[CRITICA] – GODZILLA (1954)

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Faltando menos de uma semana para assistirmos aquele que eu acredito que deva ser o filme do ano – os reviews de quem já assistiu Godzilla o definem como um tipo de Jurassic Park da nossa era – decidi voltar no tempo e assistir o primeiro do filme do kaiju-mestre. Sim, aquele de 1954 e o que eu vi definitivamente não era nada do que eu poderia esperar.

Para entender o filme, entretanto, é necessário entender a situação do Japão em 1954. Hoje, em 2014, fazem pouco mais de dez anos que as torres gemeas foram destruídas em plena luz do dia no centro de NY. Desde este evento em setembro de 2001 os Estados Unidos nunca mais foram os mesmos e jamais voltarão a ser. A forma que o seu governo, que o seu povo, entende o mundo, entende a relação com os estrangeiros mudou de forma radical em virtude daquele acontecimento.

Agora imagine toda comoção, toda relevancia deste dia. Só que imagine que no lugar de dois prédois houvessem sido duas cidades inteiras e você vai começar a entender a proporção dos efeitos da guerra no Japão. Mesmo hoje, 70 anos passados, o Japão realmente nunca realmente se recuperou por completo dos efeitos terríveis da guerra.

Ou você nunca reparou que raramente vemos jogos ou animes japoneses sobre guerra? Esse é um assunto que eles não gostam de falar a respeito, mesmo hoje. Entretanto algumas coisas precisam ser colocadas para fora mesmo que seja inadequado e é aí que a arte entra: para falar sobre o que ninguém mais quer falar.

Sim, ao contrário do que possa parecer Godzilla – o filme original  de 1954 – não é o seu filme de Kaiju tipico. Na verdade é um filme-catastrofe sobre as consequencias da guerra e o dinossauro gigante que solta baforadas de radiação é claramente uma alegoria aos horrores da guerra. E isso é muito interessante.

Para você ter uma idéia, o filme original tem 1h30m mas o Godzilla aparece uns 10 minutos no total, se isso tudo.

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A primeira parte do filme é sobre as pessoas tentando entender o que é o monstro e isso é executado de uma forma muito elegante ainda mais considerando as limitações tecnicas e orçamentarias da época. Navios desaparecem um atrás do outro (com o uso de muitas maquetes), pegadas gigantes surgem nas ilhas periféricas japonesas, os peixes da região começam a escacear. Ninguém faz idéia do que pode estar acontecendo mas os locais ilha Edo acreditam que deve ser a furia de um espirito do oceano – para o qual antigamente se sacrificavam virgens para aplacar a sua ira – que é conhecido como Gojira (uma mistura das palavras macaco e baleia em japones) no folclore local.

Os militares estão perdidos, os cientistas batem cabeça e ninguém chega a uma explicação (porque dinossauro mutante radioativo não é o primeiro palpite de ninguém, mesmo de japoneses). Essa parte é bastante interessante e certamente veremos uma grande parte do filme baseado nisso semana que vem (como foi o filme de 97, sendo que essa parte do filme foi até legalzinha – quem não lembra da cena do isqueiro?).

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Mas é na segunda metade do filme que Godzilla mostra suas verdadeiras cores. Metaforicamente falando, porque o filme é em preto e branco. O cientista foda local chega a conclusão que o Godzilla é um tipo de dinossauro anfibio que de alguma forma sobreviveu em cavernas submarinas (não realmente a coisa mais improvavel, na verdade) e que foi mutado pela radiação dos experimentos com a bomba H no pacifico.

O cientista em questão está interessado em estudar a criatura porque… cara, quantas vezes você encontra um DINOSSAURO que sobreviveu a BOMBA H? Quer dizer, é literalmente uma coisa que não acontece todo dia.

Por outro lado os militares querem matar o bicho porque…. bem, é um lagarto de cinquenta metros de altura que sai por aí pisoteando tudo que encontra. Alias sobre isso a movimentação do godzilla é bastante única – talvez devido as limitações da roupa de borracha – e enquanto ele não é realmente um animal (como no filme infame de 97) ele também não é uma criatura plenamente conciente. É um meio-termo de inteligencia muito único do Godzilla.

E enquanto o monstro chega a Tóquio dos anos 50 (que é muito interessante ver isso) e toca o terror há um cientista relutante que desenvolveu uma arma de destruição em massa. Ele não quer usa-la como arma, no entanto, e procura um uso pacifico para seu invento. Se isso lembra bastante o projeto Manhattan é porque deveria mesmo, a referencia é clara.

Outro ponto muito marcante do filme é que godzilla não é um inimigo a ser combatido. Ele é uma força da natureza como um tornado, ou como a própria guerra. Por isso o filme não é um kaiju versus comum e sim muito mais um filme catastrofe. A cena do monstro colocando Toquio em chamas é realmente bonita (ficou muito bem em preto-e-branco mesmo para os padrões de hoje) e a destruição é claramente uma cena de guerra.

Lembra muito Tumulo dos Vagalumes em dados momentos. Não por acaso as cenas dos sobreviventes, das crianças orfãs por seus pais mortos, a mãe abraçando seus filhos prestes a serem esmagados pelo monstro e dizendo que tudo vai ficar bem que eles se logo se juntariam ao pai delas são cenas muito fortes porque é uma catarse de algo pesado e real que os japoneses precisavam falar a respeito.

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Como eu disse o Godzilla é só uma alegoria, a cena na verdade é sobre o grande bombardeio de Toquio de 1945.

Numa noite clara de março de 1945, mais de 300 bombardeiros B-29 norte-americanos lançaram um dos mais devastadores ataques aéreos da história. Pela manhã, mais de 100.000 japoneses estavam mortos, milhões desabrigados, e 40 quilômetros quadrados de Tóquio haviam virado cinzas.

Mais pessoas morreram no bombardeio incendiário de Tóquio do que nos bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki cinco meses depois.

Durante a noite de 9 para 10 de março de 1945, cerca de 1.700 toneladas de bombas incendiárias foram despejadas pelo densamente povoado centro de Tóquio, num esforço para interromper a produção de material bélico e destruir a moral japonesa. A tempestade de fogo ferveu as águas dos rios e canais de Tóquio derreteu vidros e criou gigantescas colunas de calor, que derrubaram quase uma dúzia de B-29s americanos.

A rajada de radiação iconica do godzilla neste primeiro filme é um gás incendiario, a referencia é bastante palpavel.

Então temos a guerra, temos o cientista dividido entre criar a arma definitiva para vencer um mal maior – porem sabendo que vai parar por aí e que as ramificações da sua arma são terríveis, temos as cenas horriveis de destruição, os horrores do poder nuclear. É tudo sobre a segunda guerra, afinal.

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Tudo isso torna a narrativa do filme muito poderosa, que não é um filme de ação – na verdade a narrativa é muito arrastada – nem um filme de monstros na verdade. Se alguma coisa, lembra muito “Dr. Fantástico” do Kubrik.

No fim Godzilla é destruído (qual é! Não vem reclamar de spoilers, você teve 60 anos para ver o filme!) mas fica a mensagem clara de que dificilmente ele seria o único de sua espécie, sobretudo se o homem não parasse a loucura nuclear.

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Godzilla, o original de 1954 é um grande filme. Com atuações limitadas e efeitos especiais mais ainda, mas com cenas belas e fortes. Definitivamente não era o que eu estava esperando, mas foi uma surpresa positiva.