[CONTO] Os Olhos Que Te Seguem

wolf head by julie bell

“Ainda que eu tenha o dom da profecia, e saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha fé capaz de mover montanhas, sem amor eu nada serei.”

Ele olha para o céu e não vê coisa alguma que não sejam nuvens avermelhadas, como as que invadem o firmamento depois dos dias muito secos. Ele olha para o chão e vê o solo de terra escura… E patas… Patas? Sim, vê patas como as de um canino. Curiosamente, cada pata parece pertencer a um animal diferente: uma delas é negra como a noite que se impõe aos mortais. A outra é cinza, da cor das tempestades que perturbam os corações mais frágeis. As patas, brutas demais, grandes demais, não poderiam pertencer a um cão, mas a algum parente selvagem do melhor amigo do homem. Uma raposa, talvez? Não. Não há numa raposa os sentimentos que pulsam na alma deste ser. Parece mesmo um lobo, e dada sua natureza estranhamente híbrida, insisto em chamá-lo Quimera. À frente do selvagem canino – de aparência dividida entre o breu e a tempestade – está uma casa de madeira, afundada no solo escuro até quase o nível do teto. Com as patas, a Quimera raspa a madeira, busca romper barreiras, mas tudo o que tem por resultado é um ferimento progressivo vindo do esforço inútil. De que vale tanto apelo se não há quem veja o crescente nervosismo do protetor? Dentro da casa, que melhor seria definida como um cômodo, posto o tamanho diminuto do recinto, livros infinitos cobrem cada canto da parede. Mas… São virgens… Cada página de cada um dos muitos volumes esperando por ser rabiscada, escrita, maculada da forma mais catártica possível.

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“Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, sem amor, seria como o sino que ressoa ou como o prato que retine.”

A luz, que se espalhava quase como se temesse interromper qualquer coisa muito importante, iluminava o pequeno ambiente com uma coloração amarela alaranjada. A luz não vinha do teto, mas de cima de uma mesa, ou algo que o valesse. Ao centro do soturno quarto, duas figuras perturbavam a Quimera como mais nada poderia perturbar: à esquerda da visão etérea do canídeo, um vulto está de pé. Suas formas são borradas, indefinidas, mas as mãos continuam a verter cera. À direita de onde os olhos da Quimera podiam alcançar, uma moça de aparência peculiar também está imóvel. Seus olhos, como sempre, estão pintados como se a menina pertencesse à civilização egípcia, e seus longos cabelos têm a cor de fogo. A mocinha sangra por cada poro, por cada fio de cabelo, pelos olhos, lábios, ouvidos, nariz. Se das mãos do vulto vê-se o verter contínuo da cera translúcida, da moça vislumbra-se um derramar interminável de sangue rubro e forte, como o de uma ferida que jamais se fechou. A Quimera escava a parede, inquieta, chorosa, enfurecida pela frustração da impotência. Também suas patas sangram, quase despedaçadas, como se em vez de raspar uma superfície de madeira transparente e crua, o pobre canino projetasse suas patas de encontro a um sem-fim de cacos de vidro afiadíssimos. Doíam-lhe as chagas da luta vã, doía-lhe o coração, doíam-lhe os olhos de coloração verde. Mas não havia dor que a fizesse parar.

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“O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”

Lá dentro, a jovem envolta em sangue – exibindo uma serenidade assustadoramente fria – e o vulto de mãos de cera, têm os olhares fixos um no outro, presos, atados por uma força que nem mesmo todos os infinitos livros daquele recinto, se fossem preenchidos da mais exata ciência, poderiam explicar. O sangue banhava o chão, a cera pingava… O lobo lutava… A menina perdia-se em seu próprio sangue. O vulto em seu quase não-ser. Mas nada tirava um olhar do outro. Como espelhos…

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“Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido.”

Exausta e debilitada por tentar ingenuamente transpôr a barreira intransponível das coisas que não se podem resolver – ou se podem resolver, mas de forma especial, específica, e não pelo cansaço – as patas repletas de um sangue grosso, a visão distorcida boiando em uma neblina molhada de angústia – colada sempre à menina de seus olhos – sentou-se a Quimera, orando baixinho no idioma que só as Quimeras poderiam entender, para que algo fizesse cessar o sangramento infinito da mocinha por quem se desesperara até então. Nada podia fazer. Não se pode limpar a mazela de quem faz de si mesmo o flagelado, nem pelo uso do melhor bálsamo. Quimera entendeu, por fim.

“Quando eu era criança, pensava como criança, agia como criança, mas quando me tornei adulto, deixei para trás as coisas de criança.”

Lá permaneciam os dois, como se o tempo não mais corresse, ou sequer tivesse existido para as duas almas.

“O amor nunca perece.”

– É teu fardo. Não há em mim sangue derramado, repleto do mais profundo zelo, que seja capaz de salvar uma lágrima tua. – E só a Quimera podia entender suas reflexões, embora tivesse pra si que o vento podia ouvi-la… Também o Altíssimo poderia. – Meus olhos te seguem. Minha presas de nada servem. Mais úteis são minhas orações e meu bem querer. Não te posso salvar de ti.

lobo e menina

“O amor se alegra com a verdade.”

E levantando-se, a mancar, foi embora. Levou no peito a opressão de ver o sangue escorrer, quando queria juntá-lo todo, cobrir cada dor, secar cada lágrima, aliviar cada suspiro. Mas tinha no coração a verdade absoluta de que ali, em nada poderia agir.

“Pois em parte conhecemos, em parte profetizamos. “