[CINEMA] TROIA – Aquiles, Heitor e o preço de ser Imortal.

Há um conceito filosófico que pleiteia que o tempo é mesmo capaz de derrubar, destruir e, como contam na história da Gênese dos deuses gregos, seria o tempo a Entidade Cronos, capaz de devorar os próprios filhos. Disto isto, deveríamos ter o raciocínio lógico de que somos fadados a sumir como pó, ou menos que isso. Mas há algo especial que pode fazer com que os seres humanos se destaquem da linha temporal e escapem do fado de se tornarem meros mortais.
O que poderia ser tão forte a ponto de deslocar um ser humano como outros tantos milhões e fazê-lo morar na eternidade?

Posso estar errada, e que me perdoem os mais versados em filosofia, mas se eu não me engano, Alain Badiou, filósofo contemporâneo, vem nos trazer essa ideia com mais clareza – Embora ela realmente não pareça nova, necessitava de novas cores.

Esse conceito pode ser simples demais ou extremamente complexo, dependendo apenas das razões que motivam sua vida, das experiências que teve e das experiências que deseja ter: o que leva uma pessoa a tornar-se imortal é morrer por algo tão forte que vai além da existência vulgar, corpórea.

Seja morrer por amor, por amor a um ideal, por bravura, por glória, por uma ideia… A imortalidade custa caro, mas é a certeza de que seu nome (ou daquele que está disposto a pagar-lhe o custo) ficará na história, imune ao tempo.

E ao falar disso, é impossível não pensar quem Troia, filme de 2004 estrelado por Eric Bana, Brad Pitt e Orlando Bloom.

O longa metragem conta a história da famosa guerra entre Grécia (Mais especificamente a Cidade-Estado Esparta) e Troia. Ao contrário das guerras comuns (se é que guerras deveriam ou poderiam assim serem chamadas), a Guerra de Troia ocorre pelo mais tolo (ou o mais importante, quem sabe) dos motivos: Paris, o mais belo homem já visto, irmão de Heitor, Príncipe de Troia, se envolve com Helena durante os festejos de aliança entre Troia e Esparta. Teria sido uma bela história de amor, talvez, não fosse o problema pequeno, mas muito relevante de Helena ser esposa de Menelau, poderoso Rei de Esparta.

Basicamente, Paris, irmão mais novo de Heitor, por um capricho romântico, leva embora consigo a mulher de Menelau.
Nada que não se resolvesse com um esporro e uns cascudos nos dias de hoje, afinal, meter-se com mulher casada não é coisa inteligente.

Mas naquela época, a honra também era um requisito importante para a vida, a morte e até a possível imortalidade de um homem. Esse delito só se resolveria com sangue e, sendo Menelau o rei de Esparta, tinha ele como aliados políticos todos ou ao menos boa parte dos reis das Cidades-Estado.

Estava ali armada uma Guerra contra Troia. Tudo em nome de um moleque covarde cheio de vontades  do amor.

Mas, para que possamos mergulhar na ideia que nos leva ao pensamento da Imortalidade – também comentada amplamente em livro homônimo de Milan Kundera – há que se falar de uma peça importante nessa Guerra.

Talvez Ulisses tenha sido por demais importante ao fazer parte da batalha, por ser Ulisses (Odisseu) de Ítaca, o grande Ulisses. Mas nada pesou tanto nessa batalha quanto a fome de destruição de Aquiles (o Pelida, ou filho de Peleu).

Aquiles não apenas era um bom soldado e comandante. Era o melhor soldado, o mais importante comandante. O melhor estrategista, o mais bravo guerreiro. A morte não parecia capaz de tocar-lhe a armadura. Talvez Aquiles fosse o melhor por lutar por si mesmo e não por algum estúpido rei. E justamente por não lutar por reis, precisou que um amigo (antes amigo do que rei) fosse até sua terra e lhe convencesse a batalhar junto deles.
Odisseu, conhecedor da personalidade arredia do Pelida, usou de sua boa argumentação de rei para faze-lo entrar na batalha. Sem Aquiles, nada seria como foi.

E como foi, não houve igual.

Os bravos ficam conhecidos por seus atos de bravura. Os covardes, por sua covardia, e talvez por uma característica só importante às mulheres (até onde vai o pensamento no mundo clássico); Como bom covarde que se mostrou desde o início, Paris põe Troia a perder, e fica conhecido apenas por sua beleza sem igual, sendo citado ainda em razão do julgamento da mulher mais bela e o Pomo da discórdia em qualquer outro momento da literatura Grega.

Por outro lado, fazendo as vezes de bravo herói, temos Heitor, pai de Astianax, domador de cavalos, homem de bem, disposto a tudo para defender seu reino e sua família, que age com bravura do início ao fim, comprando a briga do irmão, lutando entre soldados, batalhando por viúvas, preocupado em manter o muros de Troia de pé.

As motivações de Aquiles são muito diversas das de Heitor: Heitor é o protetor, o braço forte do reino. Aquiles luta para morrer na glória, para que os homens comuns lembrem seu nome e o admirem.

Contudo, os grandes eventos provocam mudanças indeléveis nas pessoas. Mudanças que jamais seriam possíveis em outras situações.

Aquiles, em seu egoísmo à primeira instância, acaba arranjando motivações fortes de verdade para ir à luta – quando já não via razões para batalhar. Passa a lutar não por si mesmo, mas por amor a Pátroclo (morto em combate por engano), e posteriormente por amor à Briseida.
Assim, enquanto o bravo Heitor alcança a imortalidade por sua bravura de dar a vida em um combate de honra e defesa de sua Cidade-Estado, Aquiles torna-se destacável do tempo pela força do amor ao familiar Pátroclo, e por força do amor EROS a Briseida.

Ambos morreram em meio a tantos outros que também se deram por uma causa nobre, por amor, por fidelidade. Mas a coragem foi o que marcou com força o nome deles em algum lugar do espaço, fora da etérea roda do tempo.

E quanto a Paris?

Bom… quem nasceu pra Légolas…

Embora eu realmente não tenha conseguido guardar respeito algum por esse personagem no filme (já não lembro da parte literária. Faz 8 anos), devo admitir que a parte final foi interessante.

Paris não seria bravo o bastante para se aproximar de Aquiles. Mas ainda assim desejava vingança. Quando o filho de Peleu retorna a Troia em queda, para resguardar sua amada Briseida, Paris o atinge com diversas flechas, sendo a primeira delas no calcanhar.

É um detalhe sutil, mas a quantia de flechadas que Aquiles levou seria mesmo capaz de matar qualquer um. Mas duro combatente como era, o guerreiro arrancou todas as flechas de suas entranhas, despediu-se de Briseida e só então desfaleceu.

Uma flecha, contudo sobrou: a que estava alojada no calcanhar.

Claro que essa é uma interpretação livre, mas o filme talvez tenha dado ao espectador a escolha de ver essa peleja de forma mais realista: Aquiles não teria morrido por seu calcanhar, mas foi isso que pensaram os soldados quando o viram morto apenas com uma flecha.

Ainda mais um detalhe para aqueles mais perspicazes:

Ao fugir de Troia (porque é isso que Paris sabe fazer), ele entrega a um rapaz muito jovem a espada de Troia e lhe pergunta seu nome; O rapaz responde que se chama Eneias. Ao entregar a espada, Paris lhe dá o dever de com ela fundar um lugar melhor para os sobreviventes de Troia.

E aí, abrimos espaço para a Eneida.

Bom… mas essa é ainda outra história sobre imortais.