[CONTO] Limiar, Parte 1.

*Sugestões de músicas para ouvir enquanto lê serão dadas no melhor momento para que comecem a tocar. Ouça se quiser, se ouvir, não se importe em interromper a primeira para começar a segunda. Cada música foi sugerida prum momento, e talvez elas durem mais que sua leitura e acabem estragando o momento posterior. Anúncios do YouTube também podem ser um saco.*


1. 

Superman vira a esquina dum quadro de Edward Hopper, cantarolando. Em suas mãos, o livro “A Lua de Yakuza” de Shoko Tendo; em seus bolsos, umas canetas coloridas. Seus sapatos recém engraxados deixam marcas na calçada, sua calça listrada está aos farrapos com seu andar malandro, sua barriga para fora da camisa roxa que só se mantém abotoada pelo sustento que encontra no blazer branco, este que combina com seu chapéu. A barba malfeita e o hálito de café, somados às olheiras gritantes, denunciam noites de insônia. E ele canta:

– Ô Tinhooooooso, entra na minha casa, mexe com minha estrutura, me faz descer gostoso, pega na minha cintura…

Ao entrar no estabelecimento, pede a Parker um milkshake de morango bem gelado e espera. O relógio marca quatro da manhã. Entre um copo e outro, sente o vento da porta abrindo e fechando com a entrada de seu amigo esperado. Cumprimenta-o com um abraço, pede a Parker um moccacino gelado para seu acompanhante, e começa a ladainha:

2.

– Eu tô cansado, Batman. Ando tendo pesadelos, crises de ansiedade, esses dias percebi-me todo arranhado pelas minhas próprias unhas de aço. A vida me irrita profundamente. É tanto maniqueísmo sendo atirado das janelas das casas, das bocas das senhoras, dos dentes de deputados, eu não aguento mais. Eu não vim de Krypton para isso. Eu queria te convidar para uma empreitada.

Batman sorri com o canto da boca, coloca seu copo sobre o balcão, tira a capa suja e surpreende a todos no estabelecimento com seus músculos de um bilhão de dólares evidenciados pelo kevlar coladinho de seu uniforme. Com a voz mais ríspida que o normal, acena com a cabeça para Superman continuar.

– Eu tive uma visão, Batman. Eu vi o mundo atravessado por um tabuleiro de xadrez. Eu desenhei na parede da minha casa com a visão de calor, acidentalmente. Havia uma partida eterna acontecendo, cada peça caída era substituída por uma nova. E você nem vai acreditar quem eram as peças.

– Quem?

– Os sonhos da humanidade.

– Cala a boca, Clark.

3.

Nisso, Parker passa desconfiado, com o ouvido maior que a sempre presente bolha de picada de aranha em seu pulso. A conversa dos dois heróis continua, seus drinques sendo cada vez mais esquecidos sobre o balcão. Superman olha as horas, já vão dar seis da manhã. Batman vai ao banheiro se trocar, Superman pede a conta.

Parker desfila com a conta pelos quatro cantos da lanchonete antes de entregá-la a seu cliente. Quando percebe que ninguém está olhando, ele entrega o papel ao Superman e cochicha em seu ouvido: “Seu sonho não é incomum. A sociedade secreta das lendas vai se reunir todo sábado à tarde, pique-nique no rio atrás da cabeça da Monalisa. Compareça. Não leve seu amigo.”

Bruce Wayne sai do banheiro disfarçado de senhora filipina, pede à Clark gentilmente que o ajude a atravessar a rua, aos poucos saem da moldura do quadro e voltam à sua forma encarnada no mundo real. As duas baratinhas correm entre os pés humanos presentes e se separam no horizonte. Do alto do Cinturão de Órion, um dos jogadores vigia. Pita um baseado de poeira de estrelas, depois cospe a saliva na Lua, desviando-a uns milímetros de sua órbita tradicional. Com a sola do pé torrando em cima de Mercúrio, seu inimigo dispara:

– Xeque-mate. Ache um novo rei.

Continua.


Imagem lá em cima: World’s Finest Dinner, por Ian Navarro,
Releitura de Nighthawks de Edward Hopper.

No aguardo de feedbacks sobre as sugestões de músicas pra saber se mantenho o formato para as próximas partes. Abraços.