[ENTREVISTA] Stan Lee: Entrevista para a Playboy. [PARTE I]

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Esse mês a Playboy americana publicou uma extensa entrevista com o mestre Stan Lee. É o que você confere agora, em quatro partes que serão publicadas semanalmente aqui no NGF. Stan, com seus 91 anos, dá uma aula de lucidez, humildade e humor. Excelsior!

Com 91 anos, Stan Lee é o que pode se chamar de Super Herói Emérito. Suas aventuras épicas estão, em sua maioria, no seu passado e seus poderes estão em declínio (ele não pode ver nem ouvir muito bem e um marca-passo regula seu coração). Mas o escritor de quadrinhos que inventou Homem-Aranha, X-Men, O Hulk, Homem de Ferro e o Quarteto Fantástico ainda trabalha cinco dias por semana, viaja onde qualquer convenção Geek esteja e assina cada autógrafo com sua marca registrada: “Excelsior”!

Filho de pobres imigrantes judeus vindos da Romênia, Stanley Martin Lieber (ele depois encurtou o nome legalmente) nunca se tornou o novelista que aspirava ser enquanto crescia na Upper West Side, em Nova York. Mas fantasiar sobre aranhas radioativas, campos de força magnéticos e beldades como a Viúva Negra deram a ele uma grandiosa vida e um legado que ultrapassará a todos nós.

Em 1939 um tio de Lee o ajudou a conseguir um emprego de assistente na Timely Comics, uma companhia onde o chefe, Martin Goodman (parente de Lee), depois renomeou para Marvel. Mostrando ser promissor ao providenciar texto para Capitão América, Lee se tornou editor da Marvel com 18 anos de idade, um cargo “provisório” que ele acabou ocupando até 1972. Na maior parte desse tempo Lee tomou conta de quase tudo na Marvel até o ponto de ter um esgotamento. Sua carreira só decolou depois que sua esposa, Joan, uma ex-modelo britânica, convenceu-o a criar personagens “do modo que sempre sonhou”.

Entre 1961 e 1965, em um dos mais notáveis rompantes criativos da cultura pop, Lee, trabalhando com artistas freelance como Jack Kirby e Steve Ditko, criou os personagens chave do que seria conhecido como Revolução Marvel (os herdeiros de Kirby anos depois processariam Lee por uma parte dessa criação). Super Heróis não eram mais bidimensionais e bonzinhos, mas peculiares, falhos e angustiados. O Quarteto Fantástico brigava. O Hulk e os X-Men lutavam com seus alter-egos. Até o Homem-Aranha, um personagem que Lee criou – ou assim é contada a história – enquanto ele observava uma mosca andando em uma parede, estava um caco.

As criações de Lee hoje desfrutam de sua maior audiência. Depois de declarar falência em 1996, a Marvel voltou com blockbusters, entretenimento digital e, claro, mais quadrinhos. A Disney comprou a companhia por 4,2 bilhões de dólares em 2009, no entanto, surpreendentemente Lee não recebeu um centavo por isso. Na época ele já tinha criado sua própria empresa, a “POW! Entertainment”. Mas ele sempre será o Sr. Marvel.

David Hochman, editor e colaborador da Playboy, passou dois dias com Lee em seu escritório em Berverly Hills. “Stan tem o rosnado áspero de uma era passada, mas ele é notavelmente afiado, plugado e rápido nas respostas. Todos nós deveríamos ser tão cool quanto Stan Lee nessa idade”.

LEE: Então a Playboy quer saber sobre a minha vida sexual?

PLAYBOY: Se é por onde você gostaria de começar…

LEE: É interessante. Anos e anos atrás a revista estava considerando em fazer uma dessas entrevistas comigo, mas acho que não era a hora. Um de seus editores disse “nós conhecemos Stan Lee. Nós amamos Stan Lee. Stan Lee é amigo de Hef [n.t.:Hugh Hefner, o garanhão dono da revista]. Mas o Homem-Aranha é mais famoso do que ele”. Isso significa que eu finalmente sou maior que o Homem-Aranha?

PLAYBOY: Esse certamente pode ser o caso. Os personagens que você criou décadas atrás dominam a cultura pop. “Homem de Ferro 3” foi o filme com maior orçamento de 2013. “Os Vingadores” foi o maior de 2012. “X-Men – Dias de Um Futuro Esquecido” pode facilmente liderar 2014. Sem mencionar TV, publicidade, merchandising e vídeo games. Como você maneja o continuo sucesso desses antigos Super Heróis?

LEE: É porque os criei tão magnificamente, não acha? Na verdade, tenho uma teoria. Podemos nos tornar filosóficos?

PLAYBOY: Por favor.

LEE: É uma extensão dos contos de fadas que lemos quando éramos crianças. Ou das histórias de monstros, sobre bruxas e feiticeiras. Você envelhece um pouco e você não se importa com histórias de monstros e de fadas mais, mas eu acho que você não perde seu amor pelas coisas que são fantásticas, que são maiores que você – os gigantes ou as criaturas de outros planetas com super poderes que podem fazer coisas que você não pode.

O encanto desses tantos personagens é que eles são extraordinários e ordinários ao mesmo tempo. Isso os fez mais compreensíveis. O Quarteto Fantástico têm poderes incomuns, mas eles também são uma família com suas fraquezas. Sr. Fantástico, por exemplo, pode ser um verdadeiro pé no saco. E o Homem-Aranha era como vários adolescentes – confuso, problemático. Ele tinha complicações tentando achar seu lugar no mundo ao mesmo tempo em que lidava com o fato de ser Super-Herói. O Coisa e O Hulk eram monstros desorientados – aberrações, é o que eram – e isso os deu certo ar patético. Os X-Men eram desajustados magníficos. E tínhamos o Demolidor, que era cego mas podia fazer qualquer coisa melhor do que a maioria das pessoas que enxergavam. Não criei o Capitão América, mas eu tentei fazer dele mais do que só um homem forte que lutava contra caras maus. Tentei dar a ele uma personalidade e seus próprios medos, problemas e frustrações. E sobre Dr. Estranho então?! Amo esse cara, um cirurgião que teve as mãos destruídas em um acidente. Ele teve que lutar para encontrar seu lugar e eventualmente aprender mágica das antigas tradições místicas. Não fizeram um filme sobre o Dr. Estranho ainda, mas farão.

Então veja, quadrinhos para mim são contos de fadas para adultos. Homem de Ferro, Os Vingadores, Homem-Aranha e todo o resto são populares pelos mesmos motivos que João e o Pé de Feijão ainda é popular depois de milhões de anos. São boas histórias sobre personagens que são como nós, mas também maiores que nós. Esse é o fim de minha lição de filosofia.  Isso deveria ser esculpido em uma pedra.

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PLAYBOY: De um ponto de vista criativo, quais experiências você teve durante o intenso período de 1961 a 1965, quando você escreveu O Quarteto Fantástico, O Espetacular Homem-Aranha, Os Vingadores – que incluíam os personagens Thor, O Hulk, Homem de Ferro e Loki – Demolidor e os X-Men, entre outros?

LEE: Para ser honesto, eu poderia ter feito isso antes; eu poderia ter feito isso depois.  Foi só porque meu chefe me pediu para fazer. Por exemplo, depois de eu ter feito O Quarteto Fantástico, Martin, meu editor, disse “Dê-me outro monte de Heróis”. Ele também não estava vibrando com o fato da concorrência, DC Comics, ter a Liga da Justiça. Então fiz o que eu sabia fazer. Criei outro grupo de personagens.

Primeiramente inventei a origem. Como esse grupo conseguiu seus super poderes? Bem, O Quarteto fantástico tinha sido atingido com raios cósmicos. O Hulk foi atingido com raios gama. A propósito, eu não tinha ideia do que raios cósmicos ou raios gama eram, mas eles soavam bem. E eram os únicos raios que eu conhecia. Eu havia ficado sem raios, então que diabos eu iria criar para esse novo grupo? Encontrei a solução mais covarde e disse que eles haviam nascido daquele jeito, que eles eram mutantes. Na verdade eu os chamei de Mutantes. Martin odiou o nome, então mudamos para X-Men. Em um certo ponto nós tínhamos toda a variedade de Super heróis com todas as origens e poderes possíveis.

PLAYBOY: E de algum modo todos eles viviam na cidade de Nova York.

LEE: Oh, isso era conveniente para mim, já que eu vivia ali. Para mim, esses personagens existiriam só se eu pudesse vê-los pela cidade. Tony Stark, o Homem de Ferro, por exemplo, era muito rico e vivia em uma mansão no Central Park. O Quarteto Fantástico vivia no Edifício Baxter, que ficava longe do Centro. Eles podiam então aparecer nos quadrinhos um do outro. Um dia escrevi uma história onde o Homem-Aranha, que vivia em Forest Hills, no Queens, decide que ele não está ganhando o suficiente sendo Super Herói e pensa em talvez se juntar ao Quarteto fantástico. Poderia haver um dinheirinho ali para ele. Então ele vai até a vizinhança do Quarteto fantástico e balança pela janela. Ele diz “Quero me juntar a vocês, caras”. Eles dizem “Nós não estamos procurando por ninguém”. Então ele não se junta a eles.

Diverti-me com todos esses personagens porque eu literalmente sabia onde eles moravam, assim como também sabia como eram suas personalidades. Tudo o que sobrou para fazer foi criar os vilões, que eram ainda mais divertidos do que fazer os Heróis. Até eu ficar sem nomes de animais, estava tudo Ok. Havia o Lagarto, o Escorpião, Dr. Octopus, o Abutre e o Rhino.

PLAYBOY: Isso parece divertido, mas a pressão deve ter sido intensa. Em 1968 a Marvel estava gastando 50 milhões com quadrinhos ao ano.

LEE: Pressão não é a palavra. Eu estava sempre na beira do abismo. Se algo desse errado, eu cairia. Veja, eu não era somente o escritor principal, mas também o editor. Era minha responsabilidade fazer com que os quadrinhos fossem enviados a gráfica a tempo. Se perdêssemos uma data de impressão, teríamos que pagar de qualquer modo, o que custaria milhares de dólares.

Em alguns meses fazíamos 40, 50 revistas. E não só de Super Heróis. Tínhamos todos aqueles outros tipos também – My Romance, Her Romance, Their Romance. Meu editor adorava faroestes com a palavra “kid” neles, então tínhamos Two-Gun Kid, Texas Kid, Rawhide Kid e todo o tipo de “kid”. Naqueles dias eu estava apenas publicando coisas.

PLAYBOY: Qual o seu papel na Marvel hoje?

LEE: Basicamente sou só um rosto bonito que eles mantêm para o público. Toda a minha carreira tratei a Marvel como uma grande empresa, com slogans como “Make Mine Marvel”, “Welcome to the Marvel age of comics” e afins. Depois de um tempo me tornei o embaixador da Marvel no mundo. Palestrei em cada cidade do país provavelmente duas ou três vezes. Estive na China, Europa, Japão, Austrália e em todo lugar por aí. Hoje, meu principal foco é minha própria companhia, “POW! Entertainment”, que significa Purveyors of Wonder [N.t.: algo como Fornecedores de Maravilha], e temos projetos independentes da Marvel acontecendo. Temos um filme para a TV, outro filme com parceiros na China, e também um na Índia. Estamos fazendo uma linha de revistas para crianças e a série Stan Lee’s Superhumans na internet.

Não tenho nenhum lugar na Marvel onde decido que projetos serão feitos ou quem será contratado, e certamente nenhum na Disney, que agora é dona da Marvel. Sou um cara que eles contratam como escritor ou produtor e também para ir a convenções e fazer coisas do tipo.

PLAYBOY: Só para deixar claro: você não tem nenhum direito sobre os personagens que criou.

LEE: Nunca tive. Sempre fui um empregado da Marvel, um escritor contratado e, depois, parte da gerência. Meu papel na Marvel é estritamente honorário. A Marvel sempre teve direito sobre os personagens. Se eu fosse dono deles, provavelmente não estaria falando com você agora.

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