[CONTO] Uma Quimera, Mãos de Cera e Livros em Branco.

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A luz difusa amarela , quase laranja, se espargia timidamente pelo recinto escuro. Nas paredes, viam-se uma infinidade de livros – tantos que seria impossível determinar de que cor era a parede. Os livros ocupavam cada canto daquele cômodo.

No centro do recinto – talvez possamos chamar o misterioso lugar de sala, pelas acomodações simplistas que só podem caracterizar mesmo os lugares de uma casa que não tem utilidade alguma que não reunir pessoas – os numerosos livros estavam dispostos em prateleiras infinitas demais até mesmo para o lugar que os limitava. Tomos de capas duras, de todos os tamanhos… Belíssimos volumes, capazes de encherem os olhos do mais ambicioso escritor. Talvez do mais ansioso artista.

Mas, como que sob um apelo dos artistas – não dos escritores, pois estes amam as coisas escritas, prontas a serem decodificadas – , posto que esses desejam preencher com grafite, carvão, tinta e nanquim tudo o que há de um papel em branco, cada um dos belos livros tinha suas folhas cor de creme completamente vazias. Não um, dois, ou meia dúzia. Todos, absolutamente todos, jaziam nas prateleiras, virgens, a espera de um autor qualquer, sem uma sequer página maculada.

No centro da sala, rodeada em seus quatro ângulos retos por uma infinidade dos livros sem título, início ou fim, duas figuras permaneciam inertes.

79a644abd144_editadoA da esquerda de quem olha da janela embaçada do quarto era uma mulher jovem. Dona de um corpo de 20 anos e uma mentalidade que ultrapassaria qualquer explicação dada por essa pobre narradora, a moça tinha os cabelos ruivos muito lisos, chegando à altura do quadril, a tez pálida e um olhar profundo emoldurado por uma pintura semelhante àquela que faziam as mulheres egípcias. Sua placidez parecia inabalável, e o único movimento que se via no corpo imóvel da jovem era o tremular da luz que mexia com suas sombras.

À sua frente, também imóvel, permanecia uma figura que já meus olhos não podem definir, pela indefinição de seus traços. Como um vulto, o homem tinha aspecto sombrio – tenho por certo que era um homem, embora não saiba explicar exatamente porque. Suas vestimentas, tão indecifráveis quanto a exatidão de suas feições, tinham uma coloração plúmbea. Sobre a cabeça parecia descer um véu de tom escuro que cobria-lhe as costas completamente.

Nada no homem era claro, a não ser o intrigante fato de suas mãos, vistas por mim com exatidão estranha, como num close cinematográfico, pingarem cera. Em verdade, as mãos pareciam de fato forjadas em cera; uma cera que, por qualquer razão, derretia-se, deixando que cada gota translúcida do líquido – que logo se tornaria sólido – cair no chão. Mas embora se esvaísse a constituição de suas mãos, o homem em nada parecia perturbar-se. Apenas prosseguia olhando a mulher a sua frente. Pela direção de seu rosto parecia fitar-lhe os olhos.

the_shadow_of_a_wolf_by_wyldraven-d1td8neVez por outra, a figura misteriosa que aqui identificamos como homem movia as mãos levemente, como se quisesse mostrá-las, fazê-las visíveis à moça de olhos egípcios, cabelos vermelhos e tez pálida, evidenciando ainda mais o derretimento e derramamento da cera que, embora constituísse as mãos da figura misteriosa, pareciam derreter de forma natural, quase prazerosa, como um grito que sai, uma palavra que precisa ser dita.

Tudo era calma. De movimentos, nem a respiração dos dois indivíduos poderiam-se notar. Apenas a luz tremulava, talvez vinda de uma lâmpada em seus últimos momentos de atividade, talvez vinda de uma vela perturbada pelo vento… Impossível saber. Só sei que a luz amarela triste tremulava intermitentemente.

Todas as coisas estariam mergulhadas naquela paz sepulcral não fosse, lá fora, o movimento de estranho animal: a rondar o recinto de dimensões indistintas, um lobo de formas peculiares corria de um lado ao outro, completamente desesperado. Sua pelagem distribuía-se por metade de seu corpo como um manto negro, e na outra metade cobria sua pele com uma longa pelagem cinza. Não sei precisar de que cor eram os olhos do pobre selvagem animal, posto que em seu estado alarmado, tudo o que se via era o desespero por estar fora daquele misterioso recinto. Por alguma razão, o lugar do canídeo não era do lado de fora, mas dentro do quarto cheio de livros e incógnitas.

Quimera foi o nome que me veio à mente para nomear o nobre animal, posto que não se fazia este espécime pela simples mistura genética, mas por características que faziam dele algo próximo do mito grego: aquele lobo parecia ser a fusão de dois animais diferentes. Ambos com natureza de lobo, aparência de lobo, mas diferentes em qualquer coisa.

E este, o lobo ou quimera (e o nome ficará ao gosto do que o leitor decidir usar), rondava inquieto a casa que, embora não tivesse janelas por dentro – uma vez que toda a área da parede era coberta por volumes e mais volumes de livros não escritos – observava pela janela tudo o que não acontecia dentro do cômodo sombrio, como se pudesse ver através do invisível, sem poder atravessá-lo.

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O lobo corria de um lado ao outro, uivava, raspava as patas robustas nas lascas translúcidas de madeira etérea, debatia-se contra a parede translúcida, pela qual seus olhos de caçador faziam-se olhos de guardião e espreitavam a menina de belas feições e serenidade inabalável.

Nada pôde o lobo contra a barreira mágica que deixava vê-lo por entre camadas que a todos pareciam intransponíveis. Em nada mudava a figura dos dois jovens postados frente a frente, contemplando um ao outro como se tudo já tivesse sido dito.

Nem mesmo as patas ensanguentadas do canídeo, feridas pelo desespero da tentativa de adentrar a saleta e explodir num rompante de coragem, para que aquela situação fosse interrompida, nem os barulhos de seus uivos, nem o baque contínuo de seu corpo contra a madeira de características inexplicavelmente invisíveis – mas dura como a realidade – puderam fazer o lobo – pobre deste lobo, que só quis guardar o papel de guardião, algo que nem sabia se era certo ou errado – atingir seu abjetivo.

Lá dentro, os olhos castanhos da moça, naturalmente semicerrados, pintados à moda do mediterrâneo e donos de segredos que nenhuma humanidade poderia ser capaz de rasgar, permaneciam imóveis. A pele branca parecia ainda mais pálida sob a luz parca. A boca felina, fechada…

E o homem de mãos de cera… Este permanecia a derreter… Mas não havia dor.

Talvez ambos contemplassem o que precisavam. Não haveria dor que roubasse o momento de contemplação.

Gotas de cera marcaram o chão. Não doía.

Ou doía… Mas que importância tinha?