[COMIC CON EXPERIENCE] EDGAR VIVAR fala sobre Roberto Bolaños e a rotina dos bastidores de Chaves

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Por Cilon Mello

No painel mais emocionante do primeiro dia da CCXP tivemos Edgar Vivar – o mito mais conhecido por Zenon Barriga e Pesado (aposto que você não lembrava dessa, heim?) embora também fosse o Nhonhô nas horas vagas.

A coisa mais legal é que na época das gravações de Chaves e Chapolin – idos anos 70 isso – Edgar possuía uma câmera Super-8 e filmava os bastidores daquele que viria a ser um dos seriados mais míticos da televisão de todos os tempos.

Foi bastante impressionante ver como a Florinda Meza era incrivelmente linda na época – apesar da maquiagem de Dona Florinda fazer parecer que não – ou o quanto aquele pessoal fumava como se não houvesse amanhã. Sério, acho que não teve uma cena que um dos caras não estivesse fumando – mas bem, anos 70 né?

Edgar também comentou como começou a trabalhar com Roberto Bolaños: depois do estrondoso sucesso do esquete “Mesa Quadrada” Roberto teve carta branca da Televisa (não em pequena parte devido a ajuda de Ruben Aguirre, o professor Girafales) para tocar seus dois projetos que viriam a ser Chaves e Chapolin.

Devido a política da CCXP não é permitido filmar ou fotografar durante os painéis, então os posts serão ilustrados por outras imagens não menos épicas da Comic Con

Devido a política da CCXP não é permitido filmar ou fotografar durante os painéis, então os posts serão ilustrados por outras imagens não menos épicas da Comic Con

Naquele tempo a televisão mexicana usava muito o ponto eletrônico para seus atores, mas Roberto tinha uma formação teatral (com efeito, uma das suas maiores conquistas foi trazer para o elenco a grande dama do teatro mexicano, Angelina Fernandez – a bruxa do 71 – que era mais ou menos o equivalente dele à Fernanda Montenegro por aqui) e preferia que os atores decorassem as falas.

No teste para o papel, Roberto perguntou a Edgar se ele usava ponto eletrônico e Vivar respondeu “o que é isso?”. Imediatamente Bolaños disse que ele estava contratado.

Uma semana de trabalho na equipe de Bolaños normalmente era composta por um dia para ler o roteiro – escrito pelo próprio – e discuti-lo (os atores podiam dar suas próprias sugestões, o que sempre vale a pena quando temos gente como Ramon Valdez no elenco), ensaiar e outros quatro dias filmando. Eram gravados uma média de quatro episódios por semana.

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Outra coisa muito interessante no painel do Senhor Barriga foi que ele falou seus episódios favoritos: o episódio de Acapulco, o natal na casa do Senhor Barriga e o episódio que o Chaves e o Chapolin se encontram (que ele não participou, mas adora o episódio mesmo assim).

Falando sobre o episódio de Acapulco, Vivar contou que, apesar de ser um de seus episódios favoritos, foi o que, de longe, ele mais detestou fazer. Naquela época era alta temporada de verão em Acapulco e estava muito, muito calor.

O problema é que, como ele também fazia o Nhonho, ele tinha que fazer a barba e o bigode – logo, o bigode do Senhor Barriga era falso (aposto que você nunca tinha pensado nisso).  Acontece que, como estava tão quente naqueles dias, ele suava bastante, e o bigode não colava de jeito nenhum, e por isso tiveram que tacar mais e mais cola, até o ponto que ele começou a sangrar. Mas mesmo com a cara detonada por causa da cola ele mitou, e o resultado final todo mundo conhece.

Edgar não é estranho a se foder no set de Chaves, no entanto, pois ele contou que a maior parte das pancadas que recebia do Chaves eram reais e ele quebrou incontáveis óculos no programa (“não eram bons como os de hoje”, acrescentou). Na verdade, uma vez ele fraturou o cotovelo em uma queda para as gravações. Vidaloka o mocinho, heim?

Isso estava no estande de Senhor dos Anéis. Eu tenho bastante impressão que não lembro dessa cena... mas posso estar enganado

Isso estava no estande do Hobbit. Eu tenho bastante impressão que não lembro dessa cena… mas posso estar enganado

Por outro lado o episódio tem um valor sentimental muito grande para Vivar, porque foi um dos últimos momentos em que toda equipe do Chaves esteve junta pela última vez. Aqui no Brasil a gente não tem uma noção muito exata disso, mas naquela época a turma do Chaves fazia caravana pelo México e toda América Latina apresentando peças itinerantes de Chaves e Chapolin.

As cenas, filmadas com a Super-8 de Vivar, foram emocionantes, com a equipe sendo recebida por onde passava como se fossem os Beatles, estádios e arenas de tourada completamente lotados. Mas, mais importante que isso, aquele pessoal passava semanas e às vezes até mesmo meses viajando juntos.

Cabe lembrar que estamos falando dos anos 70 de um país de terceiro mundo, viagens de avião não eram tão rotineiras como são hoje, e assim eles passavam muito tempo na estrada viajando de van. Esta apresentação itinerante do Chaves rodou toda América, se apresentando desde o Madison Square Garden em Nova York até a Terra do Fogo, na Argentina. O único lugar que eles realmente não se apresentaram foi justamente no Brasil devido, naturalmente, à barreira do idioma (valeu ae, Tratado de Tordesilhas ¬¬).

Não, sério, eu acho que estou precisando assistir as versões extendidas dos filmes novamente...

Não, sério, eu acho que estou precisando assistir as versões estendidas dos filmes novamente…

Quando a série já estava consagrada no Brasil através do SBT, o Gugu fez uma matéria no México para conhecer a verdadeira equipe do Chaves (não julgue, naquela época não havia internet e as matérias do Gugu eram uma fonte digna de informação), e então o SBT arranjou para trazer a trupe do Chaves ao Brasil, sendo que eles fariam playback de uma gravação preparada pela equipe de dublagem.

Foi tudo acertado com a Televisa, o SBT pagou os cachês e tudo, mas na última hora Roberto Gomes Bolaños cancelou o projeto porque ele não achava certo enganar os fãs desta forma. Como já estava tudo pago, Roberto reembolsou a todos do próprio bolso.

E por isso o episódio de Acapulco é tão especial para Vivar, porque depois de tantos anos passando quase mais tempo com aquele pessoal do que com a sua própria família, este foi um dos últimos momentos que eles passaram todos juntos, antes que a vida os separasse por motivos que todos vocês sabem muito bem quais foram.

Antes de encerrar, ao som de boa noite vizinhança (que aliás tem outras versões nunca exibidas no Brasil, em uma delas a cena encerra com o Chaves caminhando na praia e um cachorro de rua, que aconteceu de estar ali, segue ele, segundo Vivar), Edgar falou também sobre Roberto Bolaños e como ele se sentia abençoado por ter trabalhado com alguém assim. Na verdade, ele disse uma coisa muito bonita sobre isso:

“Muitas pessoas podem entrar para a história, mas isso não quer dizer necessariamente algo bom. Se você perguntar quem foi Hitler, qualquer um vai saber dizer. Mas se você disser o nome de Roberto Gomes Bolaños as pessoas vão saber quem ele foi e vão lembrar disso com um sorriso. E isso não tem preço. Não fiquem tristes por ele, onde quer que ele esteja, está bem e deixou muitos sorrisos nos nossos rostos. Este é o legado dele. Sorriam mais. O mundo precisa de mais sorrisos.”

Embora a direção da CCXP vá negar veementemente, eu tenho certeza que ninjas foram contratados para cortar cebola no auditório e o ar foi desligado, porque os olhos de muitas pessoas suaram fortemente. Eu inclusive. Malditos ninjas, viu…

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One thought on “[COMIC CON EXPERIENCE] EDGAR VIVAR fala sobre Roberto Bolaños e a rotina dos bastidores de Chaves

  1. Nossa, terminei o post com olhos marejados. Que bacana a oportunidade de participar de um painel desse! Tão bonito ler esses relatos. Chaves marcou tanto a minha infância, assim como a de muita gente, que não tem como ler uma matéria dessa e não se deixar emocionar.

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