[ENTREVISTA] Rick Remender fala sobre Black Science, seu novo trabalho para a Image Comics

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(Entrevista feita por Casey Gilly, traduzida e adaptada por Rodrigo F.S. Souza)

Para Grant McKay não há autoridade maior do que ele próprio. Embora o gênio cientista tenha aberto o portal para dimensões paralelas e realidades alternativas, ele nunca parou de se perguntar sobre as implicações morais de seu trabalho. Um ex-membro d’A Ordem Anarquista de Cientistas, McKay ignorou as convenções em nome da verdade, abandonou o conformismo pela iluminação. Somente depois que ele e sua equipe se encontraram presos num mundo terrível e hostil é que McKay começou a compreender as graves consequências de interferir nos segredos do universo e da escuridão em Black Science.

O escritor Rick Remender (de Uncanny Avengers e Captain America) traz de volta seu talento formidável para a Image Comics em novembro, ao lado da equipe artística top de linha formada por Matteo Scalera e Dean White. E equipe falou muito sobre os bastidores do trabalho, e sobre o que esperar de Grant McKay conforme ele explora o reino proibido da “Ciência Negra”.

Rick, o conjunto de sua obra é bastante pulp, e parece ser uma forma em que você foi mesmo bem sucedido. O que você adora sobre o encontro entre o mundo do pulp e o da ficção científica?

Rick Remender: A receita básica que eu sigo é pegar a estética de um desenho animado das manhãs de sábado e misturá-la com ciência de verdade e temas adultos para um elenco completamente imaginado com motivações identificáveis. Adoro me focar em idéias brutais, e numa forma de arte visual, como os quadrinhos, é obrigatório dar ao leitor e ao artista uma história visual. A estrutura estilo Lester Dent, sensibilidade pulp e estética de ficção científica clássica transmite isto quando feita do jeito certo. Esta sensibilidade me permite mergulhar em idéias grandes e malucas num submundo decadente, o qual eu posso decorar com personagens completa e profundamente imaginados. É quando tudo isto junto alcança o equilíbrio correto que eu sinto que estou no minha melhor forma.

Ficção científica com um toque de horror sempre me atraiu, porque isto permite uma quantia infinita de possíveis dilemas para os seus personagens, dilemas que trazem consequências enormes, que é o motivo pelo qual gosto de incluir um aspecto do horror. Salpicar destinos horríveis ao longo de uma aventura o deixa roendo as unhas pelo destino dos personagens, pelo qual espero que você torça e se importe.

6-d9e70Fale-nos sobre o seu herói, Grant McKay.

Grant, em seu âmago, é um anarquista, um estridente individualista. Ele acredita que somente o anarquista pode realizar os feitos realmente grandes. Que apenas o autodidata pode encontrar sua verdade explorando avenidas bloqueadas pelos temíveis guardiães do status quo. Ele acredita, e dedica sua vida à crença do Crass: “Nenhuma autoridade além de si mesmo.” Ele comandou sua vida baseado nisto, muitas vezes prejudicando financeiramente sua família. É um gênio disciplinado e focado, um mestre autodidata das ciências negras proibidas por todos os corpos governamentais. Ele acredita que um homem pode se equipar para ensinar-se e dominar qualquer coisa que ele deseja abastecido pela tenacidade e fogo interiores. Que um homem pode dedicar seu tempo a investigar fatos, estudar e aprender, conhecer muitas idéias de outros especialistas, e encontrar sua própria verdade.

Grant luta com muitas de suas próprias dúvidas na primeira edição, examinando suas ações passadas e quão preparado ele está para lidar com as consequências. Durante a série seu desejo de corrigir os erros passados conduzirão suas ações?

Sem dúvida. Agora ele reconhece o que sua adesão fanática ao manifesto anarquista custou àqueles próximos a ele, especialmente sua família. Claro que ele faz isto tarde demais, e já envolvido pelo perigo. Ele cometeu uma tremenda quantia de erros baseados em sua filosofia e adesão a ela. Suas dúvidas são mais uma compreensão que o atinge quando a história começa. Um momento de clareza onde ele pode finalmente ver as consequências da estrada que ele escolheu.

Ao longo de toda a primeira edição há menções a Carl Sagan, dimensões paralelas e teoria das cordas. Você sempre se interessou por estes assuntos? Que tipo de pesquisa você fez para as partes técnicas de Black Science?

Eu pesquisei um bocado. A ciência real por trás de dimensões paralelas é particularmente fascinante; adoro a ideia de uma quantidade infinita de mundos paralelos existindo à distância de apenas uma fração de átomo um do outro, algumas vezes até se tocando. Quanto mais eu leio sobre teoria das cordas mais minha cabeça dói. É um conceito muito complicado. Mas em seu cerne está a ciência real que reforça muito do que estivemos fazendo nos quadrinhos por décadas. Então peguei tudo que pesquisei, liguei pra Sebastian Girner, meu editor, e escolhemos uma estrutura básica das crenças dos cientistas modernos e misturamos com nossa própria versão. Com nossas próprias regras sobre como tudo isto funciona e se interliga. Este sistema é uma grande parte da história, as camadas do universo e a exploração delas. Vamos nos aprofundar nisto em edições futuras. Como todos os bons pulp, é divertida a ficção construída sobre a realidade, ou pelo menos uma realidade teórica.

7-8f1a7A primeira edição é implacável — muita ação, criaturas estranhas, um ambiente totalmente alienígena — tudo isto numa fuga frenética contra o tempo. O que você espera estabelecer começando com uma edição tão agitada?

Acho que estou em minha melhor forma quando escrevo ação fluida com um artista capaz de retratá-la com perfeição. Depois de esboçarmos as 15 primeiras edições, decidi começar a história no meio desta agitação, jogando os leitores bem no meio do caos para lentamente revelar como nosso elenco terminou neste apuro, e quem são eles. Muito de quem Grant pensa que é será revelado na primeira edição. Mas o que pensamos ser, e quem realmente somos, ou como os outros nos vêem, é muitas vezes diferente. Eu gosto da ideia de permitir que o leitor olhe dentro da mente de um personagem, pra saber quem ele pensa ser e como ele percebe o mundo ao seu redor, e depois mostrar como outras pessoas o enxergam. Começando com uma sequência veloz de ação podemos entrar na cabeça dele enquanto ele está lidando com o perigo atual, e isto ajuda a alcançar esta percepção. Isto estabelece o andamento e o tom da série. É uma abertura estilo 007 que conta o que mais você pode esperar. Enquanto ao mesmo tempo espero que seja uma história em quadrinhos muito excitante e visual que mantenha as pessoas virando as páginas e aprendendo a se importar com nosso herói.

Matteo, como você desenvolveu o visual de Black Science? Ela tem ótimos elementos clássicos de ficção científica, como monstruosos répteis gigantes, trajes espaciais e paisagens exóticas — você era um fã do gênero antes de trabalhar neste quadrinho?

Matteo Scalera: Na verdade isto é algo que não planejei. Para cada novo projeto com o qual me envolvo a primeira coisa que faço é tentar visualizá-lo em minha cabeça. Na minha opinião, todo quadrinho precisa ter algo que o torne diferente dos anteriores. Neste caso meu estilo se tornou um pouco menos realista, mesmo para proporções corporais e expressões faciais; também acrescentei algumas pinceladas em minha arte-final. No geral não me considero um fã de ficção científica, eu só adoro desenhar, e Black Science é o quadrinho perfeito pra mim, já que ele me permite criar novos mundos a cada edição.

Quais criaturas ou mundos você estava mais empolgado para desenhar?

Scalera: O primeiro mundo que vemos, que é dominado por répteis, anfíbios e peixes, foi ótimo porque adoro desenhar este tipo de animais, e pude pirar nas proporções corporais e faciais. (Na verdade estou bem orgulhoso de meus homens-peixe, devo admitir)

Em geral, a parte desafiadora de Black Science é que nos movemos de um mundo para outro muito rápido, então na maior parte do tempo você não tem muito tempo pra fazer estudos para estes mundos específicos. A 2ª edição será bastante desafiadora, pois envolve coisas que eu raramente desenho. Claro que não posso dizer sobre o que é, mas vocês descobrirão quando chegarem às páginas finais da 1ª edição.

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Matteo e Dean, qual é o ponto de separação entre vocês, entre a arte e a pintura?

Dean White: Matteo me entrega alguns ótimos traços e pinceladas em preto e branco, e eu assumo daí e tento fazer o melhor possível.

Scalera: A abordagem de Dean é realmente pictórica. Eu o considero um pintor, mais do que apenas um colorista comum. O que ele acrescenta está num nível diferente. Por outro lado, devido aos meus estudos, sou um artista gráfico, então o desafio aqui é tentar encontrar o equilíbrio certo entre estes dois mundos, o que eu acho muito interessante. Espero que os leitores gostem do resultado final, que é definitivamente algo novo na indústria do qual estou muito orgulhoso.

Dean, você é principalmente conhecido por trabalhar em títulos de super-heróis. O que o atraiu em Black Science?

White: O conceito e a primeira edição eram fantásticos. E Rick sempre deu um apoio incrível ao que eu faço e sempre me fez parte de sua equipe em qualquer quadrinho no qual trabalhou. Ter alguém que capta todas as pequenas coisas que você faz e aprecia o que a cor/pintura traz a um quadrinho é ótimo. Junte isto a um conceito, roteiro e arte fantásticos, e estou dentro.

Há um bocado de prosa na primeira edição — “Nenhuma tolerância para obediência cega, motivação financeira, ego ou politicagem para a estação. Nenhuma regra exceto uma — Não há autoridade além de si mesmo.” Isto é uma reflexão sobre a liberdade de estar escrevendo um quadrinho que é propriedade do autor?

Remender: Isto foi escrito mais da perspectiva de um cientista solitário, um individualista estridente, que vive pelas próprias regras. Reflete o ato de escrever um quadrinho que é propriedade do autor? Em parte sim. Nossa motivação em Black Science foi a liberdade criativa. Foi fazer algo somente possível em quadrinhos autorais, algo 100% fiel às nossas intenções sem nenhum comprometimento. Não foi por ego, ou pra subirmos alguns degraus, foi pela jubilosa liberdade que vem com a construção de algo do nada com seus amigos. Ver algo que você inventou ganhar vida, e outras pessoas embarcarem na jornada, exatamente como você esperava. Todos na equipe têm uma voz, e são encorajados a usá-la. Todos conhecemos o trabalho que estamos fazendo.

Todos têm ideias e o que dizer. O design da capa, por exemplo, tem um pouco de cada um de nós. Todos tiveram uma grande idéia que levou a este deslumbrante arranjo comercial. Não menos importante que isto é o belíssimo logo de Rus Wooton [letrista da série]. Há muitas coisas que vêm do ato de fazer quadrinhos autorais, e intenção, colaboração pura e liberdade criativa lideram a lista.

Porém, diferente de Grant, esperamos ganhar algum dinheiro.

Scalera: Sim, acho que, de alguma forma, estamos tentando ser Grant. Tipo uma equipe de anarquistas tentando fazer suas coisas num mundo cheio de perigos. Tá, talvez isto seja um pouco de exagero, já que estamos falando de palavras e desenhos num papel. Mas ainda assim estamos tentando fazer nossa parte, assumindo riscos. Espero que tenhamos feito do jeito certo e as pessoas respondam a todo o trabalho árduo!

Black Science será lançada em 27 de novembro.

Fonte: http://www.comicbookresources.com