Saroyan e Theodor Geisel. Quais as suas  melhores memórias sobre isso?

LEE: Aquele Dr. Seuss ela lento. No mundo dos quadrinhos, você vive e morre em sua própria velocidade, mas Geisel era lento. A maior parte deles era lento. Eu escrevia mais rápido que todos eles. Um dia o major que estava no comando da unidade disse “Sargento, você pode trabalhar um pouco mais devagar? Você está fazendo os outros caras parecerem ruins.” Escrevi o roteiro desses filmes de treinamento sobre coisas que eu não tinha conhecimento. Lembro que fiz um filme, “A nomenclatura e Operação daCâmera16 mm IMO Sob Condições de Batalha”. Mas o que recebeu mais atenção foi algo que escrevi sobre doenças venéreas.

PLAYBOY: Você escreveu um manual sobre sexo?

LEE: Não, eles precisaram de mim para ajudar com que os aliados evitassem doenças. Eles sempre pegavam DSTs. Então eles tinham o que chamavam de estações profiláticas, pequenas construções de um quarto, com luzes verdes no interior. Depois que você tinha contato carnal com uma fêmea, você deveria ir a uma estação de tratamento para ser desinfetado da maneira mais terrível. Minha missão era avisar as tropas para irem às estações de tratamento depois que tivessem feito sexo. Então fiz um pequeno cartum de um soldado. Havia a luz verde. Sobre sua cabeça havia um pequeno balão de diálogo que dizia “DST? Eu não!” Eles imprimiram uns dois milhões desses panfletos. Acho que provavelmente nós ganhamos a guerra com base nisso.

PLAYBOY: É verdade que você continuou trabalhando para a Marvel durante todo esse período?

LEE: Sim. Sempre que eu estava livre eu escrevia algo novo. Comprei um carro com o dinheiro que eles me enviaram enquanto estava no exército. Eu costumava passear com vários oficiais. Alguns eram meus melhores amigos, Majores e capitães, mesmo eu sendo um homem alistado. Eu supostamente não deveria ficar passeando com eles, então eu usava um sweater verde oliva que tampava o a graduação. Nós saíamos e bebíamos e nos divertíamos. Mas eu sempre fui um motorista responsável.

1940StanLee_zpseda8b677[1]

PLAYBOY: Falando nisso, você se lembra do momento em que surgiu a frase “Com grandes poderes vem grandes responsabilidades’?

LEE: A verdade, juro por Deus, é que acho que criei isso para o tio Ben dizer. Mas então alguém me escreveu dizendo que Voltaire havia dito isso em francês há alguns séculos antes. Eu nunca li Voltaire. Eu não falo francês. Eu só gostei de como isso soou.

PLAYBOY: Quando você notou pela primeira vez que havia criado um frisson global com seus personagens?

LEE: Houve muitos momentos. Nós recebíamos cartas de todos os lugares e também visitantes, incluindo alguns famosos. Lembro-me de ser visitado por Federico Fellini. Ele veio e disse que queria me conhecer. Nunca esquecerei. Eu tinha um pequeno escritório no fim de um longo corredor. Recebi uma chamada avisando que ele estava a caminho e vi Fellini andando em minha direção, acompanhado por quatro de seus assistentes, todos vestidos com o mesmo sobretudo preto, todos em ordem decrescente de altura. Fellini era o mais alto, e atrás dele estavam os outros quatro. Foi uma visão engraçada. Eu queria conversar com ele sobre os filmes que fez, 8 ½ e todos os outros. Ele queria conversar sobe o Homem-Aranha. Anos depois ele foi gentil o bastante para mostrar a Itália para minha filha e cuidar dela. Teria sido interessante trabalhar com ele. Ele teria sido bom com os X-Men. Fellini e Magneto seria uma combinação interessante.

PLAYBOY: No próximo filme dos X-Men, os X-Men dos anos 70 se encontram com o grupo dos dias modernos. Você se preocupa se alguém vai estragar seus personagens originais?

LEE: Eu nem penso nisso. Sei que normalmente eles aparecem com algo interessante, e se não, algo mais surgirá. A coisa boa sobre histórias é que você sempre pode encontrar um novo ângulo que será bom. Pra ser honesto, eu há muito tempo deixo isso pra lá. Deixei esses personagens de 1972 quando me tornei editor. Nunca fui um editor de verdade porque editores são homens de negócios e eu não sou. Mas como um editor, eu parei de escrever revistas, a maior parte do tempo. Todos esses personagens eventualmente encontraram seu caminho.

PLAYBOY: O Hulk sempre foi especialmente difícil. Mesmo a popular série dos anos 70, com Lou Ferrigno, é mais camp do que clássica.

LEE: Eles tentaram um Hulk Verde e um Hulk Vermelho e um Hulk Azul. Todo mundo tentou alguma coisa, mas eu acho que todo mundo fez errado. No último filme ele ficou muito bom, e o ator foi muito bom. Mas eles o fizeram grande demais e começaram a mudar sua cor. É algo tão simples. É como Dr. Jekyll e Mr. Hyde, como eu o concebi. Ele é um cientista que se torna um monstro. Ele detesta o monstro e quer se curar de se tornar isso. O monstro detesta o cientista e não quer se aquele tipo de cara que é um nada, um fracote. Ele gosta de ser o Hulk. Para mim, como escritor, eu poderia brincar com isso e surgir com um milhão de roteiros. Por alguma razão, Hollywood continua fazendo o Hulk grande assim, um louco bruto. Algum dia alguém deveria voltar ao básico.

3698030-8724205718-March[1]

PLAYBOY: Você está excitado para ver “Vingadores: A Era de Ultron”?

LEE: Excitado? Claro. Mas tenho que ser honesto. Eu não tenho ideia de quem seja Ultron. Ele foi um personagem criado depois que eu deixei de estar envolvido nas histórias dos Vingadores. Eu estava perguntando a alguns caras do escritório quem é Ultron, mas meu telefone tocou e fiquei ocupado e nunca descobri. A Marvel introduziu tantos personagens e situações estranhas que é difícil conhecer tudo.

PLAYBOY: Verdade, mas por que nunca mais criamos novos Super-Heróis? Nós ainda, na maioria das vezes, dependemos de personagens como os seus e muitos outros, como o Super – Homem e o Batman, para salvar o dia.

LEE: Bem, editores não precisam de novos heróis agora. Eles precisavam quando eu estava os criando. Meu editor dizia “Hey, Stan, o último vendeu muito bem. Crie algum outro – ou quatro – para mim.” Agora eles não precisam dizer isso. Tudo o que eles tem que dizer é “Quando vamos encontrar tempo para fazer um filme sobre o Homem – Formiga ou publicar outra edição do Surfista Prateado?” Temos muito material que a audiência adora na reserva. E você sabe que Hollywood adora algo certeiro. Não há fins de semana ou canais de TV ou estantes de livrarias suficientes para todos os títulos que a Marvel planeja lançar. Não é só Capitão América, Quarteto Fantástico, Demolidor e o resto. Temos dúzias para desenhar, e os fãs ficam perguntando “Stan, quando eles vão fazer algum filme sobe o Pantera Negra?” Por coincidência, eu mesmo adoraria ver um filme do Pantera Negra.  Sei que estão trabalhando em um. Mas os fãs dirão “E sobre o Homem – Formiga? Ou os Inumanos? Ou o Aniquilador?“.

PLAYBOY: Depois de décadas de eventos como a Comic-Con e agora seu próprio Comikaze Comic – Book Expo, você deve estar cansado de perguntas de fãs geeks.

LEE: Eu gosto das perguntas e sempre tento dar alguma resposta engraçada. Por exemplo, eles dizem, “Quem Ganharia, Hulk ou Galactus?” Eu digo, “Depende de quem está escrevendo a história”. “O que fez você trabalhar tão duro e fazer todas essas histórias?” Eu digo a eles, “ganância”. Mesmo se eu já tiver ouvido a questão 800 vezes antes, sempre teto dar a eles uma resposta que eles não esperam.  Como quando perguntam “Que tipo de super poder você queria ter?” Digo “Sorte, porque se você tem sorte você tem tudo”. Na verdade eu acredito nesse.

PLAYBOY: Você mencionou o Homem – Formiga um minuto atrás. Qual é o status da versão para cinema?

LEE: Está vindo. [Nota do Editor: O filme, dirigido por Edgar Wright, com Hank Pym interpretado por Michael Douglas, e com Scott Lang, está programado para Julho de 2015] O que é incrível sobre o Homem – Formiga é que ele é pequeno e pode fazer um monte de coisas que uma pessoa normal não pode, mas ele também é incrivelmente vulnerável. A coisa mais importante com qualquer herói é que ele em que ser vulnerável. Se alguém nunca pode ser machucado, não tem graça. Um dos problemas que eu sempre tive com o Super – Homem é: como posso me importar com ele? Você não pode matá-lo, você não pode machucá-lo. Mas com um cara pequeno como o Homem – Formiga há tantas coisas que ele pode fazer, mas ele está em perigo a cada minuto de sua vida. Há essa tensão de pensar que ele deveria ficar maior e mais ágil. Para dar outro exemplo, nos filmes mais recentes o Batman esteve mais vulnerável, e isso o fez mais interessante.

PLAYBOY: Falando do Batman, como era uma noite na cidade com seu amigo e criador do Batman, Bob Kane?

LEE: Ele sempre estava atrasado, para começar. Nós fazíamos uma reserva em um restaurante para as 19:30 e Bob com sua esposa chegavam às 20:30.  Se nos atrasávamos meia hora eles se atrasavam meia hora mais. Isso se tornou um jogo. Eles estavam sempre mais atrasados que nós. Então assim que nos sentávamos, depois de alguns segundos ele tinha que dizer ao garçom “Você sabe quem eu sou? Sou Bob Kane. Eu desenho o Batman. Veja, vou te mostrar” E ele desenhava um pequeno Batman. Ele era feliz sendo quem era. Você podia notar isso. Ele nunca estava no horário para jantar, mas ele amava Batman e amava ser reconhecido por isso, e nós tivemos bons momentos falando sobre esses personagens. Tive vários bons momentos.

PLAYBOY: Tem sido uma vida fácil para você?

LEE: A vida nunca é completamente sem desafios. Tenho uma nova válvula no coração que foi colocada há dois anos. Tenho um pouco de asma, fico cansado às vezes. Mas não tenho tido muita angústia. Digo, certamente no começo da minha carreira, antes do Quarteto Fantástico, eu batalhei. Eu sentia que nunca iria chegar a algum lugar. Mesmo depois eu ainda ficava embaraçado ao dizer que escrevia quadrinhos para viver. Eu tinha muita vergonha sobre isso. Mesmo quando eu já tinha uma boa vida, meu pai não pensava em mim como alguém de sucesso. Ele estava muito fechado em si mesmo na maior parte do tempo. Algo disso me afetou. Eu sempre ficava olhando para as pessoas que estavam se saindo melhor do que eu e desejava estar fazendo o que elas faziam. Steven Spielberg ou um escritor como Harlan Ellison, ou até mesmo Hugh Hefner. Parte de mim sempre sente que eu ainda não cheguei lá.

PLAYBOY: Você já fez terapia?

LEE: Nunca tive tempo, não. Mas se alguém me pedir uma auto avaliação, eu diria que sou particularmente normal, um cara equilibrado. Eu sou só um cara que gosta do que faz.

PLAYBOY: Você começou sua carreira escrevendo obituários. Você já pensou sobre o que gostaria que o seu dissesse?

LEE: Sei que o meu já está escrito. Está ali descansando em algum computador do New York Times. Está pronto para ser publicado. Você não pode parar isso. Tive uma vida feliz. Não quero que ninguém pense que tratei Ditko ou Kirby desonestamente. Acho que tivemos um relacionamento maravilhoso. O talento deles era incrível. Mas as coisas que eles queriam não estavam em meu poder para dar a eles.

Sempre estou olhando adiante, mesmo nessa idade. Sabe, meu lema é “Excelsior”. É uma velha palavra que significa “para cima e para frente rumo à grande glória”. Está no selo do Estado de Nova York. Continue adiante e, se é tempo de ir, é tempo. Nada dura para sempre. Inferno, estou com 91 anos. Se eu tiver de ir enquanto falo com você, eu tive uma vida longa o bastante. Eu detestaria deixar minha esposa e minha filha, mas Deus sabe que está acima de mim. E eu nem acredito em Deus na verdade.

PLAYBOY: Na revista nº 700 de O Incrível Homem – Aranha Peter Parker morre em uma batalha com Doutor Octopus.

LEE: Sim, mas ele não morre. Eles o trazem de volta, ou vai acontecer dele nem ter morrido de verdade. É como Sherlock Holmes. Amava Sherlock Holmes quando era mais novo, e havia tantas situações. Ele sempre saía de cada uma. Você nunca fica sem ideias.

PLAYBOY: Talvez haja uma versão zumbi do Spidey.

LEE: Zumbis são intrigantes para mim. Eles estão no ápice agora, mas nunca os entendi. Pense nisso: se eu estivesse morto e voltasse à vida eu não sairia por aí tentando matar pessoas. Eu estaria dizendo “Wow! Sou o cara mais sortudo do mundo. Não é incrível? Olá, sua pessoa maravilhosa, vamos sair e nos divertir” Se eu morresse em um instante e de algum modo voltasse, eu não estaria bravo. Haveria uma grande festa.

spiderman-zombie[1]