[CRÔNICA] O que o tempo não destrói

Essa conversa se deu numa folha rabiscada, durante uma aula de filosofia da Universidade Federal Fluminense. Era uma quarta-feira, dia 20 de agosto do ano de 2014, e eu sentia, como sempre, que aquele dia não me pertencia de forma alguma.

Eu estava muito quieta naquela tarde de quarta-feira.

Ou melhor. Vazia.

Quieta, acompanhando a aula que sequer fazia parte de minha grade, tive meu caderno delicadamente tirado de minhas mãos por Savannah, que sentada perto de mim, parecia perdida nos próprios pensamentos. Os olhos grandes, cor de avelã, flutuavam, mirando coisa alguma.

Sem nada dizer, aquela a quem na época eu chamava de irmã, começou a rabiscar silenciosamente uma pergunta e sem nada dizer devolveu o caderno, ainda em silêncio.

Escrita na letra dela, que sempre me pareceu muito mais o princípio de um trabalho artístico, estava a pergunta:

“O que o tempo não destrói?”

Não compreendi, à primeira vista, se aquele questionamento tinha alguma razão particular. Simplesmente respondi:

“Nem a si mesmo o tempo poupa. À medida que passa, o presente é destruído, colocado na categoria de passado e relegado às memórias (marcas mentais) ou objetos (marcas físicas). Se o tempo devora a si mesmo, o que ele poderia ‘não devorar’?”

Ao terminar de responder, entreguei meu caderno à ruiva, esperando que ela respondesse, ou talvez ignorasse minha resposta. Infelizmente Savannah nunca foi exatamente o tipo de amiga ligada às coisas. Sua mente parecia estar constantemente em outro plano, outra dimensão. Mas ela pegou o caderno, leu-o com atenção, e respondeu sucintamente:

“Agora penso que a percepção do que é o Tempo ao qual estamos a nos referir pode ser diferente.

A ideia, o Tempo destrói?”

ClickHanjjjjjjdler.ashxAo receber esta segunda indagação, já não mais sabia qual era o tema da aula. Estava atenta demais aos questionamentos de Savannah para me ater a um professor por demais prolixo.

Encaixando um pensamento no outro, rabisquei apressadamente na folha pautada uma resposta que parecia já formada em mim:

“Sim. A ideia pertencente a um sujeito (se estamos analisando um microcosmo) será, sem dúvida, destruída por novos conceitos, novos saberes, novos sentimentos; E o que traz as coisas novas é justamente o tempo. Se o tempo parar, a evolução para, o conhecimento cessa e só ficam as ideias (passadas).

Se nos referimos a uma ideia universal, há o caráter de permanência do conceito “ideia” resistindo ao tempo. Mas até quando? (Por quanto Tempo?)

Toda expressão precisa de uma base. Por exemplo, a escrita precisa do papel como base, a ideia precisa de um templo onde habitar: a mente humana, a sociedade, os registros físicos; Todos passíveis de destruição pelo tempo. Então, o que fica?

O tempo leva todas as coisas.”

Devolvi a ela a folha, certa de que meu argumento fazia todo sentido, mas pouco animada em estar certa. Primeiro porque pouco me importava estar certa em relação à Savannah. Nunca competi com ela para ter razão ou ser dona da verdade. Nem ela comigo.

Segundo porque minha própria visão acerca do Tempo era por demais pessimista, e pensar nisso como algo tão desesperançoso, um caminho inevitável para os fins de todas as coisas importantes ou tolas, era um tanto angustiante. Para mim, o tempo respeitava perfeitamente à imagem do Deus grego Chronos, devorando seus filhos, de forma impiedosa.

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A caçula, ainda não satisfeita com o pequeno debate que havíamos empreendido, sacou mais uma vez sua lapiseira cor-de-vinho – que normalmente utilizava para desenhar  – e continuou:

“Daí a possível relatividade da resposta…

Se tivermos como congruência de todos os caminhos o fim dos registros, o fim do homem pensante (e sequer as ruínas sobreviveriam…), nada pouparia o Tempo (o que devora, do qual falamos…).

Mas se não colocarmos esse fim…

Penso que a ideia, ainda que transformada, restaria de forma profunda. A ideia da fome, a ideia do dia, a ideia da árvore… Parece carregar em si algo que não pertence aos domínios do tempo. Como se passasse longe de sua vista, de suas garras, de sua fome…

Penso que me acalenta a alma pensar que algo ignora esse que come os filhos.”

Estava prestes a responder, quando me detive. Na verdade, cheguei a rascunhar alguns pensamentos sem realmente saber muito bem porque prosseguir com as “missivas” ou qual argumento usar. De repente eu era o pólo pessimista, pronto a mostrar sempre o lado fatalista das coisas. O mesmo lado que fez Gaspar Noé marcar em seu filme “Irreversível” a frase “Le temps detruit toute“.

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Antes, porém, que eu pudesse apresentar qualquer objeção, contudo, uma frase proferida pelo suado e desajeitado professor de filosofia me fez interromper a resposta que tentava rascunhar, para não deixar morrer a discussão. Àquela altura, manter qualquer conversa com Savannah era uma verdadeira batalha contra sua mente, sempre muito distante. Eu não gostava de perder nenhum momento.

– “Nós nos amamos como se fôssemos imortais” – disse o professor, num tom de voz mais alto, mais apaixonado do que aquele que normalmente usava para lecionar.

Intrigada com a frase, passei a prestar atenção à preleção. O professor, suado e agitado, falava dos amores que iam além das capacidades e forças físicas e materiais, destacando-se do tempo por sua grandeza.

Exemplificou sua “tese” ou teoria – e já não saberia denominar aquilo de forma alguma, falando dos monges Tibetanos que, tão apegados a sua causa de libertar sua nação, queimam-se vivos. Falou dos espartanos que, tendo relações homossexuais (e amorosas, por óbvio) entre si, eram capazes de dar a vida pelo amigo. Baseando-se no filósofo contemporâneo Alain Badiou, ele falava dessa força indescritível que destaca do tempo os acontecimentos e os atira à eternidade.

afogo

“Nós nos amamos como se fôssemos imortais” foi a frase emblemática deste dia cinzento de agosto de 2014.

Desde então, penso na lealdade como ponto forte desta imortalidade que somos capazes de criar e cultivar. Todo verdadeiro amor pressupõe lealdade, seja qual tipo de amor for. E, sendo leal, não haverá dúvidas em morrer por aquilo que se ama ou por aquilo em que se crê.

Seríamos capazes, então, de alcançar a imortalidade, mesmo que nossos ideais fossem vazios – no sentido de jamais chegar a um ponto de conclusão ou vitória – ? Seríamos capazes de nos destacar do tempo e sermos imortais, mesmo a partir do amor a uma causa perdida, uma pessoa indiferente, uma ideologia sem fundamentos?

Sim…

Seríamos. Entrar nas profundezas deste pensamento filosófico não me cabe, porque durante a própria aula acabei deixando que o pranto tomasse conta de mim. Perdi o controle e a linha de pensamento.

Mas digo que sim por uma questão básica: quem realmente ama é capaz dos sacrifícios mais inacreditáveis. Como citado acima, temos o exemplo do monge Tibetano, que queima o próprio corpo em busca da liberdade de seu povo. E como esquecer o rapaz que encarou sozinho um tanque de guerra na Praça da Liberdade (e logo depois desapareceu por sua coragem). Como não pensar em tantas mães, pais, irmãos, cônjuges ou namorados que, em nome do amor absoluto àquela pessoa, não deram sua vida por ela?

Homem versus tanques

A morte caminha de mãos dadas com a imortalidade tratada aqui, caro leitor. Mas não atinge realmente aquele que se deixou sacrificar por um motivo justo. Quem é leal até o fim, torna-se imortal… imune ao tempo.

É isso o que o tempo não destrói.

Nunca.

Ao menos enquanto houver lealdade.

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