[CRÍTICA] O Filho do Batman (Son of Batman, 2014)

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Quando Grant Morrison assumiu os roteiros da série Batman em 2006, ele já entrou com vontade de chacoalhar a vida do herói. De cara a primeira sequência de páginas de sua edição de estréia (recentemente republicada no encadernado Batman e Filho, pela Panini Books), mostra o “Batman” dando um tiro na cabeça do Coringa. Não demora pra descobrirmos que não era o verdadeiro Cavaleiro das Trevas, mas um policial que despirocou e resolveu que acabaria com o Palhaço do Crime de uma vez por todas.

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O primeiro encontro de Batman com Damian.

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Mas esta sequência inicial, analisada em retrospecto, empalidece diante do que Morrison preparou mais adiante: Damian Wayne, o filho de Bruce Wayne com Talia Al Ghul, filha do terrorista internacional Ra’s Al Ghul.

O menino entrou na vida do Batman tão repentinamente quanto saiu, no final do arco de histórias que o apresentou ao mundo. Arrogante, prepotente, irritante, e de comportamento tão violento quanto de um membro da Liga de Assassinos, que o treinou desde a tenra idade (sério, ele decapita o primeiro criminoso de Gotham que enfrenta, só pra demonstrar que não estava brincando quando disse que aprendeu que deve eliminar definitivamente seus inimigos).

Depois do arco em que estreou nos quadrinhos, Damian ficou um tempo sumido das histórias de Morrison, e só voltou a destacar-se na série Batman e Robin, também escrita por Morrison, onde ele virou o novo Robin ao lado do novo Batman, Dick Grayson, que assumiu o manto do Cruzado Encapuzado após a suposta morte de Bruce Wayne na saga Crise Final. Foi neste período que Damian aos poucos conquistou a simpatia dos leitores, com seu jeito arredio, bad ass e violento, que Morrison tão bem soube contrastar com a personalidade mais extrovertida, bem humorada e otimista de Grayson, o primeiro Robin. A dinâmica da dupla funcionou tão bem que muitos chegaram a pedir que Grayson continuasse como Batman, mesmo depois de Bruce Wayne voltar a assumir seu lugar como Cavaleiro das Trevas.

Com a volta do Batman original, Morrison iniciou o terceiro grande ato de sua fase como escritor do herói com a série Corporação Batman, que deu ainda mais destaque para Damian e sua importância na vida de Bruce Wayne, Gotham, e dos demais membros da Bat-Família. Tudo isto para o menino terminar morto pelas mãos de um clone mais velho de si mesmo na fatídica e marcante Batman Incorporated #8 (publicada no Brasil em Corporação Batman – Volume 4, e resenhada por mim aqui).

Sim, eu sei que ainda sequer comecei a falar do longa animado que deveria ser o assunto desta crítica, mas acho importante deixar claros os motivos por que escolheram o arco que introduziu Damian Wayne aos quadrinhos como base para a história de mais esta animação ambientada no Universo DC, que tantas liberdades criativas tomou ao adaptar a obra original.

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A história da animação começa com um ataque em larga escala de uma facção de mercenários comandados por Slade Wilson, o Exterminador, contra a base e escola de treinamento dos ninjas da Liga dos Assassinos de Ra’s Al Ghul. É uma abertura empolgante, que mostra quão fodona é a família Al Ghul, pois toda a sequência reserva momentos para que Talia, Damian e Ra’s exibam suas habilidades de luta contra os mercenários.

Ra’s morre, e Talia foge para Gotham, onde deixa Damian aos cuidados do Batman, após ajudá-lo a derrotar o Crocodilo. Logo descobrimos uma conexão entre o vilão e o cientista Kirk Langstrom – ninguém menos que o criador do soro que, nos quadrinhos, o transformou no Morcego-Humano – e entre ele e o Exterminador e Ra’s.

Tudo isto que descrevi não faz parte do arco dos quadrinhos no qual o longa foi baseado, mas funciona muito bem dentro da história fechada que procuraram criar na animação.

O importante é que a personalidade de Damian foi preservada na versão animada do personagem. Só deram uma amenizada na antipatia que ele apresentou em sua primeira aparição nos quadrinhos, pra torná-lo mais palatável ao expectador, até porque a maior parte da animação é focada nele. O Batman é praticamente um coadjuvante na história.

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Outra modificação que fizeram foi a rivalidade entre Damian e Tim Drake, o terceiro Robin, que na animação foi substituído por Dick Grayson, o Asa Noturna e primeiro Robin dos quadrinhos. Aliás, este é um dos pontos em que o longa mais decepciona. Ao invés de mostrar o quebra-pau que rola entre eles quando se encontram pela primeira vez nas ruas de Gotham, o diretor preferiu omiti-lo da animação, e apresentá-lo em forma de trechos estáticos durante os créditos finais. Numa palavra: brochante.

Em compensação toda a atuação de Damian no filme prova que o moleque é mesmo filho de Bruce Wayne. Dá gosto vê-lo lutando, e neste ponto a animação captou muito bem a esperteza e agilidade do garoto.

Apesar da violência dos combates, e dos jorros de sangue, a adaptação amenizou bastante o papel de Talia na história. Na original ela age o tempo todo como uma terrorista que não está muito preocupada com a segurança do Damian, mas apenas em usá-lo para atrair o Batman para o seu lado, a fim de dar continuidade ao legado criminoso de seu pai, e formar uma família com poder o bastante para submeter o mundo às suas vontades. Aqui ela é só um par romântico do Batman mesmo, e sempre que pinta uma chance fica se esfregando nele, e apresentando seu decote generoso (do qual não vou reclamar, obviamente).

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Mesmo não sendo fiel à sua fonte de inspiração, o longa cumpre a tarefa de entreter, e ainda satisfaz a vontade de muitos fãs de Damian em vê-lo novamente atuando ao lado do pai, como o fez durante Corporação Batman. Neste ponto ele é até mais generoso que o arco de estréia do personagem, em que ele pouco apareceu realmente como parceiro do Batman, agindo mais como um pivete arredio que só o atrapalhava, algo que só veio a mudar na série Batman e Robin.

Portanto, se você leu o arco Batman e Filho saiba que O Filho do Batman está longe de ser fiel à história em quadrinhos, mas conseguiu adaptar com fidelidade a personalidade de Damian para a animação, e fez jus a todas as qualidades que o tornaram um dos Robins mais populares já criados. O longa é bem feito, dinâmico, divertido, e tem um roteiro redondinho e bem amarrado.

Son_of_BatmanO FILHO DO BATMAN (SON OF BATMAN, 74 min., 2014)
Dirigido por Ethan Spaulding
Roteiro de James Robinson e Joe R. Lansdale
Vozes de: Jason O’Mara (Batman / Bruce Wayne), Stuart Allan (Damian Wayne), Thomas Gibson (Exterminador), Morena Baccarin (Talia al Ghul), Xander Berkeley (Kirk Langstrom), Giancarlo Esposito (Ra’s al Ghul), David McCallum (Alfred Pennyworth) e Sean Maher (Asa Noturna)

Nota: 7

4 thoughts on “[CRÍTICA] O Filho do Batman (Son of Batman, 2014)

  1. Gostei da resenha Rodrigo. Cara eu adorei a animação, mais uma vez a DC mostrando que manda bem nesse assunto, gostei da pegada adulta que a animação tem, sem se importar em dizer certas coisas como o exterminador chamando Bruce de “doador de esperma”, na hora isso me surpreendeu bastante :p. Mas o que me deixou decepcionado foi o fato da animação ter simplesmente ignorado o Tim Drake a Barbara e nem se quer citado ou feito alguma referencia ao Jason, nas HQ’s é muito divertido ver o relacionamento do Bruce com o Tim e do Dick com o Damian, mas no geral ficou legal.
    Como você disse o Damian é o protagonista e o Bruce fica mais como um coadjuvante, eu gostaria que fosse ao contrario o Damian introduzido no mundo do batman não o Batman introduzido ao mundo do Damian, talvez assim tivesse mais espaço para os demais personagens.

    • Bom saber que gostou, Phelipe.

      Sobre a ausência de menções ao Tim, Jason e Barbara, creio que seja porque a ideia desses longas de animação seja simplificar ao máximo as histórias originais ao adaptá-las, e seria complicado contextualizar os três quando a proposta era introduzir o Damian.

      Gostei de focarem nele, pois é um personagem desconhecido, enquanto o Batman todo mundo conheceu. Acho que conseguiram fazer o público leigo simpatizar com o garoto.

      Os produtores já disseram que querem fazer outro filme com participação dele. De repente podem pegar algum arco da série Batman e Robin, escrito pelo Morrison e adaptar, que pode ficar bem bacana em animação.

      Essas pegadas mais adultas, tanto no texto quando no conteúdo gráficos das últimas animações da DC tem me agradado bastante. Sinal de que estão cientes de que boa parte do público é de leitores das histórias originais.

  2. O Filho do Batman é até bom, mesmo com falhas sofríveis, como a Liga dos Assassinos ser pega de surpresa por tantos helicópteros, desde quando ninjas são surdos? Além disso teve o poço de Lazarus usado ao final pela Tália, aquilo foi bem dispensável, ainda mais com o Batman entrando junto, e qunado ela volta com aquele turbilhão de agua junto, minha nossa, foi de doer a alma.
    No mais, o roteiro adaptado pelo James Robinson conseguiu explicar bem a história do Damian nesse novo universo. Mas as falhas mesmo ficaram na direção, principalmente nos exageros das lutas, e esse traço adotado desde Flashpoint ta cada vez pior.

  3. Gostei da animação bem legal, e as cenas de lutas são perfeitas, com respeito a Jason,Tim e Barbara eles omitiram pois mesmo uma citação faria a historia ficar confusa algumas pessoas não iam entender, a finalidade era introduzir Damian e atrair fãs.

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