[DIVERSIDADES] D&D se afasta da exposição gratuita de corpos e oferece iguais possibilidades aos gêneros.

Nota do editor: essa matéria faz tradução livre de ideias publicadas originalmente pela autora Cecília D’Anastasio, do site Kotaku.com, inclui meu ponto de vista e convida o leitor à uma reflexão sobre o assunto.

Dungeons & Dragons tem usado historicamente monstros atraentes, e especialmente “mulheres” sedutoras, para atrair potenciais jogadores. Demônios de seios grandes e donzelas esbeltas povoam seu material de origem, O Manual dos Monstros, ao longo dos últimos 40 anos.

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Com as edições mais recentes e suplementos, a D&D eliminou seus monstros femininos de busto exposto e incluiu seres masculinos com forte sexy appeal, deixando claro que o jogo está indo numa direção diferente. Agora, da mesma maneira que fez com a 5ª edição do jogo, lançada em 2013, a marca trabalha para atrair uma audiência maior: você verá menos seios nus e mais abdomens masculinos no Manual dos Monstros e seu suplemento de outono de 2016, o Guia de Monstros de Volo. Mudanças recentes no design das bestas do jogo refletem como a D&D meditou em suas próprias práticas de marketing.

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Mike Mearls, o Gerente Sênior da D&D, disse em entrevista para Kotaku, que “nos primeiros anos do jogo, você definitivamente tinha uma sensação de nudez (olhando para você, estava uma súcubo fazendo topless, na 1ª edição do DMG [o Manual do Mestre de Dungeons & Dragons]. Era algo que estava se tornando uma contracultura comum da época”. Agora, D&D é um jogo diferente. A contracultura à qual Mearls se refere foi, na maior parte, comercializada para homens heterossexuais.

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Isso porque o público-alvo de outrora era, predominantemente, composto de homens. Uma pesquisa de 1978 estimou a porcentagem de fãs femininas entre 0,4 e 2,3 por cento. O desinteresse do jogo pelas mulheres foi discutido em discussões no início dos anos 80, em que se afirmava que “Dungeons não deveria ser somente para homens” e “Mulheres querem direitos iguais”. “E por que não? ”. No AD&D, os jogadores podiam fazer referência a uma “Taverna de meretrizes”, uma matriz de doze “bruxas de bronze ou cortesãs altivas”. No início, as regras do jogo penalizavam a pontuação de força dos jogadores se eles escolhessem ser do sexo feminino. Não é difícil perceber como o conjunto de regras, ilustrações e cultura do jogo, então pautados nos jogos de guerra antigos e conservadores, gerou um clube de meninos.

Gary Gygax, o co-criador do jogo, era um grande adorador de livros de fantasia da sua geração. Conan era a sua bíblia. E, em Conan, as mulheres são quentes, bem-dotadas, e prontas para ação – até mesmo as inimigas ou não-humanas. Em “Filha do gigante da geada” de Robert E. Howard, uma “gigante sexy e congelada que, ‘salvo um leve véu de teia-de-aranha’, estava ‘nua como o dia’”, é usada para atrair o bárbaro a seu pai e irmão, que iriam matá-lo. É o clássico arquétipo da “femme fatale”, Mearls explicou. Os mitos gregos e os contos populares europeus, dos quais a D&D vem tomando como referência, costumam usar essas mulheres não-humanas como iscas vulneráveis ou bestas ferozes. “Imagino que, nos primeiros anos deste hobby, outrora dominado pelos homens, foi que [isto] se arraigou e se tornou um clichê”.

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Se uma criatura é canonicamente sexy(…)”, Mearls enfatizou, “(…) na 5 ª edição, a equipe da D&D equipe projetou figuras masculina e feminina. Nessa nova versão, passa a se assemelhar a uma personagem de Buffy, a Caça-Vampiros, atendendo também ao interesse das mulheres heterossexuais” (no bestiário, ele surge totalmente blindada, armada até os dentes e inclinando-se seu tronco para trás). “Somos comerciantes de bolo de igualdade de oportunidades. Não assumimos [apenas o público de] jogadores heterossexuais masculinos. ”

Crawford complementou na entrevista: “A questão não deveria ser: ‘Por que devemos acrescentar outra versão da súcubos ao nosso jogo?’ A pergunta deveria ser: ‘Por que a outra versão [de gênero masculino] foi tirada?’ Por que é que apenas metade da súcubos tradicional era levada adiante por tantos jogos?”.

Precisamos lembrar que, dos anos 80 para cá, MUITA coisa mudou.

O despertar da sexualidade dos jogadores de D&D, como eu, por exemplo, deu-se ao mesmo tempo em que imagens sensuais eram exibidas pelo game e outros veículos de comunicação e podiam ser “desejadas” sem o sentimento de culpa (afinal, esse é um sentimento humano, não é?). Era como se o reino da fantasia estivesse dizendo: “isso é legal”. E aquela sensação de segurança, de que o medo da sedução podia se dissipar. Pode ter certeza de que boa parte da minha timidez – e ainda me considero uma pessoa tímida – se perdeu ali.
Mearls explicou que era natural gravitar em direção à arte que, na época, teria sido considerada ousada e “fora da caixa” e que grande parte dessa arte exibia mulheres maduras, e monstros em idade adulta – ainda onipresentes em cartazes de fantasia de quarto e figurinhas.

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Acho muito legal que a D&D esteja oferecendo essa mesma possibilidade de experiência ao público feminino que vem abraçando a jogatina a cada dia que se passa– na mesa da qual participo, duas garotas participam; somos cinco.
Jogar RPG é uma ótima oportunidade para o escapismo, para uso da lógica, para o aprendizado de relações empáticas (haja vista que é preciso interpretar uma personagem diferente do eu, e entender que óticas diferentes resultam em ações díspares), além de fazer amigos.

Quando consideramos o público, tentamos pensar em como homens e mulheres reagiriam, e nos certificar de que a reação que provocamos estava de acordo com o caráter do monstro e a intenção de design”, disse Mearls.

Vale aqui uma ressalva: o RPG sempre encorajará a criatividade e liberdade de imaginação de quem estiver inserido numa campanha. Quão sexy uma personagem deverá ser introduzida ao jogo, embora existam um carrilhão de regras para defini-la, dependerá apenas aos participantes, em especial, o Mestre, definirem.
Penso que isso é maravilhoso: quem deve definir o quão confortável se está para lidar com determinados temas é o sujeito inserido neles. Não havendo prejuízo ou causando incômodo à outra parte, ou seja, existindo uma relação saudável, tudo deve ser permitido. Vale o bom senso. 😉