[CRÍTICA] Zodíaco: quando David Fincher começou a amadurecer

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Diretor mais conhecido por seu virtuosismo técnico, especialmente no manejo das câmeras, que sempre se arriscam em malabarismos ousados, David Fincher iniciou com Zodíaco (Zodiac, 2007) uma fase mais sóbria de sua carreira, assim como seu projeto mais ambicioso.

Zodíaco pode ser considerado o “JFK” de Fincher. Assim como na produção de 1991, dirigida por Oliver Stone, aqui temos uma história que sustenta-se especialmente pela enorme carga de informações reunidas durante quase três décadas de um caso que até hoje gera discussões. Aceitando o desafio de adaptar o complexo e minucioso roteiro escrito por James Vanderbilt, Fincher tinha em mãos uma tarefa hercúlea pela frente. O resultado do esforço do diretor e sua equipe é um filme de quase 3 horas de duração que procura examinar cada passo da investigação dos assassinatos cometidos pelo serial killer Zodíaco, além das repercussões do crime na mídia, na sociedade, e nas vidas dos responsáveis pelo caso.

Um primeiro detalhe que chama atenção é a fotografia, que começa muito estilizada, de cores carregadas, com predominância do amarelo muito vivo na redação do jornal onde Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal) e Paul Avery (Robert Downey Jr.) trabalham, detalhe que mais tarde será usado como recurso para indicar a passagem do tempo, quando o cenário volta a aparecer com colunas pintadas de um azul melancólico, que também refletem o clima mais pessimista e um tanto depressivo da década de 70.

Amarelo vibrante (década de 60)

Amarelo vibrante (década de 60)

Azul deprê (década de 70)

Azul deprê (década de 70)

Esta mudança de humor também é notada através das roupas, em especial as usadas por Paul, que começa o filme usando peças coloridas, combinando com sua personalidade excêntrica e destemida, algo que mais adiante contrasta com as roupas de cores cada vez mais frias, sujas e puídas, conforme o personagem se afunda cada vez, entregando-se ao álcool e outras drogas, algo que Downey Jr. explora muito bem através de sua atuação.

O roteiro e a direção também acertam na maneira como retrata o efeito do caso na vida pessoal dos demais envolvidos, especialmente na do cartunista Robert e na do inspetor David Toschi (Mark Ruffalo). Vemos quase superficialmente o convívio deles com suas respectivas esposas e filhos, o que ajuda a manter a história focada na detalhada investigação, e serve para indicar o quanto passam a se afastar de suas famílias, dedicando a maior parte do tempo em suas buscas por novas pistas e evidências que os ajudem resolver o mistério em torno da identidade do Zodíaco.

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A queda de Paul Avery

Outro fator bem trabalhado é a relação do trio principal. Apesar de não serem amigos, e se desentenderem em vários momentos, com o passar do tempo surge um respeito e companheirismo entre eles, tamanha a necessidade que sentem de chegar a uma resolução. Quando Paul não encontra mais forças para seguir em frente, ele incentiva Robert a continuar, mesmo que hesite na hora de encorajá-lo, por já conhecer os riscos. O mesmo ocorre com David mais tarde, que começa a passar dicas para Robert, ainda que não o ajude diretamente. No fim ambos tiram proveito do entusiasmo e da curiosidade juvenil de Robert para realizarem, através dele, aquilo que não conseguiram. No fundo eles torcem pelo sucesso do rapaz.

A obsessão do cartunista é outro ponto que merece atenção quando examinamos sua origem. Menosprezado por seus colegas de trabalho, Robert acaba encontrando no “Caso Zodíaco” um meio de sobressair-se, de mostrar um valor maior do que o atribuído a ele. Seu desejo de destacar-se é tamanho que nem sequer hesita antes de permitir que publiquem seu nome num jornal, ou ameaçar a segurança de sua família, quando aparece na TV para explicar como interpretar os códigos do assassino. E Jake Gyllenhaal assume com segurança o papel de protagonista quando a trama passa a focar-se em seus esforços.

Acompanhar um suspeito no porão de sua casa não é a melhor das idéias

Acompanhar um suspeito no porão de sua casa não é a melhor das idéias

É Gyllenhaal que protagoniza uma das melhores seqüências de suspense do filme, quando o rapaz vai até a casa do amigo de um suspeito, que acaba se revelando mais do que aparentava. Mesmo ciente do perigo que corre, Robert aceita descer até o porão da casa do sujeito para ter acesso a uma pista importante, indo contra seus instintos, que tentam alertá-lo do quanto está se arriscando ao fazer aquilo. É uma seqüência em que atuações, fotografia, ângulos de câmera, e sons ambientes trabalham em perfeita sintonia para potencializar a sensação de ameaça iminente que torna aqueles poucos minutos enervantes.

David Fincher também se destaca na construção do suspense de todas as sequências que recriam os crimes do serial killer, especialmente naquela que ocorre à beira de um lago ensolarado. O diretor dosa a tensão, permitindo que ela se estabeleça lentamente, a ponto de quase acreditarmos que o casal será poupado pelo criminoso, apenas para sermos surpreendidos quando começam os primeiros golpes de faca. Além disto a paisagem idílica torna a violência do crime ainda mais chocante.

Nem a luz do dia segura esse assassino

Nem a luz do dia segura esse assassino

A longa duração do filme não compromete o ritmo da história, que renova constantemente o interesse do espectador ao apresentar novas informações sobre o caso, além de encontrar espaço para abordar de maneira orgânica os efeitos do mesmo sobre a cultura pop, quando, por exemplo vemos os personagens assistindo Perseguidor Implacável (Dirty Harry, 1971), estrelado por Clint Eastwood, cuja história baseou-se no caso (o assassino do filme se chama Scorpio, “escorpião” em inglês, um dos signos do zodíaco), numa oportuna válvula de escape criada por Hollywood a fim de satisfazer a ânsia de justiça dos norte-americanos na época.

Talvez por ser um filme menos passional e visceral que Seven: Os Sete Crimes Capitais (Se7en, 1995), e menos estiloso que Clube da Luta (Fight Club, 1999) ou O Quarto do Pânico (Panic Room, 2002), Zodíaco não logrou o mesmo sucesso que os filmes anteriores do diretor. Aqui vemos um Fincher que soube domar seu estilo a favor da história, num dos maiores acertos de sua carreira, e um indicativo de seu amadurecimento, que comprovou-se nos anos seguintes com Rede Social (Social Network, 2010), Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo, 2011) e espera-se que se confirme em Garota Exemplar (Gone Girl, 2014) dia 2 de outubro.

Indispensável para quem gosta de tramas inteligentes e bem amarradas, com suspense de ótima qualidade, e produção primorosa.

Nota 10

(texto originalmente publicado em 5 de setembro de 2011, no blog Curtindo Cinema)