[CONTOS MALDITOS] Especial CÂMARA CASCUDO: Pedro Malazarte

Salve, nerds!

Voltei para acabar com infâncias e destruir vidas (tá, exagerei).

Bem, na verdade as minhas mágoas de uma adulta que teve a infância deteriorada por literatura um pouco avançada, iniciou-se com um tal de Câmara Cascudo.


Se nunca ouviu falar desse gênio tão importante para o resgate de elementos básicos para a representação e exposição daquilo que temos de mais forte – nossa cultura – cá estou eu para te salvar!

Para quem não sabe, Luís da Câmara Cascudo foi pesquisador das manifestações culturais brasileiras, tendo deixado uma extensa obra, inclusive o Dicionário do Folclore Brasileiro (1952).

Cascudo quase chegou a ser demitido de sua posição como professor por estudar figuras folclóricas como o lobisomem. (Esse será devidamente sacaneado explorado em artigo futuro).

Se você que não tem muita noção do que seria o Câmara Cascudo para a cultura brasileira, eu posso fazer uma analogia: Da mesma forma que Tolkien resgatou a cultura Nórdica (e celta, trazendo de volta textos como Beowulf), Câmara Cascudo juntou os pedaços da enorme concha de retalhos das histórias sempre contadas, mas jamais escritas, de um dos povos mais criativos do mundo: O povo brasileiro.

Observe que eu não estou comparando as obras. Mas o trabalho de resgate foi similar e igualmente importante. Talvez apenas só não tenhamos o hábito de valorizar nossa cultura.

Dentre as muitas figuras nascidas da mente fértil do povo brasileiro e pintadas de mil cores, aqui e ali, ao gosto de cada vivência e cada entendimento, talvez o personagem mais fortemente tocado e alimentado por Cascudo tenha sido Pedro Malazarte.

Não existe um registro oficial de como surgiu essa figura, assim como acontece com qualquer figura folclórica: vem de lugar algum e se desfaz um dia, como Édipo Rei, que sublima(-se) na natureza.

O fato é que depois de sua gênese e antes de sua sublimação, o cabra, um tal de Pedro Malazarte, provavelmente de origem hispânica, por poder também ser chamado de “Pedro das más artes”, muito fez, muito aprontou, e muita história criou e “descriou” pra que o povo pudesse contar por aí.

Uma das histórias era mais ou menos assim, se eu me lembro direitinho:

Pedro Malazartes estava morto de fome e sem dinheiro algum. Precisava arranjar alguma ocupação que lhe desse o dinheiro suficiente para conseguir comprar comida.

Cansado de perambular em Porrete Armado, o nome do lugarejo em que se encontrava, decidiu parar e descansar na porta de um pequeno armazém de secos e molhados; desses encontrados no interior, e onde é possível comprar de tudo que se pode imaginar.

Pegou sua viola e começou a cantar uma moda, na esperança de que alguém lhe desse alguns trocados. Mas além de nada conseguir, os fregueses que bebiam no balcão quase o expulsaram por “incomodar” sua conversa. Eles conversavam sobre uma senhora, Dona Agromelsilda, moradora da região e que era conhecida por sua excessiva avareza.

A conversa caminhava assim:

– Gente, vocês não imaginam como é “unha de fome” aquela Dona Agromelsilda, que mora para os lados do estradão da Grota Funda! – disse o dono do armazém.

– Unha de fome é pouco! Aquela velha é capaz de não comer banana só pra não ter que jogar a casca fora. – completou o segundo, um dos fregueses que bebiam na venda.

Um terceiro freguês afirmou:

– Aquela velha é tão “pão dura” que nem comida para os coitados dos cachorros ela dá. Os bichinhos estão todos passando fome. Magros, magros de dar dó. Acho até que o estômago deles já encostou nas costelas.

– Está para nascer o homem que conseguira tirar alguma coisa daquela velha. Duvido que alguém consiga esta proeza.

– Nunca vi coisa assim nesses anos que moro aqui em Porrete Armado. E olha que eu já vi coisas com esses olhos que a terra há de comer. – terminou o dono do armazém.

Pedro decidiu que era hora de agir se quisesse comer e ganhar algum dinheiro. Era hora também de dar uma lição naquela velha, que o tratara mal da outra vez em que passara por Porrete Armado. Dona Agromelsilda era conhecida pelos seus péssimos modos com as pessoas, e acima de tudo por ser muquirana até o último fio de cabelo.

Pedro disse:

– Eu aposto o que vocês quiserem como, pra mim, a velha vai dar alguma coisa de bom grado. E mais ainda: Ela mesma é quem vem aqui contar que me encheu de presentes.

– Você esta ficando doido, Pedro Malazarte? Aquela velha, além de não dar nada para ninguém, também anda armada com uma baita de uma espingarda. Disse o dono do armazém.

– Não se preocupe com isso que é problema meu. E eu sei como resolver – disse o Pedro. – Mas, se vocês duvidam do que eu disse, por que não apostam comigo, como ela vai me encher de presentes e vem aqui contar para vocês?

O dono do armazém, rindo muito, respondeu:

– Se você conseguir esta proeza, com a velha lhe dando presentes e vindo aqui contar para nós, te dou todo o dinheiro que eu ganhar numa semana de trabalho.

Os outros dois fregueses, animados com a aposta, “jogaram lenha na fogueira” e, provocando Pedro Malazarte, disseram:

– Nós dois também apostamos nossos ganhos da semana. Temos certeza de que a velha nem vai querer conversa com você. Muito menos te dar algo. Mas se conseguir ganhar e fazer com que ela venha nos contar, você ganha o dinheiro que nós conseguirmos nesta semana.

Uma dúvida, porém, surgiu, e o dono do armazém, o mais malandro dos três, queria saber:

– Seu Pedro Malasartes, você ganhará nosso dinheiro de uma semana de serviço se conseguir que a velha lhe dê presentes e venha nos contar aqui no armazém, mas se você não conseguir, o que nós três ganharemos? Pelo que sabemos, você não tem nenhum dinheiro. Vai apostar o quê?

Pedro, muito convicto e com a certeza da vitória, respondeu:

– Eu trabalharei de graça para vocês três. Uma semana na fazenda de um, outra semana na fazenda de outro, e por fim uma semana em seu armazém. Combinado?

– Combinado. – responderam os três.

Pedro tratou de arranjar um panelão fundo, uma sacola, mais algumas coisinhas, e partiu para a casa da velha a toda velocidade. Para ganhar uma aposta, o malandro não poupava esforços e nem tinha preguiça.

Chegando perto da porteira da casa da velha, que morava numa enorme fazenda, Pedro fez um bom fogo, encheu o panelão com a água do riacho e, juntando muitas pedras do chão, jogou-as na água. Depois ficou de olho no movimento da casa de Dona Agromelsilda.

Quando a velha abriu a janela do quarto e viu Pedro fazendo aquele fogareiro, na frente de sua fazenda, pensou:

– Mas o que será que aquele biruto está fazendo na entrada das minhas “terra”? Vou lá ver.

Chegando ao local em que Pedro estava, perguntou muito irritada:

– Será que dá para o senhor explicar o que está pensando em fazer com todo este fogo na frente da porteira de minha fazenda?

Pedro, que estava de rabo de olho na velha, nem ligou para a malcriação e respondeu todo educado:

– Boa tarde, minha Vó? Tudo bom com a senhora? Estou preparando uma deliciosa sopa de pedras.

– Sopa de pedras? – respondeu a velha.

– Isso mesmo. Uma deliciosa sopa de pedras. Receita de minha finada mãe.

– E fica boa?

– Boa? Fica muito boa!

A Velha, sovina como era, pensou em tirar proveito. Pois se a sopa ficasse boa mesmo, e com a quantidade de pedras que tinha em suas terras, certamente não teria mais despesas com comida, pois comeria diversos pratos de pedra, que ela criaria: Pedra assada, pedra frita, pedra cozida, pedra ralada, pedra refogada, pedra ensopada, escondidinho de pedra, pedra, pedra, pedra…

Fingindo-se muito educada, a velha pediu:

– Meu filho, quando terminar, você dá um pouco para eu experimentar?

– Claro, minha Vó.

Assim, Pedro tratou de jogar mais lenha na fogueira, e deixou as pedras cozinharem.

Passada uma hora:

– Ô meu filho: Essa sopa sai ou não sai?

– Claro que sai, minha Vó. Daqui a pouco está prontinha. É que leva um tempo para cozinhar direitinho as pedras. Mas se a senhora tivesse uns legumes para colocar na sopa ela ficava melhor ainda. Umas cenouras, umas batatas, umas mandioquinhas, umas abobrinhas, umas beterrabas…

A velha, faminta como estava, nem pensou duas vezes e disse:

– Eu tenho estes legumes todos na horta de casa. Espere um pouco, que eu já volto. – E tratou de entrar em casa para colher os legumes pedidos pelo Pedro.

Pedro pensou: “Ela caiu direitinho. “

Minutos depois, lá estava a velha:

– Pronto, meu filho. Este tanto dá?

– Dá, minha Vó.

Pedro recolheu os legumes que a velha trouxe. Colocou metade de tudo em sua sacola, e a outra metade na sopa.

Passada mais uma hora, a velha, com mais fome, perguntou:

– Mas, meu filho, esta sopa sai ou não sai?

– Tá saindo, minha Vó. Tá saindo. Mas a sopa ficaria tão boa se tivesse uma linguiça defumada, um paio e uma carninha seca para colocar.

A velha ansiosa disse:

– Eu tenho tudo isso em casa. Vou lá buscar. E tratou de buscar tudo que foi pedido.

Quando voltou entregou ao Pedro que, novamente, separou dois montes, colocando metade na sopa e outra metade em sua sacola.

Mais uma hora e a velha já estava verde de fome, quase desmaiando. Isso sem falar na fazenda, que estava na maior bagunça, com as vacas sem ordenha, os bezerros sem leite, as galinhas sem os ovos recolhidos.

A velha então perguntou:

– Menino! Esta sopa não fica pronta nunca?

– Tá quase, minha Vó. Se a senhora tivesse uns temperos ficaria melhor ainda. Um pouco de sal, pimenta do reino, alho, azeite, açafrão, coloral, cheiro verde, cebolinha…

Lá foi a velha buscar os temperos pedidos.

Quando voltou, tudo se repetiu: Metade foi para a sopa e metade foi para a sacola do Pedro.

Depois de mais uma hora, com a velha quase desmaiando:

– Meu filho, se esta sopa não sair agora eu desmaio de fome!

– Tá prontinha, minha vó. A senhora tem uns pratos para poder servir?

A velha saiu como um raio para dentro da casa e mais rápido ainda voltou com os pratos e colheres.

Pedro pegou o prato da velha e encheu de pedras. Quanto ao seu prato, colocou as partes boas da sopa e poucas pedras. Sentou num canto e quando foi comer uma colherada de pedras de seu prato, jogou todas elas fora.

A velha, que estava tentando mastigar as pedras, quase quebrando os dentes, não acreditou no que viu o Pedro fazer. Então perguntou:

– Meu filho, você não vai comer as pedras não?

E Pedro, que já havia planejado isto também, respondeu com a maior cara de pau:

– Comer pedra, minha Vó? Tá doida é? Se eu comer estas pedras todas vou acabar quebrando os dentes.

Ao dizer isto pegou sua sacola, com as coisas dadas pela velha, e saiu fugindo sem olhar para trás, pois ouvia os berros indignados dela correndo atrás do malandro.

Quando chegou ao armazém, os três amigos da aposta não acreditaram na história de Pedro. Só tiveram a confirmação de tudo que o Pedro dissera quando a velha chegou ao armazém, contando que dera para Pedro uma porção de coisas para fazer uma sopa de pedras, mas que era, na verdade, uma sopa de legumes com os ingredientes que ela colheu de sua horta e pertences de sua casa.

Assim que a velha saiu, Pedro cobrou a aposta e tratou de se mandar.

Dizem que está andando pelo mundo até hoje, aprontando e dando golpes nos que tentam enganá-lo.


Fonte pesquisada:


Da redatora

Raquel Pinheiro (Raposinha) é míope profissional, CANCERIANA, redatora, revisora, tradutora, escritora, professora de língua inglesa, viciada em café e artista plástica. Além disso é troll nas horas vagas e é viciada em cheirar livros. 

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