[ENTREVISTA] Grant Morrison Fala Sobre Desajustados, Mutantes e Quadrinhos Como Revolução

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(entrevista realizada por Paul Dallas Rosa, traduzida e adaptada por Rodrigo F.S. Souza)

Grant Morrison é um escritor, ocultista, e anarquista contra-cultural das histórias em quadrinhos. Nascido em Glasgow, Morrison – ao lado de autores como Alan Moore e Neil Gaiman – foi um dos membros que lideraram a “Invasão Britânica” dos quadrinhos americanos nos anos 1980, que revitalizou completamente a então difícil indústria, tornando os quadrinhos mais inteligentes, sombrios e bem mais interessantes.

Ele talvez seja melhor conhecido por suas passagens icônicas por títulos como Homem-Animal, Patrulha do Destino, e sua série autoral Os Invisíveis, mas também já foi escritor de algumas das maiores franquias dos quadrinhos, como X-Men, Batman, Superman, Liga da Justiça, e o crossover Crise Final. Mesmo se você nunca pegou um quadrinho de Morrison, sem dúvida você já cruzou com algum de seus legados: Arkham Asylum, o ultra sucesso dos video games, é parcialmente baseado na definidora graphic novel homônima escrita por Morrison em 1989, e Os Invisíveis, de 1994, é amplamente especulado como a base para o filme Matrix.

Durante um bate-papo de 15 minutos antes de sua aparição no Graphic Festival de Sidney, discutimos de tudo um pouco, desde seu trabalho passando por clubes de fetiche, até o Superman socando dinossauros.

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Pergunta: Você está viajando para Sidney para um painel com Gerard Way (criador da série em quadrinhos Umbrella Academy, e vocalista e líder da banda My Chemical Romance). O que podemos esperar?

Grant Morrison: Haverá um monte de coisas e idéias novas. Estou escrevendo uma coisinha que espero ler, e haverá algumas surpresas. Estive preso à DC pela última década, escrevendo alguns quadrinhos por mês, então só agora que minha agenda está ficando livre é que posso me soltar. Estou trabalhando num roteiro para um longa de animação, em alguns projetos pra TV, e também criando algum novo conteúdo autoral.

Você e Gerard focam personagens desajustados, que podem ser vistos especialmente em títulos como Homem-Animal, Patrulha do Destino e Os Invisíveis. O que o faz sempre voltar a eles?

Acho que é porque muitos de nós nos sentimos assim. Eu particularmente me sentia desta forma quando era jovem – como um moleque imbecil com idéias malucas e amigos esquisitos – então sempre me identifiquei com caras estranhos. Acho que, a menos que você seja uma das classes dominantes do país, ou o Príncipe William ou Harry, você vai se sentir um estranho. Se você for eles, provavelmente se sentirá assim ainda mais. Então, honestamente, é uma razão puramente funcional. Esse é o tipo de pessoa com a qual eu cresci, e é como eu me sinto

New X-Men #135. O garoto na roupa hermeticamente fechada está permanentemente na forma de gás senciente. Os outros não são muito melhores que isto [arte de Frank Quitely, Marvel, 2003]

New X-Men #135. O garoto na roupa hermeticamente fechada está permanentemente na forma de gás senciente. Os outros não são muito melhores que isto [arte de Frank Quitely, Marvel, 2003]

Lembro que quando você assumiu o título dos X-Men, as aberrações do Universo Marvel, você criou sua própria “Classe Especial” de mutantes, que eram os mais ferrados, os mais estranhos dos estranhos.

Sim, eu sempre senti que não havia atenção o bastante dada aos mutantes que não eram bonitos. Sabe, [os então autores dos X-Men] Chris Claremont e John Byrne sempre desenharam e retrataram pessoas bonitas. A pequena e magricela Kitty Pryde… Ela era uma garota bonita. Sempre pensei que tem que existir mutantes que se parecem com mutantes realmente fodidos, e que devíamos ouvir falar sobre estas pessoas também, as que não se pareciam modelos.

Sua temporada no título foi bem sombria, com a maioria da Classe Especial morrendo enquanto outros mutantes se tornaram viciados na droga Porrada. Você é conhecido por fazer algumas histórias bem fodidas: Os Invisíveis apresentou clubes de fetiche, deuses vodus, o Marquês de Sade, estupros, assassinos seriais e lobotomias. Mas você saiu disto e veio com algo como Grandes Astros Superman em 2008, a história que as pessoas agora chamam de o quadrinho quintessencial do Superman. Quando o li eu senti uma irresistível sensação de amor. Como você fez esta transição?

Bem, isto é mais porque o personagem com o qual você está lidando tem que fazer com que você se sinta desta forma, não concorda? O Batman te faz sentir-se de uma determinada forma: ele é todo angustiado e excêntrico, e é tudo sobre a noite e pensamentos sombrios que você tem que tentar dominar. O Superman representa o melhor que há na humanidade e de certa forma o melhor que podemos aspirar. Acho que quando você está contando uma história com esse cara, você tem que se botar no lugar dele e imaginar quão bom ele seria.

E eu tinha que fazer isto refletir na estrutura da história também. Meu estilo é normalmente muito improvisado e caótico – há muita estrutura nele, mas ao mesmo eu gosto de deixá-la aberta. Mas com o Superman eu estava tentando algo bem ordenado e racional, meio baseado em Leonardo DaVinci e as idéias do Renascimento e do Iluminismo sobre o quanto o homem poderia se aperfeiçoar e como a evolução poderia nos levar ao sol.

E pelo quadrinho se chamar Grandes Astros Superman, eu sabia que tinha que ser sobre uma estrela, sobre um tema solar, daí tivemos todas estas idéias sobre um deus do sol e Hércules. Daí a estrutura da história aflorou do personagem, e é assim que você sente como o Superman. O lance todo foi pra te fazer sentir-se como o Superman se sente – sabe, sob esta perspectiva brilhante, positiva e humanitária.

Grandes Astros Superman #1 [arte de Frank Quitely; DC Comics, 2008]

Grandes Astros Superman #1 [arte de Frank Quitely; DC Comics, 2008]

Indo agora pra escuridão, você acabou de finalizar sua passagem de sete anos escrevendo o Batman. Você o fez viajar através do tempo, ter um filho, os Robins lutarem para usar seu capuz, e eventualmente Bruce fundar um grupo multinacional de batmen. Há esta ideia recorrente de que o Batman não pode ser parado, de que ele é eterno. Tenho uma página em particular gravada em minha mente: Batman, de volta à Era Neolítica, pintando o bat-sinal na parede de uma caverna. Sobre o que foi tudo isso?

Batman é uma figura da escuridão e, para isto ficar bem claro, eu não estava tentando fazer versões realistas deste personagem porque não acredito que coisas assim poderiam existir no mundo real. Eu não estava tentando fazer o que o Christopher Nolan fez com o Batman, ou seja, ficar sentado pensando em como isto funcionaria e de quais ferramentas ele precisaria. Pra mim o Batman é um símbolo, e isto me faz criar histórias onde eu posso jogar com esta ideia e explorar o que significa ter o Batman dentro das mentes das pessoas.

O que eu aprendi é que ele é esse cara envolvido numa luta contra a escuridão e as coisas de que todos temos medo. Isto é recorrente em toda a história do personagem, e agora no século 21, o Batman é a melhor expressão desta luta. Acho que é porque meu Batman é intencionalmente não-realista, embora dentro das histórias ele obviamente possa se machucar, se ralar, passar fome e ser traído. Ele jamais poderia existir no mundo realmente, então a ideia de contar histórias onde ele seja realista é meio tola.

Crise Final #7 [arte de Doug Mahnke; DC Comics, 2008]

Crise Final #7 [arte de Doug Mahnke; DC Comics, 2008]

Então o que você acha do tom realista usado nos filmes do Nolan, que continuou em O Homem de Aço e muito provavelmente continuará no vindouro filme da Liga da Justiça? Você acha que o realismo talvez seja mais necessário para os espectadores do que para leitores de quadrinhos?

Acho que os espectadores apreciam e tendem a apreciar seja o que for pelo que pagaram, então beleza. Tenho certeza de que eles serão bem feitos e O Homem de Aço foi bem feito. Mas pra mim a ideia de fazê-los realistas ignora todas as possibilidades de tratá-los puramente como figuras simbólicas aspiracionais. Eu prefiro ver o Superman lutando contra dinossauros ou voando através do tempo do que tentando associá-lo ao complexo industrial militar ou falar sobre o 11 de setembro através dele, ou quaisquer dessas idéias já batidas. É um tom e abordagem diferentes.

Acho que o público em geral ficaria tão ansioso com um filme colorido e imaginativo da Liga da Justiça, quanto com uma versão sombria, distópica e inclinada para o realismo. Mas, honestamente, num personagem como o Flash não há nenhum conceito realista, embora ele tenha uma profundidade emocional e um peso e valor simbólico que é muito mais interessante para ser explorado.

The Invisibles #5. Lord Byron em Veneza, bebendo vinho e relaxando com Percy Shelley. [arte de Jill Thompson; DC Comics, 1995]

The Invisibles #5. Lord Byron em Veneza, bebendo vinho e relaxando com Percy Shelley. [arte de Jill Thompson; DC Comics, 1995]

Você costumava ser conhecido como o punk dos quadrinhos. Os Invisíveis lutavam contra toda e qualquer autoridade, e tudo era profundamente filosófico – você apresentou poetas românticos, transcendentalismo, gnosticismo, magia do caos, dadaísmo, e em uma edição um personagem invocou o espírito de John Lennon. Agora que você está lidando com os maiorais da DC, tudo isto pode ter se tornado menos aparente. Você ainda está liderando uma revolução?

Sim, definitivamente, o mesmo impulso está em todas estas obras. Eu estava pensando nisto hoje e lendo algo do William Blake, de onde vieram todas estas idéias sobre lutar contra “algemas forjadas pela mente”. Era o mesmo caso de outros poetas românticos como Shelley e Byron; eu costumava escrevê-los diretamente em meus quadrinhos ou fazer meus personagens citá-los, e acho que isto foi apenas eu tentando assimilar todos eles. Mas agora – e acho que você pode ver isto em meu trabalho – eu já os entendi. É tudo mais natural. Não estou dizendo que sou tão bom quanto qualquer um desses grandes poetas, mas certamente este mesmo impulso radical está em todos os meus trabalhos. Sabe, eu acho que os super-heróis são o que o homem pode se tornar, uma realização de nossos super-encapuzados interiores, não importa se estou escrevendo o Superman ou punks, ainda é uma revolução.

Fonte: http://junkee.com/

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