[CONTO] Minha história de quase suicídio (ou algo assim)

Eu estava voltando pra casa, devia ser umas 2h. Não que eu costumasse chegar tão tarde em casa, mas aquele dia demorei um pouco no trabalho e acabei perdendo o último ônibus.

Minha casa não ficava muito distante – uma hora de caminhada mais ou menos – e pegar um táxi estava fora do orçamento.

A noite não estava mal. O céu limpo indicava que tão logo não  teríamos chuva. Eu já estava chegando na ponte, que era a parte mais perigosa até então. Tinha uma moça sentada na beirada da ponte, olhando pra baixo. Sabia o que aquilo queria dizer. Ela não percebeu quando me aproximei até me ouvir falar. Pelo susto que tomou parecia que eu ia jogá-la lá de cima.

_Sabe, é uma queda muito feia daqui até lá embaixo. Tem aquelas pedras pontudas ali no fundo, e a pressão do ar provavelmente esmagaria seus órgãos internos antes de você tocar o chão. Por que não vai respirar ar puro em outro lugar?

_Vai embora, seu retardado. As coisas aqui não vão ficar bonitas, como você mesmo observou.

Eu pensei mesmo em ir embora. Já tinha visto aquilo outras vezes. Se ela estivesse mesmo disposta a morrer, frustrar seus planos naquele momento só atrasaria as coisas. Eu devia ter ido embora. Mas sentei do lado dela. Um carro passou por nós sem nos dar importância.

_O que você está fazendo, seu idiota!? Vai acabar caindo.

Ela se afastou de mim na mureta. Juro que parecia estar com mais medo de ser estuprada do que de cair da ponte. Olhei para ela, depois para baixo, trinta metros do chão.

_Não nos conhecemos – falei, ainda olhando o chão – E não vou te impedir de pular, se é o que você quer. Não adiantaria mesmo, você encontraria outro jeito.

De canto de olho, percebi que ela me olhava atônita. Pelo visto não estava acostumada a ser tratada assim. Continuei a falar, só que agora olhando pra ela.

_Já que você vai ficar calada para sempre, acho que posso te contar meu segredo. Faz um tempo que eu queria dizer isso a alguém sem medo de causar mágoa. Uns meses atrás eu estava na merda. Não muito diferente de agora, mas num estado psicológico que potencializava os sentimentos ruins. O sono demorava a vir ou não vinha, e levantar da cama era a maior das missões. Diante de quem me conhecia tudo estava bem. Eu era um ótimo ator. Ainda sou, porque, como disse, ainda estou na merda.

Ela parecia não prestar atenção, mas eu sabia que estava ouvindo, então continuei a falar.

_O fato é que as coisas não estavam bem para mim de muitas formas. Não se preocupe, não vou te torturar com os detalhes. Você deve estar ansiosa para terminar logo com isso. Cheguei mesmo a pensar que todos ficariam melhor sem mim. Tinha uma arma em casa, herança mórbida do meu falecido pai policial. Estava tudo planejado. Eu não queria que minha mãe me encontrasse, então acertei tudo para o horário em que ele vinha almoçar. Sentei na minha cama e deixei a porta do quarto aberta, pus a arma no colo e esperei uns instantes. Já havia pensado em tudo, o bilhete do lado dizia que não procurassem razão, que a vida estava difícil e que estava cansado. Não queria dar trabalho à polícia. E contar os porquês não parecia fazer sentido. Não estava nervoso. Ansiedade era mais o sentimento. Acabar logo com aquilo. Pus o cano da arma na cabeça. Era frio e reconfortante. Aí meu telefone tocou. Soube que era minha mãe pelo toque personalizado. Coloquei a arma na cama, sobre o bilhete, e atendi. Ela estava desesperada. Demorei uns segundos para entender o que ela dizia.

_O que ela  disse? – ela falou. Estava prestando atenção agora. Era uma moça bonita, nova, se muito tinha uns 20 anos.

_Bom, meu irmão havia sofrido um acidente no percurso até em casa. Disseram que foi horrível. Ele morreu no local. Éramos só eu e ela agora. Guardei a arma e o bilhete na gaveta e fui encontrá-la.

No dia do enterro foi muito triste. Minha mãe ora abraçava o caixão, ora me abraçava, sempre dizendo que só tínhamos um ao outro agora, e que não sabia o que faria se me perdesse também. Cheguei junto do caixão e o xinguei baixinho por ter passado na minha frente. Prometi que cuidaria da nossa mãe.

Às vezes ainda penso em por fim a tudo, mas naquele dia percebi que era muito egoísmo querer acabar com a minha dor causando dor em alguém. No fim das contas não é mesmo uma vida ruim, só alguns dias. Às vezes uma sucessão deles, mas passam.

Ela chorava baixinho. Levantei da mureta, agradeci por ter me ouvido, e desejei boa noite. Quando estava me afastando para ir embora, ela finalmente falou:

_Ei! E se eu não quiser ficar calada para sempre? E se eu quiser contar a minha história também, e ouvir os detalhes que você não me contou da sua?

_Bem, eu trabalho numa lanchonete no centro. Meu intervalo é das 18h às 19h. Não sei quanto a você, mas minha história com detalhes é longa. Você teria de ir algumas vezes lá.

Ela sorriu, olhou para o fundo da ponte, e depois para mim.

_Acho que posso deixar isso aqui pra depois. – levantou da ponte e saiu andando. De longe acenou para mim – Até amanhã.

Retribuí o aceno e fui pra casa. No outro dia eu já a chamava de Márcia e ela me chamava de Pedro.

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