[CURTINDO CINEMA] God Bless America: atirando na cara da sociedade (crítica)

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Frank (Joel Murray) é divorciado, vive sozinho, tem vizinhos horríveis, colegas de trabalho fúteis, e está insatisfeito com tudo que diz respeito à cultura dos Estados Unidos. Pra piorar, graças a um mal entendido, é demitido da empresa onde trabalhou por 11 anos. No mesmo dia ele descobre que está com um câncer terminal.

Numa noite particularmente decisiva de sua vida, após ter uma grande decepção com sua filha pré-adolescente, à beira de cometer suicídio, ele tem uma revelação: sua vida não está destinada a terminar ali. Antes de dar seu último suspiro, ele fará de tudo pra eliminar o máximo de pessoas que personificam tudo que há de errado, amoral e desprezível em seu país, fazendo justiça com as próprias mãos, e um punhado de balas.god bless america critica 4

God Bless America é um filme dirigido por Bobcat Goldthwait lançado em 2011 sem muito alarde. O protagonista é interpretado por ninguém menos que o irmão caçula de Bill Murray, o que, em parte, explica seu talento como ator, pois sua performance como Frank é tão memorável quanto a de Edward Norton em Clube da Luta e Michael Douglas em Um Dia de Fúria. E não citei estas produções aqui à toa, pois, tematicamente, God Bless America remete a ambos: um sujeito relativamente comum resolve impôr sua vontade sobre o mundo e tentar mudá-lo usando métodos violentos.

Particularmente, no que diz respeito às críticas voltadas contra a sociedade, especialmente a tendência da mídia em idolatrar as celebridades, zombar do ridículo, estimular o consumo de produtos que teoricamente tornarão as pessoas mais produtivas, e dar espaço a formadores de opinião que não medem suas palavras ao expô-la, God Bless America é bem mais efetivo e incisivo que seus antecessores. Através de Frank enxergamos extrapolações do que há de mais repugnante na sociedade dos Estados Unidos, com seu shows de talentos, reality shows e jornalismo sensacionalista.

Claro que há certo exagero na sucessão de má sorte de Frank, mas tudo acaba servindo ao propósito de disparar nele o desejo de realizar algo grande antes que sua doença terminal o consuma. E é emblemático que ele escolha como primeira missão matar uma riquinha mimada que estrela um reality show sobre sua vida fútil e superficial. Isto acontece logo após enxergar semelhanças entre ela e sua filha, que briga com a mãe por razões muito parecidas com as que levam a garota da TV a brigar com o pai, após este presenteá-la com um carro diferente da marca que ela queria.

É logo após este primeiro assassinato que entra na história outra personagem tão essencial quanto Frank para o sucesso de God Bless America: Roxy (Tara Lynne Barr). Se Frank é a versão mundana do Big Daddy, Roxy é sua Hitgirl. Ela se envolve com ele numa relação paternal logo após testemunhar assassinato da patricinha metida. Isto desperta nela uma vontade de unir-se a ele em sua missão de ensinar uma lição para o resto do mundo através de seus crimes. Roxy é quem mais incentiva Frank a continuar, pois ele enxerga nela a possibilidade de redimir-se do completo fracasso de educar sua filha biológica. Não que ele nutra a esperança de transformar Roxy num exemplo. É apenas um daqueles casos em que enxergamos no outro um complemento a nós mesmos.

E aqui lembrei de outra relação afetiva que se forma entre um homem maduro e uma moça bem mais jovem que ele: aquela entre o personagem de Bill Murray e a jovem desiludida interpretada por Scarlett Johansson no filme Encontros e Desencontros. Lá os dois se uniam para superar a solidão que sentiam num país onde eram dois estranhos sem muito rumo; aqui, Frank e Roxy se unem para tornarem suas vidas suportáveis e enfrentarem o que há pior num país incapaz de enxergar quão ladeira abaixo ele está indo.

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Semelhante a Bonnie e Clyde (que são citados no filme – foto acima), a história de God Bless America sustenta-se não apenas por suas críticas mordazes a desvios morais da sociedade, mas pelo carisma de seus protagonistas. Sim, estou falando de um casal de psicopatas, mas também de uma dupla que, por mais que reprovemos seus métodos, somos incapazes de tirar toda a razão deles. Frank e Roxy têm um bocado de verdades que precisam ser atiradas na cara da sociedade. Além disto, não tem como não se identificar com determinadas situações, como o bebê do casal vizinho que chora sem parar enquanto os pais discutem; ou aquela da minha sequência preferida: pessoas conversando no celular no meio de um filme. É por isto que nos sentimos realizados quando os personagens disparam contra os causadores de tais problemas. É por isto que vibramos quando Frank e Roxy cospem balas em cima de religiosos preconceituosos.

God Bless America é um filme tão catártico quanto Um Dia de Fúria, ganhando deste na maneira como cutuca várias feridas da sociedade, e na simpatia que desperta por seu protagonista e sua fiel escudeira, ambos muito bem personificados por Joel Murray e Tara Lynne Barr. Se você ainda não assistiu, recomendo fortemente que o faça. Ele se encontra no catálogo da Netflix, portanto, não há desculpas para não conhecer este filme ímpar, que ao mesmo tempo entretém e te faz refletir sobre o estado atual da cultura ocidental.


nota-5