[Entrevista] Stan Lee: Entrevista para a Playboy [Parte II]

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Na segunda parte da entrevista Lee fala sobre os atores que interpretaram o Homem-Aranha no cinema, sobre Ben Affleck como Batman, sobre as tretas com Steve Ditko e Jack Kirby e muito mais!

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PLAYBOY: A Disney pagou mais de 4 bilhões pela Marvel há alguns anos. Você pelo menos teve um helicóptero no estilo do Tony Stark na negociação?

LEE: Vou te contar algo que aconteceu recentemente. Minha filha estava olhando na internet um dia desses e leu que “Stan Lee tinha cerca de 280 milhões”. Digo, isso é ridículo! Eu não tenho 200 milhões. Eu não tenho 150 milhões. Não tenho nem 100 milhões ou algo próximo disso.

PLAYBOY: Você não acha que deveria ter?

LEE: Não.

PLAYBOY: George Lucas criou poucos personagens e agora poderia comprar um país se quisesse.

STAN LEE: Sim, mas George Lucas fez tudo sozinho. Ele surgiu com as ideias. Produziu os filmes. Escreveu e dirigiu e manteve todos os direitos de merchandising. Foi tudo ele. Em meu caso, trabalhei para o editor. Se a revista não vendesse o editor falia – e um monte de editores faliu. O artista e o escritor faziam uma “aposta“ com o editor na esperança de que as revistas vendessem bem.

Você tem que entender que ao ter crescido durante a depressão, vi meus pais batalhando para pagar o aluguel. Meu pai sempre estava desempregado e quando conseguia um emprego era como alfaiate. Não havia muito dinheiro ali. Eu estava feliz em ter um bom contracheque e ser tratado bem. Sempre tive um alto salário. Qualquer tanto que Martin pagasse a outro escritor, eu ganharia pelo menos o mesmo. Era um ótimo trabalho. Pude comprar uma casa em Long Island. Nunca sonhei em ter 100 ou 250 milhões ou qualquer número louco que seja. Tudo o que sei é que criei um monte de personagens e adorei o trabalho que fiz.

PLAYBOY: Um dos maiores personagens da Marvel tem sido Stan Lee. Você apareceu em quadrinhos, em uma coluna chamada Stan’s Soapbox e em cameos nos filmes da Marvel, no estilo do Hitchcock.

LEE: Eu até mesmo fiz um personagem baseado no Hef em Homem de Ferro. Todos foram divertidos de fazer. O que eu tomei o maior fora foi provavelmente no filme do Quarteto Fantástico, quando não fui convidado para o casamento de Sue e Reed e não me deixaram entrar. Eu disse “Mas eu sou Stan Lee”, e o segurança empurrou-me para fora.

PLAYBOY: Quando o Stan Lee dos quadrinhos termina e o verdadeiro você começa?

LEE: Honestamente, o que você vê é o verdadeiro Eu, particularmente se o que você vê é um tipo de cara maravilhoso, adorável, interessante e excitante. Então, garoto, eles me deixaram mais humilde. “Por favor, diga que ele disse isso com uma risada“.

PLAYBOY: Brincadeiras a parte, um problema te persegue e afeta seu legado – a ideia de que você levou muito crédito por personagens que você criou com artistas como Jack Kirby e Steve Ditko. Você fez muito para reconhecer suas contribuições e autorias, mas a controvérsia persiste. Algo pode ser feito para acalmar a situação e fazer o certo por esses caras de uma vez por todas?

LEE: Eu não sei o que você quer dizer com “fazer o certo” por eles. Sempre tentei colocá-los na mais favorável luz, até nos créditos. Nunca houve um tempo em que eu apenas disse “por Stan Lee”. Sempre foi “por Stan Lee e Steve Ditko” ou “por Stan Lee e Jack Kirby”. Sempre me assegurei para que seus nomes fossem tão grandes quanto o meu.

Contanto que eles estivessem sendo pagos, eu não tinha nada a ver com aquilo. Eram contratados como artistas free-lance, e trabalharam como artistas free-lance. Em algum ponto eles aparentemente sentiram que deveriam ganhar mais dinheiro. Tudo bem, cabia a eles falar com o editor. Não tinha nada a ver comigo. Eu também gostaria de ter tido mais dinheiro. Nunca fiz disso um problema. Fui pago por páginas pelo que escrevi, o mesmo que outros escritores, talvez um dólar a mais por página.

Se você me perguntar “eles deveriam ter ganhado mais?” Então terei que dizer, John Romita não deveria ter ganhado mais? Gil Kane não deveria ter ganhado mais? John Buscema não deveria? Todos eles foram grandes artistas da Marvel. Em outras palavras, se alguém faz um quadrinho e ele faz sucesso, você volta atrás? Eu não sei. Essa é a razão pela qual eu nunca fui e nunca quis ser um homem de negócios. Eu não sei como lidar com essas coisas.

PLAYBOY: Você fez parte da gerência da Marvel por muitos anos.

LEE: É verdade. E duas vezes, não uma só, eu ofereci trabalho a Jack Kirby. Eu disse a ele “Jack, por que não trabalha na Marvel comigo?” Eu era diretor de arte na época. Eu disse “você será o diretor de arte. Eu serei somente o editor e escritor principal e você terá seguramente isso”. Ele não iria fazer isso. Ele não queria. Eu adoraria ter ele trabalhando lado a lado comigo. Eu adorava o jeito que Jack desenhava. Ele poderia desenhar algo que tivesse aparecido em sua mente, poderia traçar algo assim que tivesse pensado nisso. Eu nunca vi um homem desenhar tão rápido quando Jack desenhou. “Venha trabalhar comigo, Jack”, eu disse. Mas ele disse não. Ele não queria um emprego de funcionário. Tanto ele quando Ditko, não vejo onde foram tratados injustamente.

PLAYBOY: Kirby morreu em 1994. Você se lembra da última vez que o viu?

LEE: Vou te contar, a última coisa que Kirby me disse fui muito estranha. Encontrei-o em uma convenção de quadrinhos pouco antes de ele morrer. Ele não estava bem. Veio até mim e disse ”Stan, você não deve sentir vergonha de si mesmo”. Ele sabia que as pessoas estavam dizendo coisas sobre mim, mas ele quis que eu soubesse que eu não tinha feito nada de errado aos olhos dele. Acho que ele entendeu isso. Então foi embora. Fui a seu funeral, aliás.

PLAYBOY: E como foi?

LEE: Bem, foi terrível. Digo, ele não deveria ter morrido tão jovem. [n.e.: Kirby morreu com 76] Fiquei mais ao fundo porque não queria que ninguém me visse. Era o funeral de Jack. Sua esposa, Roz, me viu. Ela sabia que eu estava lá. Então fui embora, foi isso. Jack era um cara grandioso e também é Steve. Sinto muito que alguém pense que há algum amargor.

PLAYBOY: Steve Ditko está com seus oitenta e poucos anos agora, mas não faz uma aparição pública em décadas. Você tem falado com ele?

LEE: Encontrei-me com ele há cerca de dez anos. Eu estava nos escritórios da Marvel. Conversamos por um tempo, muito amigavelmente. Eu disse que seria ótimo se pudéssemos fazer algo juntos novamente. Eu gostaria disso. Nunca soube por que ele se demitiu, em primeiro lugar. Pode ter a ver com o fato de eu ter dito a ele como fazer as histórias. Com o Duende verde, nós não sabíamos quem de fato era o personagem. Eu queria que fosse o pai de Harry Osborn. Ditko disse “Não, eu não quero que seja assim. Deve ser alguém que não conhecemos”. Então eu disse “Steve, os leitores têm seguido a série por um longo tempo, esperando para saber quem ele é. Se é alguém que nunca viram, ficarão frustrados”. De qualquer modo, não pude convencê-lo e ele certamente não convenceu a mim, então pode ter sido isso que o afastou. Mas ele nunca me disse e não nos vemos mais.

PLAYBOY: Mudando de assunto, uma companhia conhecida como Stan Lee Media recentemente processou a Disney em cinco bilhões, reivindicando os direitos devidos de seus personagens. Isso deve ser irritante.

LEE: É inacreditavelmente irritante, porque as pessoas pensam que sou eu. Eu tive uma empresa chamada Stan Lee Media, mas ela faliu. O sujeito que estava por trás disso está na cadeia nesse momento. Foi uma situação lamentável. Por alguma razão pessoas gastaram anos e Deus sabe quanto dinheiro reivindicando que eu tinha direitos sobre os personagens da Marvel. De novo digo, nunca tive direitos sobre esses personagens. A coisa toda é baseada em nada. Infelizmente não consigo impedi-los de usar meu nome.

PLAYBOY: Vamos mudar de assunto. Ben Affleck recebeu críticas duras há uma década, quando fez o Demolidor. O que você acha dele como o novo Batman?

LEE: Acho formidável! Demolidor não foi um sucesso como os outros filmes nossos, mas acho que não foi escrito ou talvez dirigido como eu o concebi. O filme é obscuro, e fizeram tanta coisa com ele e a igreja. Mas quanto a Ben, fará um grande trabalho como Batman. As pessoas estão dizendo que ele está muito velho. Ouçam, na minha perspectiva, ele ainda é um homem muito jovem.

PLAYBOY: O que você prefere: Tobey Maguire ou Andrew Garfield como o Homem-Aranha?

LEE: Quando vi Tobey Maguire a primeira vez no papel, pensei “ele é absolutamente o perfeito Peter Parker”. Quando vi Andy Garfield no papel, pensei “Andy é mais que perfeito”. Os dois são ótimos e os dois são diferentes. Não é como se pegassem o primeiro cara que vissem na rua para esse papel. Pessoas muito mais espertas que eu escolhem o elenco para esses filmes. Eles fazem um trabalho fantástico.

PLAYBOY: O que você acha da ideia que Garfield levantou em uma entrevista ano passado sobre a possibilidade de o Homem-Aranha ser gay?

LEE: Veja, não posso controlar o que atores dizem ou como se comportam. Posso somente comentar sobre como atuam. E, como eu disse, Andy é magnífico no papel. Eu não tenho nenhum receio sobre o Homem-Aranha. Acho que se ele fosse gordo e flácido e não se parecesse em nada com um super herói, então você ouviria algo de mim, mas há dinheiro demais investido nesses filmes para que eles possam brincar por aí com o elenco ou com a concepção básica de como os personagens são.

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