[CONTO] A (R)Evolução Humana

a revolucao humana

Sabe, às vezes eu olho lá pra cima e me pergunto: como eles ainda suportam morar ao ar livre? Tudo bem que por lá é tudo mais leve, mas também é tudo muito exposto, direto e objetivo. Falta todo esse mistério e densidade daqui, todo esse descobrir constante, essa nossa curiosidade quase infantil. Todo esse nosso envolvimento mais íntimo com o meio, essa liberdade no mover-se. Temos todas as direções ao nosso alcance!

A verdade é que já estava mais do que na hora de evoluirmos, de mostrarmos toda a nossa capacidade de adaptação às adversidades. Há muito tempo precisávamos encarar as conseqüências de nossos descuidos seculares, usarmos toda a inteligência e conhecimentos acumulados, e encontrar uma solução para o problema que nós mesmos agravamos.

Mas foi somente quando os desastres começaram a atingir os “maiores do mundo”, abalando todo o poder e estrutura de seus impérios, destronando “reis”, e derrubando “ditadores”, desmoralizando “imperadores”, é que finalmente houve a tão necessitada união global, e o início do grande plano de remodelamento da humanidade.

Não havia mais pra onde fugir! Na verdade jamais houve, mas isto só se tornou mais evidente quando o mundo mostrou que já não tinha mais tanto espaço e recursos disponíveis pra tanta gente.

Não muito depois começaram a surgir os “loucos” com suas soluções “insanas”. Talvez seriam queimados na fogueira alguns séculos antes, caso ousassem dizer tudo aquilo. Pra sorte deles foram simplesmente ignorados, alguns ridicularizados, e outros acabaram enlouquecendo de fato.

Mas no final, quando espaço e recursos enfim acabaram, foram justamente às idéias de alguns daqueles loucos que os “sãos” homens da ciência recorreram. Claro que, “pra variar”, suas soluções foram postas em prática com os inevitáveis louvores tardios aos gênios do passado, e conseqüentes lamentos pela ignorância daqueles que não os entenderam.

O fato é que, naquela época, começou o que viria a ser um de nosso passos mais ousados e (r)evolucionários, mais do que quaisquer “grandes saltos” dados em superfícies desérticas de baixa gravidade. Nosso futuro estava aqui mesmo, só precisávamos dar mais atenção ao que possuíamos desde o início.

Então, começaram as intensas e exaustivas pesquisas e experimentos genéticos, sendo paralelamente seguidos pelo empenho de arquitetos e projetistas, sociólogos e filósofos. Gente que fabricava armas e naves espaciais se voltaram para esse “plano mundial de construção das bases de uma nova humanidade”.

Logo surgiram os primeiros frutos, claro que deixando atrás de si um rastro de muitos fracassos, mas nada inesperados, pois todo sucesso que se preze é sustentado por inúmeras derrotas, que fortalecem o empenho dos que lutam para alcançá-lo. Frutos estes que começavam a apontar para o drástico desvio daquilo que seria como o caminhão desgovernado prestes a destroçar o fusquinha chamado “espécie humana”. Sim, estávamos começando a girar o volante, e direcionar nossa história para uma nova fase, ou melhor, uma nova era, pra usarmos um termo mais apropriado. Assim, começamos a nos distanciar do futuro sombrio que muitos profetas e cientistas anunciavam como inevitável.

Sim, a incansável vontade humana persistiu, e a nova era chegou quando o primeiro de nós abriu suas mãos pequeninas de recém-nascido, e exibiu entre os dedos as membranas que tanto nos são úteis hoje. Claro que esta foi a primeira de uma série de modificações futuras. Depois vieram os dedos dos pés mais longos, também com membranas entre eles; corpos mais esguios isentos de pêlos; músculos, órgãos e ossos mais resistentes a zonas de altíssima pressão atmosférica…

E quando um de nossos antepassados respirou aqui embaixo, usando as primeiras brânquias humanas cem por cento eficientes, indicando o sucesso total do primeiro passo para a futura grande imigração, começaram os debates, discussões, revoltas e resistências contra as novas mudanças que estávamos prestes a nos impor.

Não gosto de pensar em quantos morreram naquelas inúteis guerras movidas por suas ultrapassadas éticas, e sim de comemorar a vitória da razão, que permitiu o início da vacinação mundial, que “curou” parte da humanidade de seu fim, e iniciou a propagação de nossa raça. Logo depois começou a grande imigração, que povoou as cidades subaquáticas construídas ao longo de décadas, resultado do esforço conjunto daqueles que, antes, perdiam seu precioso tempo procurando novas formas de mandar gente pro espaço, ou novas maneiras de matar alguém com “menos crueldade”. Talvez um dos maiores exemplos de como a cooperação de pessoas de áreas distintas da ciência podem fazer uma diferença tremenda quando cada uma delas põe de lado suas divergências, e se concentram em um objetivo comum e maior, real e literalmente construtivo.

As primeiras cidades aos poucos se tornaram metrópolis, e não demorou muito para que várias delas se unissem, formando as primeiras nações submarinas da humanidade. Com isto ganhamos o maior de todos os espaços livres. Ganhamos a capacidade de “voar” em todas as direções. Ganhamos paisagens fantásticas formadas por faunas multicores de peixes, colônias de corais, estrelas do mar e crustáceos, e os jardins de algas. Ganhamos o espetáculo luminoso dos habitantes abissais, e um “céu” ondulante de luz solar aquaticamente filtrada. Ganhamos a maternal e uterina hidrosfera, que tão bem nos acolheu, como filhos há muito tempo afastados. Com isto recuperamos nossas origens mais ancestrais, retomando nossa profunda conexão com o primeiro ser vivente a surgir na primordial e borbulhante sopa proteica. Ficamos novamente íntimos do elemento que mais abundantemente nos constitui.

Temos o maior dos mistérios que este mundo nos escondeu desde a aurora dos tempos, enfim plenamente acessível e passível de ser desvendado. Temos muito a descobrir aqui, sobre as profundezas deste novo mundo, e de nossa própria alma.

Aos poucos conquistamos a simpatia de seus habitantes mais antigos, respeitando-os em seu espaço. Ganhamos deles a cooperação, o aprendizado.

Nossa dieta alimentar obviamente mudou, assim como o uso que fazemos de nosso instinto de sobrevivência. Mas isto nos ajudou a entrar em maior harmonia e equilíbrio com este novo mundo.

Muitos ainda vivem lá em cima, na superfície. Aqueles que optaram por preservar o que alguns deles definem como a “autêntica humanidade”. Não acho que o fato de respirarem ar “puro” seja fundamental para definir um ser vivo como “humano”, mas sei que, independente do que pensam a este respeito, estão se esforçando pra tornar o mundo terrestre tão habitável como o aquático. Pacientemente estão procurando curar o planeta do que seus excessos lhe causaram. Ouvi dizer, inclusive, que descobriram uma nova humanidade, formada por aqueles que vivem sob a terra. Quem sabe o que estes vizinhos recém-descobertos poderão lhes ensinar a respeito deste mundo tão vasto, surpreendente e misterioso?

Às vezes me pergunto pra onde as correntes do destino irão nos levar. Humanidades do fogo, talvez? Humanidades do ar? Das estrelas? Eu não sei, mas estou louco pra descobrir.


Texto originalmente escrito em 14/07/2007.