[CULTURA] A Arte e a Psicopatia

Os filmes de terror costumam ser grotescos, com cenas de violência e sangue, expondo vísceras e o lado sombrio da sociedade. Mas, o ser humano gosta de sentir medo…

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Estudos já revelaram que o medo tem ajudado a humanidade evitar o perigo e progredir. Sempre que o cérebro pressente o perigo, libera neuro-hormônios e neurotransmissores para proteger o corpo-abrigo. Dopamina, endorfina e adrenalina são despejadas no sangue e despertam, quase de imediato, um misto de sensações agradáveis que possibilitam uma rápida reação de defesa.

Se existe aquele que curte tomar sustos sentado (ou deitado) no sofá da sala, comendo pipocas confortavelmente e na segurança do lar, há o outro que sente prazer em experiências menos saudáveis. Por exemplo, os psicopatas, personagens-chave dos gêneros de romance policial, thrillers e suspense no cinema.

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Por mais que a imensa maioria da população brasileira estabeleça forte ligação emocional entre a palavra que se costuma escutar desde pequeno ao ato do assassínio, a psicopatia é outra coisa diferente do sinônimo de criminoso: é uma doença. Os psicopatas sobretudo são pessoas que têm dificuldades em discernir emoções.

Embora as razões para a origem da patologia devam ser analisadas uma a uma, é sabido que a ausência dos pais no desenvolvimento da criança pode resultar no comprometimento da saúde emocional dela. A história nos comprova que os pais dos piores serial killers nunca foram assim tão bonzinhos.

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Pedro Alonso Lopez, o Monstro dos Andes, acusado de assassinar mais de trezentas pessoas, quase todas meninas entre nove e doze anos de idade, teve uma infância terrível. Filho de prostituta e expulso de casa aos oito, foi recolhido por um pedófilo e sodomizado forçadamente.

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Gilles de Rais, herói francês do século XV, contemporâneo de Joana D’Arc na Guerra dos Cem Anos, costumava estuprar e decapitar garotinhos (e ainda se masturbava sobre as entranhas de suas vítimas). Após ter perdido tragicamente os pais, foi criado por seu avô materno, que costumava dedicar atenção apenas ao irmão. Vivendo recluso na biblioteca da casa, encontrou seu álter ego nas figuras dos poderosos e ricos imperadores romanos que matavam sem dever explicações a ninguém.

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Francisco das Chagas Rodrigues de Brito, do caso dos meninos emasculados do Maranhão e de Altamira, mutilava os órgãos sexuais de seus padecedores. Foi abandonado, primeiramente pela mãe, em seguida pelo pai. Sendo relegado à casa da avó, tinha na parede do quarto uma lista de proibições afixada – quando oito delas eram completadas, era surrado.

Chega a assustar quando se toma conta de ter certa empatia com essas figuras. Não é à toa que Jason Voorhees (Sexta-Feira 13), Freddy Krueger (A Hora do Pesadelo), Samara Morgan (O Chamado), Jigsaw (Jogos Mortais) e Jack Torrance (O Iluminado) sejam personagens memoráveis. Imperfeitas e sem qualquer vocação heroica, que realizam a “justiça” por razões egoístas e vingativas, ou através de meios duvidosos, a mente utiliza das personagens para trazer desejos à tona de maneira admissível – por mais impossíveis ou proibidas que sejam.

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Do mesmo modo, quando a ficção trata de castigar ou repreender esses vilões, vem o sentimento de prazer, um alívio para a insustentabilidade daquele impulso obsceno e perverso. Crime e Castigo (leia Dostoiévski para compreender a alma humana).

Uma das características preponderantes dos psicopatas é o fato de que eles são incapazes de enxergar determinadas emoções e sentimentos, da mesma maneira que um míope está impossibilitado de ver o mundo com nitidez, a menos que use óculos. Por serem inaptos a estabelecer uma identificação intelectual ou afetiva com outra pessoa, uma ideia ou uma coisa, diferem-se da maioria. (Mas, não se engane! Entre 1 a 4% da população mundial sofre do distúrbio! Nunca se atentou ao olhar penetrante do seu vizinho?).

Pelo simples fato de se ter empatia por estes algozes, deve-se ter clareza das diferenciações: a população saudável tem consciência das suas emoções e sentimentos, e respeito às vidas alheias.

Dá para curtir os filmes de terror tranquilamente, sabendo que à arte cabe apenas o papel da libertação e do entretenimento.


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