[CINEMA] WHIPLASH (resenha)

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Como eu já havia comentado anteriormente, o festival de Sundance é meio que o Oscar do cinema alternativo, o mais popular (por mais contraditório que isso soe) dos prêmios para os filmes indie. Ele e eu não somos os melhores amigos, e hoje vou falar do grande vencedor do festival em 2015 e indicado ao Oscar: Whiplash.

Eu não só tenho um sério problema com essa coisa de que o cinema (ou qualquer mídia, na verdade) tem que “buscar a verdadeira arte”, como sei tanto sobre música, que até agora não faço a menor ideia de quem é esse tal de Beck que estão falando do Grammy. Saber o que é um contratempo (em termos musicais), então, está completamente além de mim.

Por isso Whiplash, um filme intimista sobre um baterista aspirante e seu professor buscando a batida perfeita, como já dizia Marcelo D2, parece totalmente para mim, certo?

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A primeira coisa que me chamou a atenção no filme é que o diretor Damien Chazelle foge das escolhas fáceis e tradicionais. O jovem Andrew (Miles Teller, o novo Senhor Fantástico) não é, ao contrário do que estamos acostumados a ver, um gênio incompreendido da bateria. Ele não é um diamante bruto esperando ser descoberto, ele não nasceu com um dom mágico que só precisa ser revelado. Andrew também não é carismático ou marcante de qualquer forma. Pelo contrário, ele é comum. Apenas normal, nada brilhante (estou me referindo ao personagem, a atuação do Milles Teller é ótima, e ele consegue ser um “chato interessante”, é importante ressaltar isso)

Com potencial? Talvez. Genial? Nah.

Em um filme comum, caberia ao seu mestre – o exigente senhor Fletcher (J.K. Simmons) pinçar esse talento bruto para a fama e sucesso, mas Whiplash não é um filme comum. Fletcher realmente dá uma chance de Andrew entrar em sua banda no conservatório (como se chama uma escola de música) mais prestigiada do país, mas “dar uma chance” é um eufemismo da minha parte, e Andrew não tira seu talento mágico do olho do cu para resolver tudo, ao invés disso, ele trabalha duro pra caralho para ser mais do que o merdinha apenas mediano que ele é.

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Essa batida está tão adiantada, que a Ubisoft está querendo lançar ela como o novo Assassin’s Creed!

Sabe, eu nunca tinha pensado música desta forma, mas tocar em uma banda é algo realmente tenso. Parece tão fácil quando vemos músicos consagrados tocando “no automático”, mas a verdade é que não existe tal coisa como “modo automático” na música, e a pressão de você não cagar tudo é muito, muito grande. Ok, talvez não seja, mas eu não entendo porra nenhuma de música, e o que importa é que o filme transmite muito essa sensação claustrofóbica de que música não é um passeio no parque, e sim um exercício de concentração desumano, ao mesmo tempo em que você tem que achar um espaço mínimo na métrica musical para você ser artista.

Parece complicado, mas é um filme que passa sensações complicadas.

Em determinada cena, um leigo pergunta para Andrew como se analisa quem vence em uma competição musical, já que música é algo subjetivo, e Andrew responde que música não tem absolutamente nada de subjetivo, com uma expressão de quem ouviu a afirmação mais idiota do mundo.

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Ficou, ó, uma bosta!

O filme é mais um dueto (ou um duelo, depende de como você vê a coisa) entre Andrew e seu professor Fletcher, e pode-se dizer, de certa forma, que eles são os únicos personagens do filme (seguindo sua proposta claustrofóbica), e que os outros personagens são apenas ferramentas para mostrar um ponto. Andrew e Fletcher usam as outras pessoas (às vezes conscientemente, às vezes não) como pedras pomes para afinar as capacidades de Andrew, e o brilhante do filme é que isso é feito em várias camadas diferentes e nem sempre conscientemente.

Se alguma coisa, eu diria que o filme lembra muito “Nascido para Matar“, de Kubrick, e é quase um filme militar, na parte em que o sargento fará o que for preciso para quebrar seus recrutas e transformá-los em soldados (ou neste caso, músicos) de verdade, e espere bastante deste nível de relação entre instrutor e aluno.

O ator J.K. Simmons fez uma excelente descrição do filme: “A maioria das pessoas pode se identificar de alguma forma. É sobre música, e música é maravilhoso, mas as pessoas relacionam com um filme de esporte, de ação. Poderia ser sobre dança ou estudo. Qualquer área é muito competitiva em altos níveis.”

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“Você, calado. Você, me passe o bacon.”

De fato, Whiplash é um filme sobre jazz, mas poderia ser sobre guerra, sobre o mundo empresarial, sobre estudos, ciência, ou até o cenário competitivo de Pokémon.

Então é isso, Whiplash é um excelente filme sobre uma relação doentia e destrutiva entre instrutor e aluno (como eu já disse, quase uma versão musical de “Nascido para Matar“), e seria um grande filme, mesmo se parasse por aí. Mas tem mais.

O POLITICAMENTE CORRETO E A CULTURA DA MEDIOCRIDADE

Se o filme “Nascido para Matar” fosse feito nos dias de hoje, “criaria polêmica” que o sargento instrutor lá deveria ser processado (ou qualquer que seja o equivalente militar disso), e que seria completamente inaceitável esse tipo de tratamento, que não seja algo completamente insípido e com censura livre.

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SO HARDCORE!

Todo mundo é tão sensível hoje em dia, que se você afirmar que o céu é azul, vai estar “criando polemica” por ofender os daltônicos, mas não se faz omelete sem quebrar alguns ovos, e o filme abre uma discussão relevante aos dias modernos neste sentido. Assim como podemos olhar Robocop hoje e ter uma noção de como as coisas eram pensadas nos anos 80, daqui a 30 anos poderemos olhar Whiplash e dizer “ah, era assim que as coisas eram da década de 10”.

A discussão é pertinente, e feita através de ótimos diálogos, mas, mais importante que isso, ter algo a dizer – e de uma forma inteligente e não algo intelectualóide e arrogante – engrandece o filme. evitando cair na vala comum que estraga muitos artistas menos mainstream de querer “fazer arte apenas pela arte”. ou qualquer bobagem que o valha.

Traga-me fotos da avatar Korra ou você está demitido, Parker!

EU SOU O HOMEM QUE VAI QUEIMAR SUA CASA COM LIMÕES SE VOCÊ NÃO ME TROUXER FOTOS DO HOMEM ARANHA.

Eu já afirmei diversas vezes que eu não entendo absolutamente nada sobre música. Então, como eu posso julgar se o Andrew é bom ou ruim, se ele está acertando ou errando, se ele é comum ou um gênio?

Tem mais de uma cena em que ele repete a mesma batida à exaustão, até acertar o tempo certo, mas como eu vou saber qual é o tempo certo para torcer por ele, ou ao menos entender o que está acontecendo?

É aqui que entra a atuação brilhante de J.K. Simmons. Simmons parece ter um dom natural para ser chefe/instrutor carismático (afinal, ele dublou o Cave Johnson de Portal 2, o  Tenzim da Lenda de Korra, e foi o J.J. Jameson dos filmes do Homem-Aranha). mas aqui ele entrega a atuação da sua vida.

9e2fbebfe118dc5cc33a7840a767ac7ad4532bb43ab481dc1dc686d2fdf47abdA Simmons é dada uma missão muito difícil, quase tão difícil quanto Eddie Redmayne teve em A Teoria de Tudo, que foi interpretar e passar emoções sem se mexer. Fletcher faz essa tradução linguística para o espectador que não entende música, dizendo quando Andrew está certo ou está errado, ou o que devemos esperar dele ou da cena, ao mesmo tempo em que tem que ser um personagem completo e funcional, que não transpareça que está fazendo essa função de “tradutor”, ao mesmo tempo que nos faz gostar e se importar com ele.

É como ter que fazer o discurso mais importante da sua vida, com toda a complexidade e dificuldade que um discurso envolve (que não é pouca, e já seria o suficiente para esgotar o mais brilhante dos homens), e ao mesmo tempo ele tivesse que equilibrar pratos na ponta de varetas.

Como ele conseguiu fazer os dois com maestria, é algo que está além da minha compreensão, mas Fletcher consegue ser um dos grandes personagens do cinema (coisa que poucos atores conseguem em sua vida toda), AO MESMO TEMPO que faz essa tradução para o espectador leigo em música de forma natural e orgânica, o que também por si só já seria um feito notável.

PROBLEMAS NO PARAÍSO

Whiplash é um excelente filme, tanto em proposta quanto em execução, mas tem uma coisa que impede que ele seja considerado perfeito, e não é uma coisa pequena.

Acontece que o filme gira em torno da relação destrutiva instrutor/aluno de Fletcher e Andrew, que flerta com a insanidade, e enquanto isso é uma boa ideia, o filme meio que exagera nesse aspecto. Acontece uma coisa um tanto forçada, e essa coisa em particular é o ponto de virada do filme inteiro, não é apenas uma cena que não fecha bem, e sim “A” cena que determina os rumos do filme, e é construída em cima de uma sequencia de eventos que quebra completamente a suspensão da descrença da coisa.

Todo ato final do filme é construído em cima de uma premissa que não faz sentido nenhum, e por mais favorável que se esteja ao filme, não tem como não pensar “Uou! Meça suas zoeiras, parça!

Em um filme que acerta tanto pelo seu comedimento, como por escolhas que não são os clichés fáceis de Hollywood, incomoda que sua espinha dorsal seja defeituosa. Apesar da falha na transição, depois de algum tempo o segundo ato volta a engrenar e funciona bem.

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Apesar disso, Whiplash é um grande filme, que acerta ao conseguir agradar nicho e público geral, com boa proposta, execução melhor ainda, e que tem algo a dizer. O filme é rápido, enxuto, no sentido que diz o que precisa ser dito em uma cena, e não em tomadas de 45 minutos sobre nada (por exemplo, a paixão de Andrew pela bateria é mostrada em uma foto dele criança tocando uma bateria de brinquedo, não em um monólogo de dois dias sobre isso). A regra de ouro da narrativa é levada a maestria aqui: não conte, mostre. Simbolismo bem aplicado, algo raro de se ver hoje em dia.

Quase não dá pra esperar muito mais do cinema que isso, só faltou um pouquinho mais de carinho com o roteiro.

nota-4

3 thoughts on “[CINEMA] WHIPLASH (resenha)

  1. Cara eu também adorei o filme, como músico pra mim ele é perfeito, convivi com muitos idiotas que achavam que deve-se drogar e encher a cara para compor por que o mito de tal artista conta isto como verdadeiro… a verdade dos grande músicos, aqueles que atingem o ápice é a do filme, voce tem que se matar de treinar e estudar, aprender covers, entregar sua vida completamente a música e TALVEZ… talvez voce de sorte e consiga fazer disso uma carreira… Eddie Van Halen que eu vejo como o último genio da música em algumas entrevistas diz exatamente isso, ele disse que passou sua adolescencia trancado em um quarto dissecando músicas de outros e aprendendo e desenvolvendo sua técnica inovadora enquanto todos os outros garotos estavam vivendo uma vida normal… a música faz isso… realcei o talvez anteriormente por que tenho um primo que toca piano, não teclado, piano de verdade, clássico, desde os 7 anos de idade, hoje ele tem quase quarenta anos, ele se formou em música clássica pela Unicamp, fez mestrado na Alemanha e o bacharelado na USC dos Estados Unidos fora os inúmeros cursos extra curriculares, ele vive em Los Angeles a quase dez anos e o trabalho dele é dar aulas e se apresentar esporadicamente… até os dias de hoje ele não conseguiu entrar em uma “banda” de conservatório mesmo com essa formação, pra se ter uma idéia da importancia e competitividade desse feito… enfim, voltemos ao filme…

    Whiplash pra mim é sensacional, JK Simmons é espetacular e Miles Teller me surpreendeu, aliás, em todos os filmes que assisti dele ele costuma me surpreender e acaba roubando a cena do protagonista…

    • Uma das críticas que eu vi ao filme foi que ele trata a música como qualquer outra habilidade humana: precisa anos de disciplina e repetição que desafia a sanidade para ser um mestre. Aparentemente as pessoas queriam que fosse tratado como algo mágico e que se resolve com 99% inspiração e 1% transpiração. Eu particularmente gostei da abordagem, mas como não entendo nada de música preferi não entrar no mérito

  2. Pingback: [VÍDEO] “Whiplash” estrelado pelo Animal dos Muppets é tudo que você precisa assistir hoje | NERD GEEK FEELINGS

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