[ENTREVISTA] Dean Trippe fala sobre Something Terrible

Uma História Pessoal Sobre a Superação de um Abuso Através dos Quadrinhos

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(entrevista originalmente cedida a Lan Pitts, traduzida e adaptada por Rodrigo F. S. Souza)

Dean Trippe trabalha com quadrinhos há quase uma década, tendo contribuído para o Comic Book Tattoo, ganhador do Eisner, co-fundado o popular Project Rooftop, além de ter trabalhado em vários quadrinhos para todas as idades, sendo Power Lunch o mais recente com o escritor J. Torres para Oni Press. Porém, por trás do trabalho juvenil e otimista de Trippe, se esconde um incidente que o assombrou por anos sobre o qual ele contou em Something Terrible, uma história curta disponível online.

Trippe, sem entrar em muitos detalhes, relembra na história de como foi violentado quando jovem e como personagens dos quadrinhos, especialmente o Batman, o transformou na pessoa e criador que é hoje. Falamos com Trippe recentemente sobre o que despertou a vontade de contar sua história desta forma, sobre a resolução que o projeto lhe trouxe, e como ele espera que seu trabalho ajude outros que estiveram em situações horrivelmente parecidas.

PERGUNTA: Pra começar, Dean, este trabalho artístico é bem pessoal; você sente que alcançou alguma resolução agora que o completou?  Ainda pensa que há um monstro dentro de você? A metafórica arma invisível apontada pra sua cabeça foi uma imagem bem comovente.

Dean Trippe: Eu sinto um grande senso de resolução. Os eventos deste quadrinho têm alguns anos de idade pra mim, então foi ótimo me libertar da sensação de que isto tinha que ser um segredo, uma coisa psicologicamente codificada e terrível se escondendo em mim. Mas transformar minha história num quadrinho foi libertador, porque agora sinto que minha vida e o que aprendi enquanto fui prisioneiro do medo e da vergonha, podem ajudar outros a se libertarem da mesma escuridão.

Recebi muitas cartas de pessoas com origens secretas parecidas nas últimas semanas, que diziam que Something Terrible as ajudou de alguma forma, seja a aprender que o equívoco comum de que vítimas de abuso sexual se tornam abusadores com frequência, perpetuado por vários dramas de crime, e só um equívoco comum; ou que meu quadrinho as ajudou a processar suas próprias histórias e entender porque elas se voltaram para os super-heróis para se sentirem seguras, quando o mundo em torno delas se mostrou tão perigoso; ou a procurar aconselhamento profissional pela primeira vez. Pra mim, é estranho e maravilhoso ter meu segredo mais sombrio intencionalmente exposto, apenas para descobrir tanta aceitação, empatia e entendimento.

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P: O que havia no Batman que, diferente do Superman, o fazia sentir-se seguro e protegido e torná-lo um tipo de símbolo de força?

Trippe: Bem, sem dúvida fui um fã dos dois por muitos anos, mas eles têm funções diferentes. O Superman é o primeiro super-herói, e o Batman é indiscutivelmente seu maior aliado. Mas o Superman é um ideal, uma figura divina que foi criado como nós. Dá pra nos identificar com ele, porque quando crescemos aprendemos quão mais poderosos podemos ser além do que imaginávamos quando crianças, mas não podemos SER o Superman. O Batman é uma OPÇÃO. Todos os dias escolhemos não dedicar nossas vidas aos outros com a mesma paixão e impulso ferozes que o Batman, a isto depende de nós.

Eu não conseguiria explicar o que me atraiu ao Batman quando tinha onze anos, mas agora acho que está bem claro que eu vi algo que refletia minhas próprias experiências na origem de Bruce Wayne. Meu agressor ameaçou matar minha família, e me mostrou uma arma. E também sempre achei a fala “com o diabo sob a luz do luar” assustadoramente sexual [nota do tradutor: referência ao filme Batman, de Tim Burton], o que também deve ter contribuído [para esta identificação]. Mas o Batman não foi aleijado por seu trauma, e nem eu seria. Ele foi uma criança que decidiu reconstruir-se como uma solução para os outros. Tentei fazer o mesmo em minha vida, e com Something Terrible eu honestamente sinto que realizei o mais próximo de uma ação do Batman com toda a escuridão em mim para afetar muitas pessoas. Estou tentando acender um sinal.

P: Esta é a primeira vez que você desviou-se de suas obras para todas as idades para contar uma história tão pessoal. Há quanto tempo você vinha esperando pra expôr tudo isto? Qual vem sendo a reação até agora?

Trippe: Acho que sempre busquei um meio de contar esta história, mas não havia alcançado um ponto de resolução que fizesse disto mais do que um conto de uma tragédia pessoal. Pessoas que sofreram abusos similares se identificariam com ela, mas não achava que podia transformar isto num quadrinho e publicá-lo até que houvesse nele uma qualidade útil para ajudar outras pessoas, [algo] que eu acho que ele tem. Sempre farei quadrinhos com todas as idades em mente (o que não significa “só para crianças”, mas “também para crianças”, algo que mais quadrinhos de super-heróis deveriam ser), mas esta história tinha que ser contada, já que meu amigo Ben Acker havia me convencido de que outras pessoas se beneficiariam dele.

Um dos motivos por que fiz material para todas as idades quando estava na faculdade de arte foi que minha irmã caçula é doze anos mais nova que eu. Não gosto da idéia de trabalhar em coisas que eu não possa dividir com ela. Então no lugar de imaginar histórias para impressionar meus colegas de faculdade e minha irmã caçula do ensino fundamental, eu me forçei a ter ideias que funcionassem para idades variadas. Acho esta uma limitação bastante útil, pra ser honesto. Mas agora que Melody está na casa dos vinte, não me sinto tão limitado para contar-lhe esta história. Além disto, meu filho está agora com a mesma idade que eu tinha quando meu pai me abandonou, e ver meu reflexo nele me fez finalmente entender o nível de horror evocado pelos eventos de minha vida desta época. Quem diabos abandona ou machuca criançinhas?

Esta é minha origem secreta, a razão de eu ter me inspirado no Batman, o motivo pelo qual desenhar foi uma saída tão útil, o por quê de eu começar a contar histórias, querer me tornar um bom pai, e tudo mais, e espero que um dia meu filho leia isto, e sinta orgulho do quadrinho que fiz pra ajudar outras pessoas.

P: Vamos iluminar a conversa por um segundo e falar sobre o esquema de cores usado. Ele lembra um pouco O Mágico de Oz e Traffic pela maneira com usaram diferentes filtros de luz para distinguir locais e cenários diferentes. De onde veio a ideia de usar a paleta de preto e azul? Ou isto foi proposital pra usar as cores do Batman?

Trippe: Ela seria toda em preto e branco, mas quando estava fazendo a página doze, a imagem “Você Ficará Seguro Aqui”, eu sabia que ela tinha que ser em cores, mesmo que a história em si não fosse, então eu a colori. Daí eu percebi que podia ter esse efeito d’O Mágico de Oz, e planejei em cima disto. E quando fiz a capa, eu usei um azul acinzentado – na verdade os coloristas usam azul pra “dar suporte” a linhas pretas nos canais de cor, o que achei que dava um clima legal pra história. Acho que foi Hannah Nance Partlow, que desenhou o logo para Something Terrible, quem sugeriu usá-la na história toda, daí fiz um teste na primeira página, e achamos que ficou muito bom. Fiquei um pouco indeciso por um tempo, principalmente porque não sabia se teria tempo pra voltar e acrescentar a cor em cada página, mas daí outro amigo, Chad Thomas, disse que estava bem melhor, então, haha, ele meio que me convenceu a fazer esse trabalho extra. Foi a jogada certa, e estou muito feliz com o resultado final.

P: Você também agradece e dá créditos a Grant Morrison em sua história. O que há no trabalho de Morrison que chama sua atenção como criador e entusiasta do Batman?

Trippe: Cara, é tanta coisa. E me sinto mal por ter deixado de fora tantos outros escritores cujas histórias significaram muito pra mim, Neil Gaiman, Alan Moore, Kurt Busiek, Mark Waid, Ed Brubaker, Greg Rucka, e muitos outros. Destaquei o trabalho de Morrison sobretudo porque Flex Mentallo foi o catalizador para desenhar um quadrinho onde meus heróis pudessem me salvar quando criança. Acho que a celebridade de Morrison no meio dá a ele liberdade o bastante pra levar títulos a direções progressivas inesperadas. Minha teoria é que ele entrega o que cada série promete. Em Novos X-Men ele apresentou o próximo estágio do crescimento das minorias. Sua temporada com o Batman deu ao pai adotivo definitivo um filho, e mais tarde, cumpriu a promessa de que um Robin, Dick Grayson, podia um dia tornar-se o Batman. Em Grandes Astros Superman ele nos deu a melhor história final do Superman de todos os tempos, mesmo ele tendo escrito uma sequência pra ela onze anos antes [nota do tradutor: na saga DC 1.000.000]. Suas histórias avançam, e os escritores que o sucedem sempre reiniciam a série. Vários de meus escritores de séries favoritos pegam alguns personagens, os faz andarem em círculos, e seguem em frente.

Acho que Morrison e todos os meus escritores favoritos assumem uma nova história acreditando nos conceitos fundamentais dos personagens. Quando um novo escritor pega um título do Superman e diz, “Não se preocupem, vou tornar o Superman legal,” eu sei que ele não serve pra escrever o Superman. O Superman é mais legal que você, escritor hipotético. Ele cruzou todas as mídias e rodou o mundo, inspirando pessoas a serem melhores. Além disso, quando alguém diz que o Superman é poderoso demais pra imaginar desafios pra ele, isto significa que é um mau escritor. A imaginação não tem limites, cara. Grandes Astros Superman o elevou a novos níveis insanos, porque os desafios que são duros pra ele são mais do que apenas físicos, eles são psicológicos. Se não uma pessoa normal como Lex Luthor não o ameaçaria de jeito nenhum. Como você derrota alguém que destrói cada evidência de seus crimes, sem cruzar a linha que faz de você um herói ao invés de um vilão? Lex Luthor é o Batman do Mal, o que o torna forte.

P: Você guardou para si algum momento quando estava decidindo o que contaria na história? Existem algumas cenas de fantasia com outros personagens de ficção que você queria incluir mas cortou devido ao ritmo ou porque não parecia o certo?

Trippe: Sim, eu ia fazer o Superman e o Doutor chegando com o Batman, mas não achei que o resto da história teria tempo de estabelecer meu amor e conexão com eles também, daí eu simplifiquei e usei só o Batman. E teria uma cena no interior da TARDIS em outra página, mas ela parecia desviar-se da revelação final. Estou pensando em desenhar cenas deletadas e mandá-las pros amigos que doaram para o site. Havia algo crescendo em mim que precisava ser dito ao Batman.

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P: Fora o aspecto autobiográfico, [a história] também funciona como uma homenagem e uma carta de amor aos quadrinhos como um todo. Como você equilibrou estes dois lados dela?

Trippe: Haha, acho que não pensei realmente nisto, pra ser honesto. Só tentei recriar cenas da minha vida numa narrativa coesa, e não é nenhuma surpresa que ela seja uma carta de amor aos quadrinhos de super-heróis. Meu coração está lotado desse sentimento por eles.

P: No posfácio, você cita várias organizações dedicadas a vítimas de estupros, como a RAINN, mas pessoalmente o que você espera que um fã ou um leitor casual aprenda com Something Terrible?

Trippe: Espero ajudar a desestigmatizar as vítimas de violência sexual. Há muitos de nós para que estes odiosos conceitos errados continuem por aí, impedindo todos de compartilharem suas histórias abertamente com seus amigos mais próximos. E eu queria que todos que experimentaram esse tipo de trauma soubessem que eles podem abaixar suas armas invisíveis. Você não precisa de um pacto suicida. Não há algo terrível rondando seu interior. Você é quem escolhe ser. Use todas as suas habilidades para ajudar todos que puder. A vida já é dura o bastante sem um pacto suicida de uma vida inteira.

Eu tirei muita força da história do Batman, mas só depois de desenhá-lo me resgatando e pesquisar estatísticas sobre o que aconteceu comigo, é que finalmente me livrei disto. Não sei expressar quão chocante vem sendo pra mim encontrar aceitação onde eu temia encontrar rejeição, ao contar pros meus amigos mais próximos no que eu estava trabalhando este ano. Se você tem amigos próximos em quem confia, tirar esse segredo gigante de sua alma pode ajudá-lo tanto quanto me ajudou.

Caso não tenha, você será sempre bem recebido por mim e os super-heróis.

Fonte: http://www.newsarama.com

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