[CONTO] Midas e Medusa

Estavam presos no que parecia ser um quadrado ou algo mais comprido. Qual era mesmo o nome? Antes de pararem ali cada um esteve num quadrado diferente, com pessoas diferentes. E agora, por razões que continuavam sem saber desde o quadrado anterior (ou seria retângulo?), estavam os dois sentados num fundo branco, olhando para uma parede branca e há uma distância branca.

_Não tem jeito, não há porta de saída daqui. E mesmo que houvesse nos levaria a outro quarto branco, como o anterior.

Disse o homem, desenhando no ar. Estavam sentados de costas um para o outro. Aa mulher emitia um barulho estranho, uma espécie de silvo. Quando apareceram naquele espaço, fechado até ouvirem a voz do outro, tudo estava escuro, então foi clareando até o branco cegante. Que ironia. A mulher rapidamente virou de costas e pediu para o homem não a fitar, ele só pode ver de relance que seu cabelo se mexia de um jeito curioso, quase vivo. E assim ficaram, sem dizer palavra por muitas horas, até que ele quebrou o silêncio.

_Eu estava morto antes de parar aqui. Tenho certeza de que morri, mas não consigo lembrar como. Mas sei que estou morto. Que vil criatura brinca comigo assim? Será que em vida já não paguei o preço por querer mais?

O silvo que a mulher emitia diminuiu uma oitava. Sua voz era fraca e arrastada, cansada e cheia de mágoa.

_Pelo visto estou presa com um humano. Sua espécie é a única que se lamenta como se fosse o centro do mundo. Tsc… Se serve de consolo, também estou morta.

_Eu me surpreenderia se não estivesse morto. Não é o caso. Somos obrigados a coexistir ao que me parece, e o tempo é mais sentido no silêncio. Por que não compartilha comigo sua história, cara senhora?

A mulher não conseguiu disfarçar o riso. Quando foi que alguém a tratou daquela forma? Mas o estranho tinha certa razão, ela vivera muitos séculos, e sabia o peso do tempo calado. Se a eternidade naquele cubículo a aguardava, que pudesse ao menos falar.

_Eu era chamada de Medusa. Nasci ou fui criada com um certo dom, e por isso estou morta. Arrancaram minha cabeça porque sou diferente e fiz coisas ruins. Quer saber mais? Não me arrependo. Eu consigo transformar as pessoas em pedra só de olhar, meus cabelos são cobras, daí o barulho que, com certeza, você ouve, e está se perguntando o porquê desde que paramos aqui. Agora mesmo, por razões que desconheço, estou lutando contra a vontade de me virar e encarar você. Talvez porque eu não queira passar a eternidade sozinha.

O homem ficou uns instantes calado, parecia digerir o que ouvira. Medusa quase esperava um ataque, uma tentativa de salvaguardar-se do estranho, mas apenas sua voz veio em retórica.

_Eu tinha, tenho, filhos. Tinha um reino, era poderoso, rico, mas queria mais… Me foi dado o dom de transformar o que tocasse em ouro, e minha ganância quase foi  o meu fim. Ainda em vida consegui me redimir, me livrei do que pensava ser uma dádiva, mas, mesmo hoje, ainda guardo grande culpa. Talvez por isso esteja preso aqui. Talvez você deva mesmo olhar para mim.

E pelo o que pareceu séculos permaneceram em silêncio. Se queriam saber mais do outro não mostravam, pensavam em si próprios, em suas vidas, e no porque de estarem ali, presos, cada um com seu caos particular. Medusa e Midas, personificações de desejos e falhas humanas, exemplos do que há em todo vivente e que é escondido de cada um.

_Eu poderia acabar com o seu sofrimento, sabe. De você me olhar vai virar pedra e morrer outra vez, talvez assim descanse. Eu quero ficar sozinha também, seu cheiro de humano me causa ojeriza.

O rei entendeu o que se passava. Aquela criatura ctônica tentava praticar um ato de bondade, o primeiro, provavelmente, de toda sua existência. Seria egoísmo aceitar tal presente? Não estava a mulher acostumada com a solidão?

_Cara senhora…

Midas se levantou, caminhou até a mulher sentada, olhando para o chão segurou suas mãos, beijou-as, agradeceu e a encarou.

Não houve espaço para uma resposta, imediatamente o monarca se fez pedra, e o contrário surpreendeu. A estátua de pedra de um homem ajoelhado fitava a estátua de ouro de uma mulher mulher de cabelos revoltosos. Se era possível, como era possível, não importava.