[ENTREVISTA] Kieron Gillen fala sobre Jovens Vingadores, Música Pop e Porque a Sutileza é Superestimada

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(entrevista de Chris Sims, traduzida e adaptada por Rodrigo F. S. Souza)

Durante o último ano, Jovens Vingadores de Kieron Gillen, Jamie McKelvie e Mike Norton foi um dos quadrinhos mais consistentemente divertidos nas prateleiras. As aventuras completamente vibrantes e nada sutis que pegam problemas de adolescentes e os transformam em monstros ameaçadores do mundo reviveram os heróis adolescentes da Marvel e os trouxe para o primeiro plano de uma forma que combina perfeitamente com sua posição naquele universo.

Conversamos com Gillen sobre o primeiro ano da HQ, sua abordagem para capturar o sentimento de ser um adolescente, e, é claro, aquelas quatro primeiras batidas de “Be My Baby.”

PERGUNTA: Por que “Be My Baby?”

KIERON GILLEN: É estranho. Eu e Jamie não concordamos muito, mas concordamos sobre algumas grandes questões. Discordamos de um bocado de detalhes, mas nossos grandes e vastos pensamentos sobre o que a música pop significa batem. “Be My Baby” definitivamente é uma das coisas que está no diagrama Veen [“um diagrama que mostra todas as combinações possíveis de um número finito de conjuntos” – Wikipedia]. Esta compreensão de que ela, não quero dizer que é o nascimento do adolescente, mas há algo na produção de Phil Spector, e toda ela foi fundamentalmente embrulhada com a definição de “adolescente”. As batidas. O tamanho das baterias é lindo. O modo como aquelas batidas ecoam através do tempo, e muitas bandas usaram aquele tema. Há muito disto no que fazemos em Jovens Vingadores. Tentamos ser modernos, mas de forma que ainda há muita tradição à qual reagimos.

P: Gosto disto ser o motivo pelo qual salvar a Terra.

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KG: No fim, tudo que temos é música pop. Obviamente estamos numa situação diferente com o Marvel Boy, onde eu queria encontrar um meio de alinhar a abordagem de Brian Bendis com a de Grant Morrison, que são fundamentalmente bem diferentes de várias maneiras. Em Marvel Boy [Gillen está se referindo à mini-série escrita por Morrison em 2000, que introduziu o personagem], ele é completamente amoral e quer destruir tudo. Daí ele chega ao outro extremo e tenta ser mais responsável, mais maduro, talvez, do que ele é. Foi isto que tirei da abordagem de Brian.

Então cheguei à ideia de que sua raiva é um tipo de amor mal direcionado, e essas besteiras todas. Ele está tentando viver com a Terra. Esse é o lance. Ele foi de um extremo a outro. Ele não a odeia mais, está apaixonado por ela. Gosto da ideia de que ele veio de uma sociedade que tinha uma ciência bela e de várias formas, perfeita, e descobriu essa música pop mal feita. “Não temos isto lá!” Quando uma sociedade é civilizada o bastante, ela não tem músicas assim. Tudo que ele tinha era arte de alto nível, e agora a de baixo nível o atrai. Esse tipo de idéia é divertido.

P: Estas três abordagens do Marvel Boy também são ideias bem adolescentes. O adolescente que está com raiva de tudo, o que quer ser um adulto, e o que está obcecado com sua banda favorita. Há uma coisa que significa algo pra ele, e agora ela é seu mundo inteiro.

KG: Com o Marvel Boy é como se ele estivesse se divertindo. Ele nem está levando a missão muito a sério. Tudo é emocionalmente distante pra ele, é assim que o tenho feito. Tudo veio fácil pra ele. Mas só porque ele está aqui pra se divertir não significa que o mundo vai se divertir com ele.

P: Acho que já te contei isto, quando eu li Jovens Vingadores #1 a 7 num avião, a cena onde ele invade um clube me fez xingar alto.

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KG: [Risos] É a cena que todos comentam. Fizemos um monte de brincadeiras inteligentes, e esta foi onde chegamos com tudo. Estou mesmo orgulhoso de Jamie, e este é um exemplo maravilhoso de como trabalhamos, das idas e vindas e do polimento de todas as ideias.

P: Quanto daquilo estava no seu roteiro, ou tudo aquilo partiu dele?

KG: Com o grande conjunto de peças fazemos assim: Eu escrevo “é isto que faremos, é isto que acontece, estes são os movimentos do personagem, podemos fazer assim, ou assim, ou assim.” Jogo três ou quatro idéias. Pra essa página dupla, uma era uma visão de cima pra baixo, mas Jamie disse “quero fazer assim…” Todo mundo vai dizer [que parece algo do] Chris Ware, mas Jamie é um pouco mais prosaico. Ele queria fazê-la como um diagrama de instruções, e eu disse “ótimo.” Daí, quando terminou, ele se tocou que tinha espaço nas bordas, que ele transformou em painéis, para os quais escrevi, o que me levou a adicionar coisas sem parar. Foi muito orgânico. Muito parecido com uma banda.

P: O motivo porque comecei perguntando sobre “Be My Baby” é pela falta de sutileza nesta canção.

KG: Ah sim, ela é bem direta.

P: Conversamos sobre Brian Wilson e Phil Spector ano passado, e sobre como eles têm um desejo transparente e nada sutil em suas músicas, e adoro a falta de sutileza em Jovens Vingadores. É um quadrinho sobre adolescentes onde a vilã se chama “Mãe.”

KG: Tem uma parte na segunda edição onde Teddy soca a Mãe pela primeira vez, e ele diz literalmente “Você não é minha verdadeira mãe!”

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KG: Acho isto histericamente divertido. Quase chamei o primeiro arco de “No Nariz,” porque não há nada em Jovens Vingadores que seja sutil. Tem um monte de metáforas. Da mesma forma que todas as minhas canções pop favoritas não são sutis, se estou escrevendo algo pop, tenho que escrever assim.

Feito Robyn ou sei lá quem. Só porque é pop não significa que tem que ser idiota, só porque você está lidando com algo de uma forma muito direta. Várias de minhas músicas pop favoritas são simultaneamente estúpidas pra caralho e transcendentalmente lindas. É isto que estamos tentando fazer. Você consegue entender a piada e levá-la a sério? É esse tipo de coisa que Jovens Vingadores é.

P: Isto é algo que acontece em várias de minhas músicas e quadrinhos favoritos. O motivo porque tanto adoro Kirby é porque ele é um cara que cria um personagem chamado “Barão Von Evilstein,” que é um tipo de piada mas apresentada seriamente. Não há floreios.

KG: Não sou um cara que brinca com a continuidade, mas Jovens Vingadors é provavelmente o quadrinho com mais peso de continuidade que já fiz. Eu sempre penso “O que Jack Kirby faria?” e provavelmente ele faria algo melhor. Esta é minha resposta pra maioria das coisas.

As pessoas perguntaram, por que Mãe? É bem importante pra mim tentar imaginar como fazer um quadrinho de equipe em 2013, o que eu devo e o que não devo fazer. Eu os divorciei de seus heróis e dos vilões estabelecidos da Marvel, o que sobra? Se você vai fazer um quadrinho sobre o conceito de “novo,” então, não, não traga o Kang. Não traga o Doutor Destino. Por mais que eu adore estes personagens, este quadrinho não é sobre isto. Tenho que tentar bolar outra coisa a partir disto.

Mãe é um tipo de Mary Poppins esquisita e mau pra caralho. Tipo um peixe-pescador com algumas idéias estranhas respingando ao redor dela. Tem algo agradavelmente ferrado nela. E não é só com ela, a edição 10 deixa bem claro que tudo está um pouco misturado de várias formas.

As pessoas que gostam disto realmente gostam, e há aquelas que não gostam de Jovens Vingadores, mas não acho que eu esteja errado sobre qualquer coisa. Para as pessoas que não gostam, eu literalmente não posso imaginar de que forma elas gostariam, tá me entendendo? Pra mim é como música pop. Não podem dizer a diferença entre Robyn ou Macarena ou sei lá o quê. O gênero é pop, daí pra frente é merda. As pessoas que não gostam de Jovens Vingadores pelos motivos que você citou me parecem assim pra mim. A estética delas não inclui este quadrinho, tudo bem, mas eu gostaria que incluísse.

P: Sou fissurado em quadrinhos de heróis adolescentes, desde o Homem-Aranha. Quando eu era garoto, não queria ser o Batman, eu queria ser o Robin.

KG: Esquisitão.

P: Eis o motivo: Se você é o Robin, você tem que andar com o Batman. Se você é o Batman, você tem que andar com o Robin.

KG: Oh, adorei isto.

P: Você conhece Eddie Argos. Tem uma canção que ele fez que dizia “Quero mandar o mundo se ferrar com exceção do meu vocalista favorito,” e esta frase resume perfeitamente um adolescente. Jovens Vingadores é assim pra mim, você pegou todos estes sentimentos sobre ser um adolescente e os tornou completamente literal. Eles estão literalmente isolados de seus pais e modelos de comportamento.

KG: Os adultos não os entendem. Isto não é sutil, e pra mim é o que importa.

P: Eles são os únicos que se entendem, e não podem se relacionar com os jovens, e isto é a personificação literal do problema como uma supervilã. E o que torna isto interessante é que estes personagens têm uma saída óbvia de seus problemas porque eles conhecem o Capitão América. Qualquer problema que tiverem, ele pode resolver.

KG: É uma parte importante da trama. Se você trabalha no Universo Marvel, a grande questão sempre é por que você não liga pro Thor? Se fosse um problema real, os Vingadores apareceriam. Gosto bastante da ideia de você lutar contra os problemas que você vê.

As pessoas têm descrito os quadrinhos dos anos 2000 de várias formas. Gosto bastante de “A Era Prismática”, da idéia de que foi uma era de análogos, a era do widescreen, mas pra mim esta foi a Era Paramilitar. Todos os super-heróis estão basicamente no exército. Os Vingadores foram uma organização do governo, e quando escrevi os X-Men, eu os comandava como um exército bem metódico. Uber é parte disto [ficção histórica envolvendo super-humanos na 2ª Guerra Mundial escrita por Gillen, publicada pela Avatar], leva a ideia para seu extremo ridículo, uma abordagem puramente materialista do super-herói. Com Jovens Vingadores, obviamente eu adoro os Vingadores, mas o subtexto sempre foi que, se você quer ajudar o mundo, você se une ao exército. Você se une à polícia.

P: E a moral de seu quadrinho é que você deve formar uma banda.

KG: Isto! Você enfrenta os problemas que vê. Se ninguém mais no mundo vê o problema, então é você que deve lidar com ele. É sobre isto. Esta é minha abordagem bem estranha e moderna de uma idéia bem antiga da Marvel. Eu queria que soasse como um quadrinho da Marvel, a idéia pura e platônica de garotos que salvam o universo. Eles estão todos juntos, e nenhum adulto pode enxergar o problema. Esses garotos nunca serão o Homem de Ferro ou o Capitão América, porque estas posições já estão tomadas, e isto não importa. É minha canção de amor pra eles.

P: E não há nada mais Marvel Comics do que esta ideia. Não há nada mais Marvel Comics do que o Homem-Aranha sendo incomodado por um adulto ou o Coisa se sentindo mal porque tem uma pele ruim. É fácil pra você se prender a isto? É um tema recorrente em seu trabalho, Phonogram é um quadrinho sobre tornar-se adulto e lidar com seu passado.

KG: É sobre fazer trinta anos, de um jeito bem real. Tornei isto explícito em um dos B-Sides, lançado alguns dias depois de Rue Britania, e é o 30º aniversário de Kohl. Pro caso de ter perdido o subtexto.

P: Isto vem naturalmente pra você, ao contrário de Homem de Ferro e X-Men, ou lida com uma parte diferente de sua vida?

KG: Creio que meus temas são bem claros. A ligação entre Homem de Ferro e Jovens Vingadores é que ambos são sobre lidar com seus pais e tentar reconectar-se a eles quando já é tarde demais. Meu pai morreu este ano, ele esteve doente por muito tempo. Em todos os meus trabalhos isto está na superfície.

P: De novo, sem floreios.

KG: É só assim que consigo. Com qualquer personagem, você se aprofunda e tenta trabalhar com o que você gosta e não gosta, e já fiz quadrinhos o bastante pras pessoas dizerem “ah tá, é isto que incomoda o Kieron.” Coisas como você pode mudar? Pessoas más podem se tornar boas? O que podemos fazer pra não ameaçar o mundo? Journey Into Mystery é a declaração definitiva sobre isto. Um herói da Marvel que salvou o universo, e ninguém jamais saberá, e seu espírito foi destruído.

P: [Risos] Porque você é um bastardo. É por isto que fez isto.

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KG: Mas sim, minhas coisas são bem transparentes agora. Jovens Vingadores é bastante extremo. É o primeiro quadrinho que fiz que não estava ligado a nada. Tudo que fiz pra Marvel, com exceção de algumas minisséries, estava servindo a alguma maquinação maior. Nunca tive um Gavião Arqueiro, nem um Imortal Punho de Ferro. Acho que isto tornou Jovens Vingadores inteligente, e certamente pode ter prejudicado ele, porque tive que fazer tudo dessa vez, e francamente, este nível de intensidade também é bem adolescente. Os problemas dele também são seu sucesso.

Algumas semanas atrás, terminei todos os roteiros da temporada, e fiquei desanimado com isto porque não estava tão bom quanto eu queria. Mas nunca é tão bom quando você quer. Fizemos o que desejávamos, esta temporada começou em janeiro, e termina na primeira semana do ano que vem. As 15 edições desta temporada são o que um quadrinho de super-herói pode ser. Se eu penso em 2013, sempre é em Jovens Vingadores, que chegaram na hora certa.

Você nunca sabe o que ganhará pernas, culturalmente falando. Quem teria pensado que em 1991 “Groove is in the Heart” seria mais relevante culturalmente que qualquer álbum clássico de rock? “Groove is in the Heart” pode ser tocada sempre, é transcendentalmente linda. Lembro da primeira vez que ouvi Discovery do Daft Punk. Foi numa segunda de manhã, foi espantoso, estávamos maravilhados. Meu editor na época, eu trabalhava numa revista, disse “isto é ótimo, mas tão incrivelmente legal, tão atual, é literalmente o que a música deveria ser agora, e ficará fora de moda na sexta.” E claro, não ficou, ela inventou a sonoridade da música pop dos anos 2000.

P: Você aprecia a ironia de conversar sobre isto num bar onde estamos ouvindo “Closing Time?”

KG: Na arte, não há acidentes. Tudo tem significado.

Fonte: http://comicsalliance.com