[CINEMA] THE GRAND BUDAPEST HOTEL (resenha)

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O Grande Hotel Budapeste é, entre os filmes indicados ao Oscar este ano, o queridinho dos cinéfilos e críticos de cinema. Mas para o Zé comum que não sabe citar 5 diretores de fotografia do cinema dos anos 40, como eu e você, o filme tem alguma relevância?

Vamos a isso…

GRAND BUDAPEST HOTEL_426.jpgA COMÉDIA QUE NÃO É ENGRAÇADA

O mais perto que se pode classificar o filme é que ele é uma comédia, mas não no sentido tradicional da palavra. Não existe nenhuma piada, nenhum non-sense ou quebra da realidade, e o filme não vai te fazer rir em nenhum momento. É meio difícil explicar, então permita-me dar um exemplo.

O filme se passa no leste europeu, no país fictício de Zubrowka. Uma coisa que é popularmente conhecida do leste europeu são as matrioskas, aquelas bonecas russas que são uma boneca dentro da outra, e em referencia a isso o filme também é uma história dentro da outra.

Esse é o seu tipo de humor, e ele permeia todo o filme com referencias e coisas “absurdas”, mas que o imaginário popular diz que devemos esperar do leste europeu. Na camada que realmente importa da matrioska, o filme conta a história do Grand Hotel Budapeste, e de como um simples mensageiro  imigrante chamado Zero acabou dono dele.

o-grande-hotel-budapeste-wes-anderson-3Esta história envolve muitos acasos, coincidências, trapalhadas e ocasiões do destino, e o filme é cômico sem ser engraçado. Se alguma coisa, o filme lembra o ritmo esquisito de Napoleão Dinamite, e aquele ar de esquisitice européia, que é tão característica da série do Professor Layton. Eu sei que nesse momento os cinéfilos estão se retorcendo em raiva por eu não reconhecer que é uma referencia ao cinema pós-neo-ubber vanguardista dos anos 20 do sudoeste das Ilhas Canárias ou algo do tipo, mas é o que temos para a janta.

DOUTOR VOLDEMORT E PANELA VELHA É QUE FAZ COMIDA BOA!

A grande atração do filme é, sem dúvida, Monsieur Gustav, o personagem de Ralph Fiennes que, se alguma coisa, seria digno de ser uma regeneração do Doutor (quem?). O gerente do hotel e mentor de Zero tem seu próprio senso de lógica, noções de prioridades que fogem do senso comum, fala rápido, e consegue transformar mesmo as ordens mais mundanas, em uma poesia semi-engraçada.

m gustav ja comeu

“Já comi.” – Lord Voldemort

Todos os personagens, sobretudo os grandes nomes na produção como Edward Norton, Adrien Brody, Willem Dafoe, Jude Law, Jeff Goldblum e até mesmo os breves cameos de Bill Murray e Owen Wilson, seguem essa estética de “humor de cinema europeu”, com personagens caricatos na medida certa, e com um timing que corteja o absurdo sem realmente chegar as vias de fato.

Mas, embora todos sejam competentes em seus papéis nesta tragicomédia de erros, Ralph Fiennes realmente merece todos os louros e cupcakes a ele oferecidos.

A trama gira em torno de um quadro que vale milhões de kublecs, e que foi deixado para ele por uma das suas amantes octagenárias em seu testamento, mas não se a maligna família dela puder impedir!

ENTÃO SOBRE O QUE É O FILME EXATAMENTE?

Hmm, essa é uma pergunta difícil. Vê, neste ambiente semi-cômico as coisas vão acontecendo como uma bola de neve, e os desdobramentos dos desdobramentos que levam ao final que você já espera (até porque é o próprio Zero como dono do Hotel que está contando a história), mas é realmente difícil ter um ponto ao qual se agarrar.

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Fácil a melhor cena do filme, envolve uma fuga da prisão e picaretinhas muito pequenas. Não tem o que não gostar.

Não é ruim o suficiente para que você desligue o cérebro e fique entediado, mas também não é bom o bastante para que você se importe. Há o roubo de um quadro, uma fuga de prisão trapalhona, tiroteio entre nazistas, tudo muito conectado dentro do filme, mas você apenas assiste com um sorriso bobo, parecido com um solução, enquanto o caos segue em frente com toda a calma do mundo.

O filme é vagamente baseado no livro de um judeu (Stefan Zweig) que fugiu da Áustria em 1934, mas se me perguntarem sobre o que seria o filme eu não saberia responder. Sim, com certeza o filme é lindo e impressionante, mesmo para quem não tem certeza do que semiótica significa, mas por mais “artístico” que ele seja, enquanto as coisas acontecem o filme não dá muito para o espectador pensar ou sentir. As coisas simplesmente vão acontecendo (em uma métrica cinematográfica quase perfeita), mas isso é tudo.

Por exemplo, em determinada cena, Willem Dafoe joga o gato do Jeff Goldblum pela janela, e quando o Jeff vai ver pela janela tem um gato cartunizado morto lá embaixo. Eu fiquei confuso, isso deveria ser engraçado? Eu deveria ficar chocado? Refletir sobre a frugalidade da vida?

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Oi gata, você é diabética? Porque agora eu fiquei doce, doce, doce…

O filme é repleto de cenas assim e, enquanto eu entendo que o filme tenta ser cômico e trágico ao mesmo tempo (e eu realmente gosto de misturar doce com salgado, pode perguntar a qualquer um que me conheça), eu não acho que consiga atingir nenhum dos dois em nenhum momento. Ou consegue qualquer coisa realmente.

Meio que dá pra imaginar o diretor Wes Anderson parado diante de uma tela em branco, aí ele inspira profundamente, e dá uma pincelada quase aleatória na tela. Ele exclama, quase às lágrimas, “ARTE!”, e então volta a ficar em silencio pelas próximas 4 horas, enquanto “artisteia” sua próxima pincelada genial.

RAZZLE DAZZLE THEM!

Embora possa parecer, eu não estou dizendo que o filme é ruim. Apenas que ele não é bom, mas existem muitas coisas que depõe a favor dele mesmo assim.

02GRAND1-jumboA primeira é que o filme é visualmente muito atraente. Você não sabe se está assistindo um filme ou uma peça de teatro filmada – as atuações e o cenário são exageradamente teatrais. Embora o filme não seja sobre nada em particular, o hocus pocus levantado pelo diretor e pelos atores em suas falas verborrágicas quase nonsense consegue te fazer esquecer isso, e as cenas entretêm durante a duração delas.

O filme evoca bastante o clima e o ambiente das comédias mudas de Buster Keaton e os Keystone Cops, e com efeito, a maior parte das poucas cenas de ação do filme parecem ter sido tiradas justamente dessa época. Enquanto um cinéfilo de carteirinha está molhando as calças em seu quinto orgasmo multiplo por esse tipo de referencia, para o espectador comum não é ruim realmente, porque são cenas que sustentam sua duração.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=YKmpHvOzlxE]

Existem diversas outras referencias cinematográficas neste filme em iluminação, maquiagem, edição e sonoplastia que eu confesso ser ignorante demais para perceber, mas imagino que, para quem manja das cinemagens, deve ser um espetáculo ululante. Para quem não, como eu, é apenas legalzinho. Sem muito proposito, mas bacaninha.

nota-3