[CONTOS MALDITOS] Comadre Fulozinha

Tempos atrás, nossa amiga Raquel Pinheiro deu início a uma série de contos destruidores de infância, mesmo já na fase adulta, já conhecidos por nós e até disseminados, mas de uma forma menos aprofundada sobre suas origens. Numa das muitas conversas extremamente ‘saudáveis’ psicologicamente que a equipe NGF tem, falávamos de infância e surgiram histórias daqui do meu Nordeste, sobre o folclore Nordestino pouco conhecido.

Foi quando percebemos que nós também temos nossos próprios “Contos Malditos”.

Rodrigo Ferreira, nosso editor-chefe, sugeriu apresentar aos nossos nerds o que nos pertence, mostrando que o que é da terra é tão ou mais assustador ou curioso do que as “fadas fodas” (parafraseando Raquel) da Europa e arrebaldes.

Nota da editora: Mas todas as fadas são fodas. 

E para começar arrepiando forte os cabelos de suas regiões pubianas…

Quero vos apresentar Comadre Fulozinha;

Essa “lenda”, confesso, me causa desconforto até hoje, dadas as histórias que meus familiares contavam quando eu era criança. Eu poderia separar o que é real da crendice popular, mas não sei ao certo se, por também acreditar no que me foi contado, ou por estarem tão embaralhadas, talvez o real e o imaginário tenham se tornado quase a mesma coisa.

Comadre  Fulozinha era o espírito de uma menina que era muito maltratada por seu padrasto. Um dia ela fugiu pra mata e não voltou mais.

Ela tinha cabelos muito compridos, que iam até os pés. A menina adorava fumo, papa (de milho), doces, mel e era muito arteira. Quando queria aprontar, ela fazia trança no cabelo dos cavalos, sumia com crianças, perdia as pessoas na mata enlouquecia os cachorros com seu assovio, e aplicava aquela ‘peia’ (pisa, cacete, pau, surra, esculacho) bem dada em quem faz mal à mata e seus animais.

N.E: Trança nas crinas dos cavalos devia ser algum tipo de aviso sobre ela querer uma Barbie de presente.
N.E: Sério, entendo que uma criança goste de doces, etc. Mas se ela gostava de fumo, ela teve razões EXCELENTES para fugir do padrasto dela. Isso sem citar as razões possíveis e imagináveis. Ele pode ter tentado mostrar o Mito da Caverna para ela (if you know what I mean).

Claro, quem a xinga ou tenta aprontar com ela também era castigado.

N.E: quem assistiu ao Sítio do Pica Pau Amarelo conhece bem o Saci. Agora pense no Saci que foi devolvido do inferno pelo capeta. É a Cumadi Fulozinha ( remos para que ela não esteja lendo esse conto)

Não se sabe exatamente quando ou como Cumadi Fulozinha surgiu na cultura popular nordestina.

N.E: Provavelmente quando algum moleque filho da puta entrou no quintal de uma senhorinha indefesa, limpou a bunda nas toalhas brancas  estendidas no varal dela e fugiu sem deixar sinal. E não pensem que isso é difícil de acontecer. 

Ela é conhecida principalmente na Zona da Mata de Pernambuco e Paraíba, sendo também chamada de Mãe da Mata por nossos colegas de Estado. Alguns a confundem com a Caipora, embora ambas sejam protetoras da mata, são seres distintos. Aqui por Pernambuco são muitos os ‘causos’ de pessoas que conversam com a danada, deixam agrados e POR NADA NO MUNDO assoviam dentro de casa (mainha não deixa), com receio de que ela apareça e apronte das suas. NÃO PENSA NO DIABO QUE O DIABO APARECE!!!

N.E: Cabe ressaltar aqui que, finalmente, eu descobri as razões para minhas dores na coluna: deve haver um espírito de uma criança demoníaca dependurada no meu pescoço, rindo e me xingando de FDP para baixo, porque eu assobio dentro de casa o TEMPO INTEIRO. É quase um TOC. Já posso mandar meu ortopedista pro cacete e chamar um Padre?

Comadre Fulozinha tem tanta representatividade nas regiões onde é conhecida que ganhou até uma banda, músicas e filmes com seu nome e sua história, este último sendo uma tetralogia: Cumade FulozinhaCumade Fulozinha 2: A Noite dos AssobiosCumade Fulozinha 3 e Cumade Fulozinha 4: A Lenda Ressurge. A série é produzida por Menelau Junior.  Os filmes são encontrados tanto em DVD quanto no Youtube no canal do próprio diretor do filme.

Não posso pedir que acreditem, e talvez ela nem pareça assustadora aos amigos gaúchos, por exemplo, mas quando eu ia para o sítio passar férias e ouvia um assovio fino na mata, via o rabo trançado dos cavalos (que luxo!), e tinha notícias de meus tios se perdendo na mata que conheciam como a palma da mão…
Diferente dos contos dos irmãos Grimm, que também foram adaptados, isso aqui é nosso. Dificilmente, ao perguntar a algum nordestino sobre a cabocla arteira, ele não saberá lhe responder ou não lhe chamará de canto para contar sobre ela e tantas outras histórias. Faça de conta que estou debaixo das cobertas com você agora…

(Sem putaria, mente devassa. -__-)

N.E: No exceptions, babe…

…. contando baixinho no escuro uma das histórias de vovó.

Até o próximo Contos Malditos do Folclore Brasileiro.

Texto escrito por Midian Araújo e levemente sacaneado por Raquel Pinheiro.

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