[CINEMA] Transcendence – A Revolução: Resenha

“Penso, logo existo”, já dizia o filósofo René Descartes. Mas o que significa “pensar”? O que diferencia um ser consciente de algo que somente parece pensar? E se essa nova mente for muito superior à nossa, tornando-nos obsoletos?

Essas perguntas são o fio condutor de Transcendence – A Revolução, produzido por Christopher Nolan e dirigido pelo estreante Wally Pfister (que colaborou com Nolan como diretor de fotografia em vários trabalhos, inclusive a trilogia Batman e Inception). No filme, Johnny Depp é Dr. Will Caster, um brilhante cientista da computação que, próximo da morte, tem sua mente copiada para dentro de um sistema avançado de inteligência artificial, com consequências imprevisíveis. O elenco conta também com Rebecca Hall (de O Grande TruqueHomem de Ferro 3) como Evelyn a obcecada esposa de Caster, Paul Bettany (O Código Da Vinci, Coração de Cavaleiro e a voz do JARVIS, do Homem de Ferro) como seu colega Max, Cillian Murphy (o Espantalho de Batman Begins) como um detetive que não faz praticamente nada, Kate Mara (a Zoe de House of Cards) como uma terrorista anti-tecnologia e, claro, uma participação especial de Morgan Freeman como mentor de Caster.

Para mim, a única pergunta realmente relevante que qualquer resenha de filme deveria fazer é: Pra quem esse filme foi feito? Afinal, a gente lê essas coisas esperando saber se a obra é do tipo que a gente gosta. E, nesse aspecto, acho difícil encontrar qualquer resposta além de “para aficionados pelas temáticas de inteligência artificial e singularidade tecnológica” (no que eu me enquadro perfeitamente, diga-se de passagem). Mas, nos termos mais gerais que regem o mercado consumidor de cinema, Transcendence parece não saber muito ao certo a que veio. Ele tem um pouco de ação, mas que nunca chega a atingir o potencial que promete. O que tem de romance na história (entre Evelyn e Will Caster) não se desenvolve o bastante pra quem curte a temática, e a levíssima sugestão de triângulo amoroso envolvendo Max, que poderia apimentar um pouco as coisas, não vai a lugar algum. O suspense gerado pela estranha evolução da inteligência artificial é interessante, mas não sei se basta pra prender a gente por duas horas – tampouco o plot parcamente explorado da “revolução” anti-máquinas. Em outras palavras: se tem uma expressão que resume bastante o filme, é “potencial pouco explorado”.

Não adianta fazer cara de bunda... só entreguem o que vocês prometeram!

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No entanto, pra quem conhece o conceito de singularidade tecnológica (leia alguns pensamentos meus a respeito aqui), ou simplesmente se interessa por inteligência artificial e quer ir um pouco mais a fundo no tema, o filme traz discussões bastante interessantes – ainda que, novamente, não tenham sido exploradas tão a fundo quanto talvez poderiam ser. Resumidamente, a ideia da singularidade diz que, no momento em que conseguirmos criar uma inteligência superior à de qualquer ser humano (geralmente através de inteligência artificial; entretanto, meu artigo citado acima considera outra possibilidade), essa inteligência poderia por sua vez criar outra mais inteligente do que ela mesma, e assim por diante, em uma progressão exponencial que levaria a uma “explosão de inteligência” em um período muito curto. (Outra maneira de haver tal explosão, que é o que ocorre no filme, é a inteligência artificial simplesmente aumentar seus recursos computacionais e aprimorar sua própria programação.) Isso, por sua vez, levaria a uma “explosão” semelhante de avanços tecnológicos e científicos, o que poderia mudar o mundo radicalmente em pouquíssimo tempo.

Apesar de ser um conceito que já remonta à década de 1960, a singularidade tecnológica, enquanto transformação profunda da humanidade em um curto espaço de tempo devido à explosão da inteligência, é algo pouco explorado pelo cinema, que geralmente se atém mais ao conceito das máquinas superando os seres humanos e exterminando-os (O Exterminador do Futuro) ou escravizando-os (Matrix). E, nesse aspecto, Transcendence faz um bom trabalho ao mostrar a velocidade alucinante com que Dr. Will Caster, já dotado de uma mente eletrônica avançadíssima e em constante expansão, passa a criar tecnologias cada vez mais sofisticadas, tornando-o vastamente mais poderoso do que quaisquer potenciais inimigos. Seria ótimo se não fosse a vocação para empata-foda desse filme, que mostra as tecnologias mas não chega a mostrar uma sociedade transformada por elas, que é o principal mote da singularidade.

Repare no Elon Musk, o Tony Stark da vida real, ali na plateia

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O outro tema predominante de Transcendence, o questionamento sobre se uma inteligência artificial é realmente consciente e, mesmo que seja, se é a mesma pessoa que existiu antes em carne e osso – isso no caso de “upload” do cérebro para um meio eletrônico (como ocorre com Will Caster) – é discutido mais profundamente ao longo da história. Sem entrar no mérito do Dr. Caster em si (tem o filme todo pra isso), a discussão lembra muito a questão do “quarto chinês“, do filósofo John Searle. Basicamente, é uma analogia à inteligência artificial, na qual temos dentro de um quartinho um sujeito que não sabe absolutamente nada de chinês, mas que tem um “manual de instruções” (o qual ele compreende). Através de uma fresta na porta, ele recebe papéis com frases escritas em chinês; seu manual diz exatamente qual resposta ele deve dar para cada sequência de caracteres, a qual ele seleciona de uma série de cartões e devolve através da fresta. Se houver um chinês do lado de fora, conversando com o sujeito por escrito, o chinês vai achar que a pessoa que está ali dentro sabe falar chinês, quando na verdade não sabe. Da mesma maneira, argumenta-se, o fato de um computador aparentar inteligência não necessariamente significa que ele seja consciente. Claro, pode-se argumentar o contrário – que um computador que funcione de maneira equivalente a uma inteligência humana é, sim, inteligente (ou que, no caso do quarto chinês, a pessoa dentro do quarto não sabe chinês, mas o manual sabe).

No final das contas, o que temos aqui é um filme bastante instigante… mas que não faz muito além de instigar. Ele traz temas fascinantes à mesa, mas não chega a se aprofundar tanto assim neles, servindo mais como ponto de partida para uma discussão mais a fundo (que eu pretendo ter aqui mais tarde, por conta de uma grande notícia envolvendo inteligência artificial – se o filme não tivesse saído antes dessa novidade, daria pra dizer que foi lançado agora de propósito). E, tirando essa parte, é um filme bem mais ou menos. Assista se você tem curiosidade sobre a singularidade tecnológica ou sobre o que significa ter uma consciência, mas não espere grandes revelações.

Nota: 6/10