[CONCURSO CULTURAL] “Doctor Who: O Planeta Vazio” de Gilberto Varis

Já publicamos aqui o conto vencedor do Concurso Cultural Doctor Who, mas, conforme havíamos prometido, publicaremos também os contos que ficaram em 2º e 3º lugar. Hoje é a vez de “O Planeta Vazio”, escrito por Gilberto Varis.

Boa leitura:


O Planeta Vazio

doctor who cybermen planeta vaziopor Gilberto Varis

1

Clara estava entediada. O Doutor estava recalibrando as sondas de anomalias, para evitar que a TARDIS ficasse atolada no espaço.

-Por que a TARDIS ficaria atolada no espaço? Como exatamente isso aconteceria? Ela perguntou em voz alta.

-Nós vamos para um lugar com forte campo eletromagnético. O Doutor respondeu, de algum lugar.

-O que são todas essas coordenadas? Clara perguntou, enquanto fuçaca entediada no computador de bordo da cabine azul.

O homem magrelo de cabeça grisalha voltou com seus grandes óculos cheios de funções do subsolo da nave.

-Deixe-me ver… Ah, a TARDIS registra todos os planetas em que ela aterrisa. Ela coleta dados de todo e qualquer sistema de comunicação que a região possa ter. Ela tem um grande apetite por informação, por isso que quanto mais velha, mais inteligente. Ele dá duas batidinhas no console, como quem acaricia um cão que obedeceu uma ordem.

-Terra, Terra, Terra, Marte, Gallifrey, Skaro, Terra, Skaro… O que é isso? Ela pergunta vendo um código ilegível para ela. O Doutor se aproxima e dá uma olhada.

-Ah, é um planeta sem denominação. Ele responde.

-Por que não tem denominação?

-Porque não é habitado.

-E por que não é habitado?

-Porque não é habitável.

-Se não é habitável por que você tem tantos registros dele no diário de bordo? Por que você sempre vai lá?

-Você vai ficar fazendo perguntas o dia inteiro?

-Isso é um segredo? Ela pergunta, um pouco irrequieta por imaginar que o Doutor esteja escondendo alguma coisa dela.

-Não, só não é importante o suficiente para você ficar sabendo. Ele responde.

-Então você só me conta coisas importantes?

-Importantes o suficiente que você precise saber. Ele responde, sorrindo de um jeito estranho.

-Acariciar meu ego não vai funcionar, por que você não quer falar sobre isso?

-Acariciar seu ego sempre funciona! Seu ego é tão grande que a TARDIS poderia pousar nele.

-Ei! Ela exclamou, semi ofendida, uma vez que aquilo não era totalmente mentira, mas era indelicadeza dele mencionar.

-Temos alguns cybermen na TARDIS.

-O que? Ela perguntou, tomando um susto.

-Sempre que eu encontro algum Cyberman, quando eu consigo desativá-lo, eu levo pro planeta vazio. É como se fosse um ferro velho de cybermen. Ele responde.

-E por que você faz isso?

-Pelo mesmo motivo que você insiste em raspar os seus joelhos: você pode precisar deles lisos um dia.

Clara ficou um pouco desconfortável com isso.

-Você tem um ferro velho pra Cybermen, você também tem um pros Daleks?

-Não.

Enquanto Clara fazia uma série de perguntas referente ao Planeta Vazio, o Doutor operava os controles da TARDIS sem ouvir uma palavra do que sua companheira falava, até que ele leu uma informação na tela do console que o fez arregalar os olhos de um jeito preocupado. Clara sabia que aquilo era ruim, porque a sobrancelha esquerda dele se levantou com tanta brutalidade que poderia abrir um buraco no teto da nave.

-O que foi?

-Nós estamos no Planeta Vazio.

-E era para nós estarmos aqui?

Um silêncio preocupante pairou na sala de controle. O Doutor olhou para Clara preocupado, o que a deixava ainda mais preocupada.

-Mas é claro – ele disse, sorrindo. – Eu vou deixar a carcaça dos cybermen aqui com o Tobias e depois nós podemos ir para uma das Luas Mecânicas de Tártara.

-Quem é Tobias?

-Um velho conhecido, ou o que restou dele…

Clara arfou, aliviada por, aparentemente, nada de errado estar acontecendo. O Doutor saiu da sala de controle e voltou arrastando duas carcaças de cybermen, uma sem cabeça e outra sem um dos braços. As duas extremamente pesadas.

-Uma ajudinha…? Ele pergunta, sem fôlego.

-Claro…

2

Tobias Vaughn foi colaborador dos Cybermen na primeira tentativa de invasão deles à Terra. Trabalhava para a International Electromatics. Ele foi morto ajudando o Doutor a impedir que a invasão fosse bem sucedida. Vaughn teve parte do seu corpo convertido para a cybertecnologia. Muito tempo depois, antes do Doutor entrar na Grande Guerra do Tempo, ele recebeu uma ligação estranha, alegando ser a respeito da International Electromatics. Em sua quarta regeneração o Doutor descobriu que a consciência de Vaughn foi mantida intacta em um Invólucro de Consciência esquecido nos porões da UNIT. O Doutor deu um corpo de androide para Vaughn e encontrou um planeta inabitado e que nunca chamaria a atenção de ninguém. No Planeta Vazio, Vaughn desmonta todo cybermen que o Doutor leva, reduzindo a sucata e estudando qualquer fraqueza que eles possam ter. A cada visita do Doutor, Vaughn repassa um relatório sobre as novas descobertas.

-Foi com ele que eu consegui o Handles. O Doutor diz para Clara, assim que ele abre a porta.

-E ele foi aliado dos Cybermen durante a invasão?

-Até descobrir o real plano deles: a aniquilação da raça humana.

-E como você tem certeza de que ele não é um estratagema deles?

-Se eu quisesse, eu já teria obliterado a galáxia inteira. Existem peças de cybermen o suficiente para reerguer toda a raça original de mondasianos. Diz o androide com a voz calma e soturna de Vaughn.

-Mais modelos atualizados para você brincar. Diz o Doutor.

O androide caminha na direção das duas carcaças e observa o Doutor e Clara arrastando os pedaços de metal humanoides com uma dificuldade tremenda.

-Sabe… Você poderia… Ajudar… Diz Clara, exausta por arrastar meio cyberman do console até a porta da TARDIS.

Zzzzzzzzzzzzzzz. Zzzzzzip. ZZZZZZzzip Pzzzzzzzzz.

-O que foi isso? O Doutor pergunta, mediante o zumbido que o androide solta.

-Andei trabalhando em alguns protótipos… Vaughn diz.

Em seguida, aparecem dois humanoides com partes diferentes de vários modelos de cybermen. A cabeça utiliza o modelo original dos Cybermen do planeta Mondas. O tronco dos humanoides utilizam o modelo de cybermen criado pelas Indústrias Cybus, na Terra paralela. Os braços pertenceram aos cybermen da base lunar, com três dedos apenas, e as pernas da versão mais recente, que o Doutor e Clara encontraram em Hedgewick’s World.

-Não, não, não, não mesmo! O Doutor diz, sacando imediatamente sua chave de fenda sônica e analisando os ciborgues. – Nós fizemos um acordo, você não montaria absolutamente nada!

-Mas eu preciso de ajuda, temos toneladas de metal e essa rocha árida está ficando pequena demais. Um dos cybermen montados por Vaughn diz.

-Você compartilhou sua consciência com eles? O Doutor pergunta.

-Sim, eles sou eu, eu sou eles. Não existe nenhum risco aqui, Doutor. Eu não tenho como sair daqui, nem eles.

-Quantos bonequinhos desses você montou, Tobias?

-Dois, apenas esses dois.

-E esse assobio foi você se comunicando com eles?

-Correto.

-E por que a TARDIS não traduziu isso? Clara pergunta.

-Por que é uma forma de comunicação que surgiu depois da ultima vez que eu estive aqui… Tobias, nós precisamos desmontar seus ajudantes. Em quinze minutos eu te trago um novo corpo que vai demorar bastante para se deteriorar!

-Doutor, você não precisa se preocupar. Eu não vou montar um exército de cyberchimeras. Isso tudo é sucata, sem vida, sem consciência, sem absolutamente nada.

-Eu sei que não. O Doutor aponta a chave de fenda sônica para as duas cyberchimeras e ela começa a zunir.

Clara fica observando, e nada acontece. O Doutor a olha boquiaberto.

-Nada. Ele diz.

-Nada o quê? Ela pergunta.

-O que você fez? O Doutor pergunta a Vaughn -Como você conseguiu bloquear a comunicação entre… Minha chave sônica e essas coisas?

-Eu não bloqueei nenhuma comunicação, Doutor. O androide Vaughn responde.

O Doutor aponta a chave sônica para o androide Vaughn e ela começa a zunir.

-Doutor, é um planeta sem nenhum tipo de vida ou atmosfera, certo? Clara perguntou.

-Certo. O Doutor respondeu.

-Atmosfera. Chave de fenda SÔNICA. O som não se propaga no vácuo, Doutor.

-Clara eu não sou nenhum aluno seu do quinto ano. O Doutor disse.

-Claro que não, meus alunos têm noção desse tipo de coisa. Clara respondeu.

-É fácil resolver isso…

O Doutor entrou na TARDIS, pulando pela carcaça do cyberman que Clara desistiu de carregar. Operou alguns controles no console e voltou para fora da TARDIS.

-O campo atmosférico que a TARDIS gera permite a verificação do local – ele começou a explicar para Clara – A TARDIS cria uma atmosfera ao redor dela para ser respirável e para verificarmos o local que estamos, mas ela também permite expandir a atmosfera e transformar um planetoide minúsculo como esse, respirável.

-Vai chegar o dia em que você não vai mais ter segredos na manga para me surpreender. Nem você nem a cabine azul. Disse Clara, com um sorriso no canto do rosto.

-Se esse dia chegar, nós estaremos em sérios problemas. – ele se voltou para o cyberchimera e apontou novamente a chave sônica -Agora que temos uma atmosfera através do qual o sinal dessa coisinha aqui pode se propagar…

O Doutor se calou. Olhou para a chave de fenda sônica e disse:

-Na verdade, o sinal que eu estava emitindo não era sônico, eu nunca usei sinais sônicos aqui, sempre foram ondas de rádio. Tobias, você tem certeza mesmo de que não fez nada para interferir na comunicação? Por que isso é realmente estranho, eu não sei o que está acontecendo e eu realmente não gosto de não saber o que está acontecendo. Saber o que está acontecendo é a minha coisa. Eu sempre sei. Antes mesmo que me digam.

-Doutor. Disse uma cyberchimera.

-Ah, finalmente, – ele olhou para Clara – parece que chegou o momento em que o grande plano é revelado.

-Não tenho nenhum plano, Doutor, sou eu, Tobias Vaughn, seu aliado durante a tentativa de invasão dos Cybermen ao planeta Terra, quando você ocupava o corpo de baixa estatura e cabelo mal cortado. Disse uma voz metálica e sem vida. Eu continuo sendo a consciência do seu antigo aliado, nada mudou.

-Vamos Clara – disse o Doutor -Vamos ver como está a oficina. Cybercoisas, peguem aquelas cybercarcaças e levem para dentro.

3

O interior da oficina tinha uma fileira com todos os modelos de Cybermen capturados pelo Doutor em todas os seus encontros. O Doutor parou diante o primeiro modelo de Cybermen. Era um modelo humanoide beligerante e assustador. Cheio de metal e borracha, extremamente rústico, comparado com o modelo das carcaças na TARDIS. O Doutor encarou aqueles olhos negros e vazios por algum tempo.

-Bem diferente… Clara comentou.

-Esse é o homem de neanderthal dos cybermen. Sabe – o Doutor se virou para Clara, com um olhar sentimental e um pouco triste. -Foi lutando contra eles pela primeira vez que eu… Mudei. Eles foram os responsáveis pela minha primeira regeneração. Eu sabia na época que estava chegando a hora, o corpo com o qual eu nasci já não era mais o mesmo. Foi uma batalha cansativa e no final eu acabei sucumbindo. Todo Senhor do Tempo recém saído da academia teme a regeneração, a dor, o período de instabilidade. Foi depois de enfrentar essas coisas que um dia já foram como vocês, que eu transformei.

Clara ficou em um silêncio respeitoso. O Doutor não tocava muito no assunto regeneração, era algo delicado para ele. Cada vida diferente que ele teve, em um corpo diferente, foi acompanhado por pessoas que talvez ele nunca mais veria, ou porque ficaram presas em um universo paralelo, ou porque lembrar do Doutor faria suas cabeças queimarem, ou talvez porque os Senhores do Tempo apagaram suas memórias.

-Tem alguma coisa errada. Sempre tem alguma coisa errada e eu não gosto de não saber o que está errado aqui, Clara. Ele disse. Vaughn entrou na oficina, acompanhado pelas cyberchimeras carregando as carcaças dos cybermen que estavam na TARDIS.

-Algum problema, Doutor? O androide Vaughn perguntou.

-Dois problemas. Primeiro, tem alguma coisa acontecendo aqui e eu não gosto disso, e segundo, eu não sei o que está acontecendo, então sim, temos problemas.

Clara estava observando alguns modelos de Cybermen menos antigos. Olhou para um deles e viu que tinha uma etiqueta:

ZONA DA MORTE DE GALLIFREY. INOPERANTES. PARTES ORGÂNICAS RETIRADAS.

-Esse modelo ainda operava utilizando o cybermat. O android Vaughn disse, se aproximando dela. -O Doutor o trouxe depois de uma tentativa de golpe, ou algo parecido, no planeta dele.

-O cybermat desse modelo foi atualizado. Ficou menor, viraram moléculas. Assumem a forma líquida agora. O Doutor disse ao androide.

-Curioso. Significa que eles começam em uma forma orgânica, então? O androide Vaughn perguntou.

-E depois viram grandes soldados de metal, destruidores e implacáveis. Exatamente como tudo começou. O Doutor respondeu.

-Onde está o outro? Clara perguntou, sussurrando para o Doutor.

-Que outro?

-A outra cybercoisa. Tinham duas, não tinham?

-Receio que ele está ocupado, baixando as informações necessárias do disco rígido da TARDIS. Disse uma voz metálica, vinda de algum lugar.

-O que!? Eu sabia, tinha alguma coisa errada, sempre tem alguma coisa errada!

Ele agarrou a mão de Clara e os dois correram na direção, que de repente foi obstruída pelo modelo mais assustador dos Cybermen, o modelo feito de borracha e metal, com quase dois metros de altura.

-Doutor, você não tem como fugir. Disse a voz metálica saindo da boca de todos os modelos de cybermen em exposição, incluindo o androide Vaughn.

-Vocês ainda não me conhecem o suficiente. Eu sempre tenho como fugir! Ele respondeu.

-Doutor…

-Vocês são plástico e aço amontoados e acham que tem uma consciência, mas são só um programa de computador, tão velhos quanto esse pedaço de rocha, vocês acham mesmo que são o suficiente para me deter?

-Doutor…

-O que foi? Ele perguntou, vendo Clara cambaleando.

-Está ficando difícil… De respirar. Ela disse, caindo no chão.

-A atmosfera expandida. O que vocês… Fizeram…?

-Pela primeira vez um discurso feito pelo Doutor serviu em alguma coisa: calar o Doutor. Você falou o suficiente para perder o fôlego, Senhor do Tempo. Disse a voz vinda de todos os cybermen juntos. -A Cyberchimera dentro da TARDIS desligou sua atmosfera expandida. Vocês estão ficando sem ar…

O Doutor, caído no chão, viu aquela imagem aterrorizante novamente. O Cybermen, do mesmo modelo que ele enfrentou no planeta Mondas, se aproximou. Então tudo se apagou.

4

Clara e o Doutor estavam dentro de cilindros de vidro, presos pelos braços e pelas mãos. O Doutor acordou já se debatendo.

-O que vocês fizeram conosco? Ele perguntou.

-Vocês estão em um suporte respiratório. Estão sendo mantidos vivos.

-Por qual motivo? O Doutor perguntou.

-Você só será útil até extrairmos as informações de pilotagem da sua máquina do tempo. A fêmea humana será convertida para o modelo atualizado dos cybermen. Voltaremos no tempo ao nosso planeta original, Mondas, antes de você aparecer. Impediremos sua vitória no combate e reescreveremos todas as incursões dos cybermen.

-Quem é você? O Doutor perguntou. -Eu exijo saber com quem eu estou falando nesse momento.

-Está falando com o cybercontrolador.

-Todos os cybermen que eu trouxe para cá estavam inativos. De onde você surgiu?

-De todos os cybermen que Tobias Vaughn desmontou. Ele assimilava o sistema operacional nervoso para entender como funcionava o cyberman que ele dissecava. Gradativamente a consciência de Tobias Vaughn foi assimilada pelos cybermen. Você deixou uma chave de fenda sônica com ele, dissecamos cada informação a respeito dela e bloqueamos a comunicação.

-Então, você é uma mistura de todos os cybermen que Vaughn desmontou. Inteligente, muito inteligente.

-Aproveitamos a sua falha de raciocínio. Nosso modo primário de defesa do modelo atualizado, nos permite formar uma grade de informação até que seja possível criar uma…

-Inteligência artificial. Vaughn foi criando uma grande bola de neve de informações sobre cybermen, até ele assimilar um vírus de defesa do modelo atualizado, e esse vírus fez a bola de neve ficar inteligente. Agora vocês querem voltar no tempo usando a minha TARDIS. Isso significa que eu fui…
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-Estúpido.

-…Descuidado. Vamos lá pessoal, vocês não sabem como foram minhas últimas regenerações, muita coisa acontecendo. Vem sendo uma regeneração difícil essa aqui. Eu estive no banco de Karabraxos, bem na hora em que…

-Não queremos saber, Doutor. A fêmea humana é compatível para a conversão. Ela será utilizada.
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-NÃO SE ATREVAM A TOCAR UM DEDO EM CLARA OSWALD, SUAS LATAS DE SARDINHA! O Doutor gritou, tentando se desvencilhar das travas que prendiam no cilindro com ar.

-Nós não obedecemos ao Doutor. Em breve, o Doutor não existirá mais.

-Isso, me matem! Atirem em mim!

-Nós sabemos que se você for ferido durante o processo de regeneração, ela não se conclui e você morrerá, Doutor.

-Exatamente! Atirem em mim, me fuzilem! Vocês deviam ver o que aconteceu com a nave Dalek que fez eu me transformar nisso aqui! Disse o Doutor, cheio de raiva.

-Você tem as emoções à flor da pele, Doutor.

-Sim, eu tenho, ah, se tenho! Andem, atirem em mim!

-Não.

-Não? O Doutor perguntou, confuso.

-Nós não recebemos ordens do Doutor.

-De quem vocês recebem ordens?

-Nós nos damos as nossas ordens.

Os cybermen enfileirados na entrada começaram a se mexer. O cilindro no qual Clara estava presa se levantou até desaparecer, engolido pelo teto. Braços mecânicos se aproximaram dela. Estava começando a conversão dela em Cybermen.

-Você ainda não sabe como funciona não é? Precisa fazer a conversão do modo antigo… O Doutor resmungou. Parecia conformado, mas estava com seu cérebro pensando em todo tipo de coisa que poderia fazer para fugir dali.

Os cybermen cortaram o agasalho de Clara, iam começar a despi-la. O Doutor achou aquilo ultrajante.

-Ei, ei, ei! O que aconteceu com o Vaughn então? Foi assimilado por vocês? Ele tinha uma consciência inteira, vocês não iam conseguir converter uma consciência sem um cérebro.

-Você deu a ele um cérebro eletrônico, Doutor. Foi ainda mais fácil. Os braços mecânicos tiraram as botas de Clara. Ainda estavam fazendo a leitura do corpo dela.

-Tobias, Tobias Vaughn! Nascido em Sussex. Aliou-se ao Doutor na invasão dos cybermen a Londres nos anos 1960. Eu exijo falar com o que sobrou de Tobias Vaughn.

O androide Vaughn se aproximou do cilindro onde o Doutor estava preso.

-Fale. Disse o androide.

-Você está mesmo preso ao cybercontrolador? Não existe nenhum traço do homem que me ajudou um dia a impedir que esses monstros de metal tentassem conquistar a Terra?

-Não. O androide respondeu.

-Você tem certeza? Você não lembra nem um pouco do que os cybermen planejavam fazer? Eu me lembro, Tobias. Eu me lembro que quando você descobriu o que eles planejavam. Seu horror foi tão grande que você decidiu dar sua vida para combatê-los. Foi o que você fez, você se lembra?

-Sim.

-E você vai deixar agora que eles concluam o plano? Que eles convertam minha amiga desacordada? No começo dos cybermen, a intenção era apenas converter as pessoas fracas e doentes. Clara está em perfeita saúde, perfeitas condições. Isso não vai contra as diretrizes primárias do cybermen? Hein, Cybermen de borracha com farolete na cabeça! Gritou o Doutor.

O Cyberman ao qual o Doutor se referiu parou.

-Sabe, já tiveram ocasiões em que eu encontrei eu mesmo, pode imaginar, vários Doutores ao mesmo tempo? Imagine só todos os Doutores ao mesmo tempo, todas as versões que existiram de mim na mesma sala. É confuso, conflitante… Agora eu paro pra pensar. Todos os modelos até então dos cybermen, juntos, wow! Várias gerações e tecnologias diferentes. Tecnologias incompatíveis e diretrizes conflitantes, instruídas a fazerem coisas diferentes, a agirem diferente uma das outras… Porque se tem uma coisa que é verdade, essa coisa é que o plano de vida dos cybermen sempre foram muito confusos. Por exemplo, você, Cyberman da Terra Paralela, você tinha que converter as pessoas para elas não terem mais emoção nenhuma. Já você, Cyberman da Zona de Morte de Gallifrey, foi instruído a apenas conquistar. Conquistar territórios, conquistar corpos hábeis para a conversão, mas você, Cyberman original de Mondas, a cerne da sua origem foi apenas reparar as pessoas feridas, substituir membros perdidos. Se minhas mãos estivessem soltas, eu aplaudiria vocês por conseguir viver com tanta harmonia…

Silêncio. Todos os cybermen da oficina começaram a se entreolhar.

-Concluir conversão da fêmea humana.

“Droga!” pensou o Doutor. Eles não iam começar a brigar.

-Tobias, e a chave sônica que eu dei pra você, foi destruída?

-Não. O androide respondeu.

De repente, o Cyberman original do planeta Mondas segurou o Cyberman tirado da Zona da Morte de Gallifrey.

-Suas diretrizes entram em conflito com as diretrizes originais. A fêmea humana está em perfeitas condições, não será necessária a conversão.

-Suas diretrizes estão ultrapassadas. Os Cybermen vão conquistas todo o Cosmos, convertendo todos os planetas que estiverem no caminho. Todos serão colônias dos Cybermen.

-Eles pertencem a nós. Eles devem ser como nós. Disse o Cyberman tirado da Tumba dos Cybermen, no planeta Telos.

-A conversão deve ser através do cybermat. Disse o Cybermen retirado da Zona da Morte de Gallifrey.

-Incorreto. A conversão deve ser através do maquinário das Indústrias Cybus. Disse o Cyberman da Terra Paralela.

-Incorreto, a conversão deve acontecer da forma atualizada, pelo cyberpolém. Disse um dos Cyberman retirados da TARDIS, se levantando do chão.

-Tecnologia para conversão através do cyberpolém é incompatível. Disse a voz do Cybercontrolador, vindo de todos os cybermen da oficina.

-Um invólucro com meio litro de cyberpolém está armazenado na TARDIS. Disse a Cyberchimera.

-Tecnologia precisa ser analisada. Disse o Cybercontrolador.

-Incorreto. Disse o Cyberman que estava na TARDIS.

-O Cybercontrolador nunca está incorreto.

-Sim, está. A conversão da fêmea humana não é necessária. Disse o Cybermen original do planeta Mondas.

Enquanto os Cybermen começavam a discutir, o Doutor tentava acordar o resto do que um dia foi a consciência de Tobias Vaughn.

-Eu poderia usar a sua chave de fenda sônica agora, Tobias… Ajudaria muito nesse conflito aqui…

Uma espécie de gaveta se abriu na barriga do androide, tinham várias miudezas dentro dela, incluindo a chave de fenda sônica que o Doutor deixou com o androide. O Doutor não lembrava mais qual dos vários modelos ele havia deixado com Tobias. Era o modelo que um dia pertenceu, ou pertenceria dependendo do ponto de vista, a River Song.

-Eu estou com as mãos ocupadas. Você poderia…? O Doutor perguntou. O androide pegou a chave sônica e apontou para o Doutor. Ele estava livre. -Tobias, eu preciso da Clara livre.

-Doutor! Você não vai conseguir escapar tão fácil. Disse o Cybercontrolador, através de todos os cybermen. -Sua associada fêmea humana será convertida através do cybermat.

-Incorreto. A fêmea humana será convertida utilizando o cyberpolém. Disse o Cyberman retirado da TARDIS.

-Incorreto. A fêmea humana deverá ser convertida através do cybermat. Disse o Cyberman da Tumba dos Cybermen, do planeta Telos.

-Correto. A fêmea humana deverá ser convertida… Tentou dizer o Cyberman tirado da Zona da Morte de Gallifrey, até ele ser atingido por um phaser do Cyberman que estava na TARDIS.

-A fêmea humana não deverá ser convertida. Disse o Cybermen original do planeta Mondas.

O androide Vaughn foi até um console do computador operacional da oficina e se conectou a ele.

-Doutor, sua companion será teletransportada dali para a área externa da TARDIS.

-A Cyberchimera ainda está lá dentro! Disse o Doutor.

-O sistema operacional da Cyberchimera entrou em pane. Volume de dados extraídos da TARDIS provocou mal funcionamento. Disse o androide, fazendo o Doutor sorrir.

-Claro, não se copia e cola os dados da matriz de uma cabine azul maior por dentro…

-O Doutor deve embarcar na TARDIS com a fêmea humana. Disse a voz do Cybercontrolador.

-O Doutor não deve embarcar na TARDIS. Disse o Cyberman do planeta Mondas. -Nós devemos retroceder no tempo para impedir que o Doutor vença as batalhas contra os Cybermen!

-Incorreto, a fêmea humana deve ser convertida utilizando o cybermat…

-Doutor, assim que a TARDIS desmaterializar, o Planeta Vazio entrará em hibernação. Disse o androide.

O Doutor correu na direção da porta e virou mais uma vez, assistindo aos Cybermen discutindo como Clara deveria ser convertida, até que de repente, ela já não estava mais lá. Foi teletransportada para a superfície. O Doutor caminhou até o androide Vaughn para se despedir.

-Tobias, eu peço desculpas. Te mantive consciente por mais tempo do que deveria. Isso não se faz, era uma questão de tempo até você sucumbir ao volume de informação dos cybermen.

-Sentimentalismo é irrelevante. Eu sou um androide, Doutor. Agora, saia para que a hibernação seja ativada.

O Doutor olhou triste para o androide. Assim que a hibernação fosse ativada, qualquer coisa que possuísse um circuito eletrônico fritaria. Depois de tantos anos, Tobias Vaughn não seria nada além de uma lembrança na vasta memória do Senhor do Tempo.

-Obrigado, Tobias. Descanse. O Doutor disse, respirando fundo e correndo até a porta.

-Doutor! Gritou o androide, olhando para sua gaveta e vendo que a chave de fenda sônica do Doutor ainda estava com ele. Se ele fosse uma pessoa, abaixaria a cabeça, respiraria fundo e aguardaria a morte. Se alguém visse o modo como ele abaixou a cabeça, diria que era exatamente isso que o androide estava fazendo.

5

O Doutor chegou na TARDIS, e viu Clara deitada do lado de fora, desmaiada. Ao lado dela, uma descarga elétrica materializou a chave de fenda sônica do Doutor no chão. O Doutor carregou Clara e a colocou deitada no banco da sala de controle, arrastou a Cyberchimera pelas pernas até o lado de fora e viu pela última vez, o Planeta Vazio.

-Adeus, Doutor. Disse Tobias, através da Cyberchimera jogada no chão

-Adeus Tobias, obrigado por toda a ajuda.

-Salve-se, Doutor. Continue salvando o Universo. A fêmea humana deve ser convertida utilizando o cyberpolém…

O Doutor fechou a porta da TARDIS e a cabine azul se lançou novamente para dentro do vórtex temporal. Visto do espaço, ninguém diria que um impulso eletromagnético estava sendo disparado de dentro para fora daquela rocha circular, destruindo qualquer coisa eletrônica que estivesse nela. O Doutor tirou a chave de fenda sônica que pertenceu (ou pertenceria) a River Song e a guardou em uma gaveta da TARDIS. Clara estava acordando, sentada no banco. Do mezanino da TARDIS, o Doutor observava Clara Oswald se levantar, imaginando, como seria quando ela também fosse só mais uma lembrança na vasta memória do Senhor do Tempo.