[CURIOSIDADES] Quem é a Mãe Natureza?

É muito comum ouvir o termo mais do que famoso “mãe natureza”. Basta que você tenha um amigo mais ligado a atividades ao ar livre, e curta alguns assuntos mais holísticos, para ouvir esse termo.

Mas mesmo sendo uma terminologia muito utilizada, pouca gente conhece o verdadeiro significado de “Mãe Natureza”. Pouca gente sabe, por exemplo, que isso está diretamente relacionado ao conceito de Deusa Mãe (uma ideia de que a força maior na verdade teria características femininas e maternais, contrariando a lógica “Paternalista” Cristã).

Até aí ok. Mas você sabe de onde vem isso?

Quem é mãe da Deusa Mãe (ou Mãe Natureza)?

Deusa e mãe da terra cultivada foi compreendida pelos antigos como um equivalente de guê méter, “mãe-terra”. É muitíssimo importante ressaltar que esse nome não vem do acaso.
A existência de similaridades entre as deidades e práticas religiosas dos povos indo-europeus permite o vislumbre de uma religião e de uma mitologia comuns proto-indo-europeia. A religião hipotética teria sido a ancestral da maioria das religiões pré-cristãs da Europa, das religiões dármicas da Índia, e do zoroastrismo na Pérsia.
Os linguistas são capazes de reconstruir os nomes de algumas deidades em PIE a partir de nomes que ocorrem em ampla difusão e em mitologias antigas. Algumas dessas deidades propostas são mais aceitas por alguns que por outros acadêmicos.
Indicadores da existência desta religião ancestral podem ser detectados pela associação entre línguas e costumes religiosos dos povos indo-europeus. Para pressupor que esta religião ancestral existiu, de qualquer forma, alguns detalhes permanecem baseados em conjecturas. Enquanto costumes religiosos similares entre os povos indo-europeus podem fornecer evidências para uma herança religiosa comum, um hábito compartilhado não necessariamente indica uma fonte comum para tal hábito; algumas destas práticas podem bem ter se desenvolvido num processo de evolução paralela. As evidências arqueológicas, onde alguma possa ser encontrada, são difíceis de se adaptar a uma cultura específica. A melhor evidência é, então, a existência de palavras cognatas e nomes nas línguas indo-europeias.
Dentre um amplo Panteão, há (a impronunciável) Plthwih Mhter (Dg’hōm) – acredita-se que tenha sido nome de uma deusa Mãe Terra. Outro nome da Mãe Terra indo-europeia seria Dhghom Mater, como no albanês Dhe Motë, no avéstico Zamyat, no eslavo Mati Zemlja, no lituano Žemyna, no letão Zemes Mate e no grego Demeter. Os cultos mais antigos de Deméter foram afogados pelas invasões dóricas, segundo o historiador Heródoto (484 – 408 A.E.C.), a partir do século XII A.E.C. Ficaram, no entanto, alguns vestígios dessa fase antiga, particularmente na Arcádia, onde a deusa estava associada ao primitivo Posídon, o Posídon-Cavalo, bem com em Elêusis, segundo se verá em seguida. Nos arredores de Telpussa, querendo escapar do deus, que a perseguia, disfarçou-se em égua, mas Posídon, tomando a forma de um garanhão, fê-la mãe do cavalo Aríon e de uma filha, cujo nome só os Iniciados conheciam. O povo chamava-a simplesmente de Déspoina, a Senhora. Foi por causa da cólera, provocada por essa violência de Posídon, que a mãe de Aríon passou a ser denominada também de Deméter-Erínis. Recebeu, igualmente, o epíteto de Lúsia (a que se banha), pelo fato de ter-se purificado dos contatos do deus-cavalo no rio Ládon. Perto da Figalia, ainda na Tessália, chamavam-na Mélaina, a Negra, porque, em seu ressentimento, cobriu-se com véus pretos e retirou-se para o fundo de uma caverna, onde sua estátua era encimada por uma cabeça de cavalo. Em Fêneo ainda havia traço de mistérios primitivos, celebrados num antro rochoso, onde o sacerdote tirava de um esconderijo uma máscara de Deméter, dita Kidária, cobrindo o rosto e ferindo o solo com um bastão, rito destinado a provocar a fertilidade e evocar as forças ctônias. O termo grego kídaris designa uma espécie de turbante, e o sobrenome Kidária poderia derivar de máscara, mas kídaris significa, outrossim, uma dança de Arcádia, e a arte figurada deixa entrever que um coro bárbaro de sobrevivência zoomórfica não era estranho a esse culto primitivo. Ainda na Arcádia, as duas deusas, a dupla Deméter-Senhora, tinham características acentuadas de Pótnia Theron, “Senhora das feras”, associadas ao mundo animal e á fertilidade dos campos. Na região da Licúria (a montanha dos lobos) sua companheira era uma Ártemis arcaica. À dupla se ofereciam frutos diversos e animais não degolados, mas despedaçados vivos.Um mito cretense, recolhido por Hesíodo, atesta que a grande deusa se uniu a Iásion sobre um terreno lavrado três vezes, e que dessa ligação nasceu Plûtos. Existem algumas reminiscências de uma hierogamia à época das semeaduras, e a ideia desse tipo de união rústica se encontra talvez na Deméter de Olímpia, denominada Caminéia, isto é, “que está na terra”. Sob esse epíteto se viu uma divindade oracular, mas que acabou sendo relacionada com o antigo hábito, segundo o qual o camponês e sua esposa dormiam sobre a terra que deveria ser cultivada, a fim de provocar a vegetação. Homero, na Odisséia, sem mencionar Pluto, refere-se à mesma tradição, ao dizer que o herói Iásion foi fulminado por Zeus, cujo mito olímpico, mais tarde codificado pelo mesmo Hesíodo, faz de Zeus esposo de Deméter, que dele teria tido Kóre, Core, a Jovem, ou Perséfone.

Os sofrimentos por que passou a deusa, quando sua filha, com o consentimento e ajuda do pai, foi raptada por Hades, são relatados no importantíssimo Hino homérico a Deméter, composto lá pelos fins do século VII A.E.C. e que, salvo um ou outro pormenor, pode e deve ser considerado como o hièro lógos, o “discurso sagrado” do Santuário de Elêusis. Nele a deusa augusta da terra é proclamada a maior fonte de riqueza e alegria. Com efeito, quando Deméter recuperou, por dóis terços do ano, a companhia de Perséfone, a deusa devolveu (karpòn pherésbion) o grão da vida, que ela própria, em sua cólera dolorosa, havia escondido. Confiou-o, em seguida, a Triptólemo, que o Hino menciona apena acidentalmente entre os chefes de Elêusis. Mais tarde este herói se tornará filho de Metarina e Céleo, rei de Elêusis. Triptólemo recebeu a missão sagrada de levar o grão da vida a todos os povos e ensinar-lhes a prática do trabalho. A esses dons a deusa de Elêusis acrescentou uma recompensa suprema: no templo que Céleo lhe mandou construir, exatamente no local em que se asilou, Deméter instituiu para sempre belos e augustos ritos, penhor de felicidade na vida e para além da morte. Além do mais, as “duas deusas”, mãe e filha, a todos os homens piedosos, que as cultuam, enviam-lhes Pluto, o deus da riqueza agrária. Deméter é, pois, a Terra-Mãe, a matriz universal, e mais especificamente a mãe do grão, e sua filha Core o grão mesmo de trigo, alimento e semente, que escondida por certo tempo no seio da Terra, dela novamente brota em novos rebentos, o que, em Elêusis, fará da espiga o símbolo da imortalidade.
Pluto é a projeção dessa semente. Se verdadeiramente o deus da riqueza agrária ficou eclipsado no Hino a Deméter é pela evocação patética de Core, perdida e depois “re-encontrada”, uma estreita relação sempre existiu, desde tempos imemoriais, entre os cultos agrários e a religião dos mortos, e é assim que o Rico em trigo, Pluto, acabou por confundir-se com outro rico, o Rico em hóspedes, que se comprimem no palácio infernal. Pois bem, esse rico em trigo, com uma desinência inédita, se transmutou, sob o vocábulo (Plúton), Plutão, num duplo eufemístico e cultural de Hades.
Fundamentalmente agrária, o culto a Deméter está vinculado ao ritmo das estações e ao ciclo da semeadura e colheita para produção do mais precioso dos cereais, o trigo.
Difundidas por todas as regiões do mundo helênico, as mais antigas festas de Deméter são as Tesmofórias, palavra que se compõe de thesmós, “instituição sagrada da lei” e o verbo phérein, “levar, produzir” e, em sentido figurado, “estatuir, estabelecer”. Deméter thesmophóros é portanto a “legisladora”, porque, tendo ensinado os homens a cultivar os campos, instituiu o casamento, fundando, assim, a sociedade civil. As Tesmofórias são, por conseguinte, a festa das “legisladoras”, em que se agradece a Deméter pelas últimas colheitas.
Atribuídas por Heródoto às filhas de Dânao, as Danaides, as Tesmofórias eram reservadas às mulheres casadas, pela analogia óbvia entre a fecundidade do seio materno e a fertilidade da terra, que as mulheres estão muito mais aptas a promover. Isto explica provavelmente a preeminência da mulher no sacerdócio de Elêusis, tanto mais quanto da cidade santa dos Mistérios a sacerdotisa de Deméter sempre teve as honras da Eponímia.
As Tesmofórias, que duravam três dias, eram celebradas no mês de Pianépsion, segunda metade de outubro, quando os “poceiros” retiravam das fossas os restos dos leitões que aí haviam sido lançados, segundo a prática, cuja causa foi a desventura do porcariço Eubuleu. Jogavam-se leitões em fossas profundas, contava-se, como recordação da manada de porcos de Eubuleu, quase toda tragada, quando a terra se abriu no momento do rapto de Core. Recolhiam-se, em seguida, os restos, que eram misturados a grãos e sementes diversas: tal mistura era colocada sobre os altares e depois espalhada pelos campos. Tratava-se, claro está, de um rito de adubagem sagrada.
O segundo dia festivo das Tesmofórias denominava-se Nestéia, que quer dizer o “dia do jejum”, estomacal e sexual. Em Atenas, as mulheres formavam uma grande procissão e dirigiam-se para o Pnix, a oeste da Acrópole, e passavam o dia todo em cabanas feitas de ramos, sentadas sobre folhas de loureiro, cujas virtudes fecundantes eram muito exaltadas pelos antigos. O jejum e a atitude dessas mulheres eram uma evocação de Deméter, prostrada de dor pelo desaparecimento da filha. Esse dia era considerado nefasto.
As comemorações do terceiro dia das Tesmofórias denominavam-se Kalliguéneia, que quer dizer, literalmente, “belas gerações”, ou seja, abundantes colheitas. Oferecia-se à deusa uma panspermia, como nas Antestérias dionisíacas, uma espécie de sopa com uma mistura de todas as espécies de sementes, uma vez que pân é todo, total e spérma é semente. As Kalliguéneia transcorriam numa atmosfera de grande alegria e as mulheres casadas, de todas as idades, se entregavam a uma liberdade de gestos e de linguagem que fariam corar Aristófanes! Essa mesma quebra de interditos e “desrepressão” se verificam nas Haloas. Também as Kalliguéneias tinham por objetivo provocar a fertilidade do ser humano e dos campos.
Um pouco mais tarde, após as chuvas do outono, se dúvida do mês Posêidon, em dezembro, quando o trigo e a cevada cobriam a terra de verde, celebravam-se as festas denominadas Cloe (Khloîa), a verdejante, em honra ainda de Deméter, em Atenas e Elêusis.
Nos fins de maio, início de junho, isto é, nos meses de Targélion e Esquirofórion, realizavam-se as Thalýsia, “florir, cobrir-se de folhas, flores e frutos”. Nas Talísias ofereciam-se à divindade as primícias da colheita, hábito já registrado em Homero, mas a propósito de Eneu, rei Cálidon, terrivelmente castigado, porque esqueceu de Ártemis, quando ofereceu as primícias aos outros deuses. Na época clássica, as Talísias eram propriamente uma festa da eira, em honra de Deméter, quando a ela se ofereciam os primeiros grãos da colheita. Teócrito, o grande poeta grego da época alexandrina, no Idílio 7, cujo título é exatamente Talísias, se inspira poeticamente da festa e diz que “Deméter está corada de espigas e de papoulas vermelhas”.
A derradeira festa de Deméter denomina-se Haloas, ou seja, em princípio, uma festividade da deusa “guardiã dos celeiros”, mas essas comemorações celebravam também a outro grande deus da vegetação, Dioniso, que, sob muitos aspectos, está ligado à mãe de Perséfone.
As Haloas se desdobravam, portanto, numa festa da uva, quando se realizava a segunda cava às vinhas, o adubamento das cepas e a degustação do vinho novo, cuja primeira fermentação já havia terminado. Como se tratava de uma festa de Deméter, embora extensiva a Dioniso, a presença da mulher, ao menos em algumas partes da festividade, conferia-lhe um regozijo especial e uma atmosfera de luxúria báquica. Boas apreciadoras também do néctar dioisíaco, as mulheres, mais que nas Kalliguéneia, entregavam-se a gracejos licenciosos e a gestos ousados, que a lei admitia e de que fala Aristóteles na Política (7, 1336 b 17), como assunto superado, por seu caráter ritual.