[QUADRINHOS] East of West #01 – Os Três Eram Um


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Se há algo bastante evidente nos trabalhos de Jonathan Hickman, é o seu apreço em tomar universos ou conceitos existentes para si, reformando-os e reinventando-os a sua própria forma. Na sua recente fase com o Quarteto Fantástico, por exemplo, reuniu dezenas de ideias e elementos que fazem parte do titulo há décadas, os utilizando para construir uma visão única da equipe e ainda evolui-la para um novo e interessante estágio que foi a Fundação Futuro. Mas em seus trabalhos com traços mais autorais, percebo que se sente ainda mais a vontade em mexer com bases pré-estabelecidas, bem na essência, mostrando uma interessante ótica oculta ou paralela. Em Pax Romana bagunçou com a história da humanidade numa inventiva trama sobre viagem no tempo, S.H.I.E.L.D. mostrou um lado obscuro e conceitualmente assustador do universo da Marvel e The Manhattan Projects possui um apanhado de diversas personalidades históricas vistas duma forma um tanto quanto ambígua e absurda, contrariando muito que sabemos sobre elas. Com East of West, sua nova série mensal, isso não poderia ser diferente.

A série aborda um futuro distópico, situado em 2064, onde a Guerra Civil Americana, conhecida também como a Guerra da Secessão, teve um desenvolvimento diferente. Não bastando o conflito entre as forças do Norte e do Sul dos EUA, uma grande aliança indígena foi formada e assim o povo nativo-americano se envolveu no conflito. Em meio a esse caos que durou por muitos anos, um cometa atingiu o país, mais precisamente bem no seu centro, conseguindo interromper a guerra como se fosse uma intervenção divina. Com todas as atenções voltadas a esse evento, então os povos firmaram acordos para garantir a paz no ”Armistício”, o epicentro da queda do cometa, e dessa forma os EUA acabou sendo dividido em sete nações (estados) diferentes: a União, a Confederação, o Reino, as Planícies Ardentes, a República do Texas, a Nação Sem Fim e o PRA.

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Mapa das “Sete Nações da América”

À parte desse novo cenário sociopolítico numa nação segregada, Hickman também traz elementos bíblicos para o jogo. Os protagonistas aqui são nada menos do que os Quatro Cavaleiros do Apocalipse: Guerra, Fome, Conquista (no lugar de Peste) e Morte. Curiosamente, os três primeiros chegam ao que parece ser o mesmo local onde o cometa atingiu, sobre a forma de crianças. Ao mesmo tempo, se entende que Morte demonstra já estar caminhando pela Terra há algum bom tempo por sua aparência adulta, trajado como um pistoleiro que soa uma mistura de Roland Deschain (protagonista da série de livros A Torre Negra) e Skinner Sweet (um pistoleiro vampiro da HQ American Vampire). Este atravessa pelo desolado território americano em busca de vingança por algo ainda não revelado, precisamente, com a companhia de um homem e uma mulher, ambos indígenas. Chamados de Lobo e Corvo, respectivamente, são representações de duas figuras relacionadas à morte no imaginário mitológico de certos povos. Nada é concreto sobre a relação deles com o cavaleiro Morte a não ser que estão submissos às suas ordens.

O “porquê” dos cavaleiros não estarem juntos aparenta estar correlacionado com “A Mensagem”, uma profecia formada numa época  próxima ao fim da guerra pelo profeta cristão Elijah Longstreet, o chefe indígena Nuvem Vermelha e o líder comunista chinês Mao Tsé-Tsung (sim, ele mesmo!), momentos antes de suas mortes. E a sentença mais importante dela: “Os três eram um”. O número “3” compreende um forte sentido de unidade no enredo, representado por um símbolo que pode ser definido como uma Triforce invertida. Só recapitularmos essas redundâncias: três povos em conflito, três dos quatro cavaleiros, Morte e seus dois parceiros e três homens de três etnias diferentes compondo uma só profecia. O “3” é o grande número, pessoal.

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“A Mensagem” sendo proclamada

A questão sobre como tudo isso está interligado acaba sendo uma pergunta que pouco seu escritor se importa em responder nesta primeira edição. Não diria, primeiramente, que isso é totalmente horrível por ser o começo duma aparente intrincada trama, mas devo dizer que quem acompanha a carreira de Hickman, sabe que instigar o leitor com muitas perguntas e pouquíssimas respostas é uma das suas qualidades. Mas se pergunta por que isso seria uma qualidade? A resposta é bem simples: Hickman é um grande escritor estrategista, se assim posso defini-lo, calcula bem como e onde insere cada elemento de sua história. Sempre deixa a impressão que há algum grande plano para tudo que é apresentado, então posso afirmar que este é um talentoso e inteligente contador de histórias. E caso pareça que esse conceito de deixar o leitor boiando com tantos mistérios mirabolantes é uma grande picaretagem pretensiosa, seus trabalhos anteriores provam que sabe satisfazer, e até surpreender, as expectativas dos seus leitores como poucos.

Outra das grandes qualidades de Hickman vistas aqui é como consegue construir universos conceitualmente bem construídos. Sua América futurista compila variadas distorções paisagistas, cenários imaginativos e adentra perfeitamente no campo das ambiciosas ficções científicas, mesmo que o desenvolvimento de sua história seja mais intimista em torno dos seus quatro protagonistas. Dos poucos lugares mostrados, fica clara a forte influência do gênero conhecido como “faroeste” aqui. É o campo perfeito para Hickman tecer sua discussão sobre problemas políticos e sociais. O cinema que já sacramentou o velho oeste como o território onde a moral do homem sempre será julgada pelas consequências de suas ações, a época em que o passado e o futuro da sociedade se encontram como uma intersecção de dois tempos, a morte duma lenda e a chegada das ferrovias com o progresso eram a representação do fim duma era e o inicio de outra nesse gênero. Nesta primeira edição, logo após sair dum pequeno bar situado abaixo de enormes cânions (lembrando o clássico saloon dos filmes do gênero), encontramos uma metrópole com construções grandiloquentes e arrojadas, se relacionando com o forte contraste e a opressão do futuro. A transição entre o arcaico e o modernismo, assim como seus paralelos, deve acontecer mais vezes durante a série.

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“Montinho”

Nick Dragotta, que já havia trabalhado com o escritor em FF, aproveita para demonstrar seu talento como ilustrador aqui, compondo painéis que contribuem para a narrativa ao impor formas e estilos únicos, tanto os personagens quanto seus cenários são bem definidos em seus traços, criações singulares e cheias de personalidade que habitam entre o real e o surreal. A sequência que abre a edição com a chegada dos três cavaleiros é uma bela amostra da sua sutileza e cuidado na composição de quadros, o cuidado em dizer muito com sua arte, sem o texto de Hickman precisar ser uma “muleta” com explicações mastigadas o bastante por não confiar em seu artista. A cena do bar onde Lobo massacra um grupo de homens do exército da União, enquanto Morte interroga incisivamente um barman, entra facilmente numa lista das grandes páginas do ano. Dragotta consegue a proeza de realizar uma sequência perturbadora e impactante, sem realmente mostrar a violência gritante que acontece, o ilustrador apenas sugere ao leitor que utilize sua imaginação para compreender o terror que aqueles homens sofreram, confiando na presença assombrosa daquele que carrega a sina da fatalidade só em seu olhar. Para complementar, Frank Martin faz um belo trabalho comas cores, utilizando tons amenos para os painéis com flashbacks, como se fossem vagas lembranças do passado, enquanto carrega uma tonalidade mais agressiva e sombria para ilustrar a temida presença dos cavaleiros. Há também todo o sutil e bem elaborado design do título, bastante agradável e dialoga com seus projetos anteriores numa linha contínua própria. Desde a capa até os créditos iniciais e o encerramento, Hickman não decepciona no planejamento delicado de suas obras, principalmente no visual delas.

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Quando menos é mais.

Seu inicio sólido e promissor, faz East of West ser um dos mais ambiciosos trabalhos de Jonathan Hickman, atualmente. Lidando com diversos conceitos e temas instigantes, enquanto parece cravar uma faca nas costas da sua própria nação, com essa sua abordagem sobre as consequências da segregação, podendo render boas discussões políticas, caso o autor queira se enveredar por estes caminhos. Aliás, a presença de ficção-científica, faroeste, religião e política dá muito pano na manga para termos uma grande obra nascendo aqui.

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