[COLUNA DO OCHÔA] Traduções bonitinhas, mas ordinárias

Nelson Rodrigues.

Jornalista. Dramaturgo. Cronista esportivo. Homem que elevou o futebol (do topo da sua semi-cegueira) ao status de arte épica e… quadrinista.

Na verdade abominava quadrinhos, mas, sabe como é, viver de letras é dureza e todo mundo tem seus boletos pra pagar.

Rodrigues era chapa de Roberto Marinho, sim, AQUELE Roberto Marinho, que antes de virar estandarte de protesto do pessoal das humanas era o jovem dono de dois jornais, o Globo e o Globo Juvenil.

E, até então, o maior divulgador dos quadrinhos no Brasil.

Não era pra menos, nos anos 30 simplesmente não existia criança que não lia o Globo Juvenil.

Nelson, recém-casado e com o salário de jornalista sempre na berlinda, pegava qualquer bico que aparecesse. Mesmo achando tudo aquilo muito ridículo, não teve dúvidas, abraçou o Globo Juvenil. O jornal infantil formato tabloide, que circulava três dias por semana com tiragem na casa dos milhares de exemplares, era tapado de quadrinhos. Tinha apenas dois redatores para a imensa carga de trabalho, Antônio Callado, que traduzia todas as tiras, e Nelson, que escrevia curiosidades inócuas sobre geografia, história e ciência. Provavelmente ninguém lia, mas servia para dar um verniz de cultura para aquela publicação tão mal-vista pelos pais.

Com problemas para obter material novo, disseram que os redatores iam ter que criar material para suprir as lacunas. Sem problemas, Nelson pegou o Mágico de Oz, grande sucesso do cinema da época, e começou a fazer sua própria versão do filme, uma bagunça que só vendo, com direito a mágico que vivia de pileque e leão, como direi, bem, em tempos politicamente menos corretos, completamente aviadado.

Sucesso absoluto, afinal, brasileiro tem a galhofa no sangue desde moleque. Tanto sucesso que Nelson, que, como disse, odiava muito tudo aquilo, teve que seguir com a aventura por mais seis meses depois do término.

Não parou por aí.

No meio desse processo, Callado saiu da redação do Globo Juvenil, ficando apenas Nelson. Perguntaram se ele dava conta, Rodrigues repetiu o mantra dos que vivem com pouca grana do bolso “sem problemas, damos um jeito”.

Mesmo com Callado sendo tradutor. E o conhecimento de Nelson do nobre idioma bretão se situando em qualquer ponto entre o nada e o porra nenhuma.

O que acontecia é que Nelson simplesmente inventava no ato todas as histórias, letreirando os balões à moda caralha, de acordo com o que via nos quadrinhos. Seguiu vendendo como água, e nenhuma criança notou nada, o que com certeza conta pontos contra o leitor de quadrinhos.

E bem, mais surreal do que imaginar que um dia o mundo comportou um Mágico de Oz feito pelo mesmo autor de A Vida Como Ela É, é também saber que, durante um bom tempo, foi esse homem que colocou falas na boca de Fantasma, Diana, Mandrake e Flash Gordon.

Não sei se essas edições existem ainda, mas eu adoraria ver essas histórias onde Fantasma chega na Caverna da Caveira apenas para pegar Diana no flagra com Mandrake e Lothar.

Pobre espírito que anda, não existe mulher sem pecado.


Leitura recomendada:

O Anjo Pornográfico:
Biografia de Nelson Rodrigues, escrita por Ruy Castro,
onde você encontrará esta e outras histórias  contadas em maiores detalhes.


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