[CINEMA] ARRIVAL (A Chegada) – A Comunicação é a Primeira Arma em um Conflito.

Para falar do que não é tão claro, precisamos começar pelo óbvio. E é nesse momento que notamos, de uma forma até bastante contundente, que conseguimos perceber temas simples como matérias verdadeiramente complexas.
Por que digo isso?

Se você assistiu a “A Chegada“, sabe que a desconstrução daquilo que é mais elementar pode ser feita a partir de questionamentos existenciais.

A Chegada tem como temática preponderante a visita inesperada (talvez não tão inesperada pelo Giorgio Tsoukalos) de alienígenas na Terra. Poderíamos, apenas a partir dessa primeira camada de enredo, ter uma fantástica história a ser desenvolvida, mas cujas sendas talvez não possamos imaginar agora.

Posso apostar que não teria muito a ver com Independence Day.

O que faz com que as pessoas queiram de fato assistir a esse filme, e que sua notoriedade se torne cada vez mais espantosa (ainda, depois de tanto tempo desde a estreia), é o princípio mais belo da ficção científica, que é extremamente bem aplicado no longa metragem: O filme, a todo momento, e em cada cena, faz questão de mostrar um lado filosófico que busca questões humanas primordiais, básica… e, claro… óbvias.

Isso é algo perceptível, em um primeiro nível de análise, pelo enredo em si. Mas aos que têm a sensibilidade de catar nas grandes histórias os pequenos detalhes, A Chegada é uma “Chegada” também a pontos de questionamento humano. Essa carga mais subjetiva fica comum na fotografia (uso das cores, enfoque no rosto de cada personagem, a trilha sonora) que vai fundo na alma daquele que experimenta o filme. Até mesmo na maneira como os diálogos são travados; Até mesmo os silêncios, que possuem um peso semântico incrível…. A humanidade está escrita em muitas de suas faces em um filme que fala de um contato de sétimo grau com Aliens. Mas um primeiro contato linguístico.

E talvez uma grande ironia seja a necessidade do contato do Homem com um outro mundo para que surjam questões que nada tem a ver com Aliens. Esse filme, mais sobre pessoas do que sobre extraterrestres, acaba abordando temas surpreendentemente humanos. Não há batalhas épicas, nem cidades inteiras sendo destruídas ou explosões colossais. Há silêncios, medo perante o desconhecido, fragilidade, fascinação, sorrisos, hesitação e luto.
A suposta invasão é explorada tanto em uma escala global, de preocupações de líderes mundiais e tentativas de chegar a um consenso, quanto em um nível profundamente pessoal, mostrando como algo grandioso afeta pessoas comuns.

Nesse ponto também é preciso elogiar A Chegada, pois ao contrário da maior parte dos filmes do gênero, existe uma comoção geral, e não apenas um ponto de heroísmo Norte-Americano (afinal, só Americanos podem salvar o mundo, né?). A sensação de insegurança e de incerteza se espalha amplamente.
A história reflete como pequenas escolhas ou detalhes do passado de alguém podem ter um impacto duradouro e inestimável. Ela mostra como fatos que podem parecer irrelevantes dentro de um contexto maior, como um nascimento ou a perda de um ente querido, podem mudar a nossa percepção do mundo de diferentes maneiras.

Quando 12 naves espaciais chegam à Terra, diferentes países reúnem os mais diversos profissionais em uma missão de responder uma única questão: O que os aliens querem. Nos Estados Unidos, uma linguista, Louise Banks (Amy Adams), é recrutada como uma das colaboradoras para fazer com que a comunicação entre humanos e os seres de outro planeta aconteça.

Louise, uma Estudiosa das línguas e dona de inteligência notável, é nosso foco aqui. Embora a estudiosa não tenha tido nenhuma espécie de treinamento militar (normalmente requerido para tratar de qualquer assunto “Espacial”), é ela a pessoa mais capaz de montar o quebra-cabeças comunicativo. A introdução de uma pessoa que estuda a Filosofia da Língua ou a ciência da Língua é não apenas um diferencial, mas algo essencial à reformulação de ideias das pessoas no que tange à importância da comunicação em sua forma menos valorizada: A língua.

Sou linguista e costumo dizer em minhas aulas que todo falante de qualquer linguagem carrega nesse conjunto de códigos um universo inteiro. Ao aprendermos qualquer idioma (ainda que seja nossa língua mãe) formamos identidade forte com aquilo que nos faz pertencentes ao lugar em que nascemos ou fomos criados, assim como apenas somos capazes de formar os pensamentos por meio da comunicação aplicada (seja ela em pensamentos, silenciosa, escrita, desenhada ou expressa em voz alta). Em resumo, o estudo de um idioma, qualquer que seja, não é, e jamais poderá ser, apenas a decodificação ou tradução eficiente e automática de outro “falar”, mas uma compreensão ampla de um outro universo inteiro.
Se pensarmos na função de Louise – basicamente, compreender e interpretar o que os Aliens gostariam de dizer verdadeiramente, podemos fazer uma leitura muito mais profunda do que apenas pensar em Louise como um instrumento de intermediação entre homens e ET’s. Embora pareça um trocadilho, Louise está desvendando um universo ao tentar contato com o que vem de lá. Com apreensão, medo do desconhecido e também um leve fascínio por todas as possibilidades que acabam de surgir diante dela, a linguista vai além da capacidade de traduzir. E é a partir da compreensão de pensamentos tão diversos dos nossos que surgem os questionamentos mais intensos do filme.
A Chegada tem um ritmo lento, que acentua a difícil missão de conseguirmos nos comunicar com seres totalmente desconhecidos. Cada dia que passa, cada pequena evolução da protagonista, é seguido de inúmeros questionamentos burocráticos e pressão para que ela chegue logo a uma resposta.

Uma pergunta feita com as palavras erradas, ou traduzida de maneira ambígua, pode gerar uma guerra entre humanos e aliens, ou mesmo entre todos os países que estão envolvidos no esforço de aprender o objetivo dos seres extraterrestres.

Só que há a urgência do mundo e de outra questão humana primordial, óbvia, mas impensada: a sobrevivência (não a própria sobrevivência, mas a preocupação com a humanidade como um todo). A população fica cada vez mais apreensiva com as grandes naves que chegaram em diferentes países e as intenções dos seres de outros planetas. Com a pressão popular, o governo precisa agir, mesmo que não tenha informações suficientes.

A trama usa esse inquietamento para questionar decisões que tomamos por impulso, por medo do desconhecido, e pelo foco no individualismo a que estamos acostumados. São temas atuais abordados por uma lente de ficção científica.

E como precisamos falar dos Aliens: Os alienígenas em “Chegada” são espetaculares, e isso não é pouca coisa. Na maioria dos filmes de “primeiro contato”, ou de diversos níveis de contato, as criaturas do outro mundo quase sempre nos decepcionam por ter um comportamento predominantemente colonialista ou beligerante. Estranho, na verdade, é que nos decepcione que eles quase sempre tenham atitudes iguais às nossas.

Carlos Huante testou muitas iterações com o diretor Denis Villeneuve antes de estabelecerem o projeto final de “Arrival”.

A Chegada não se baseia unicamente em um plot twist, um único ápice que irá ser o grande desfecho. Não há realmente Spoilers.

O filme tem uma história rica, bem estruturada, cheia de nuances, e que cresce em uma narrativa que explora muito bem suas pausas e seus silêncios. Ele é tão cheio de detalhes visuais que, em algumas cenas, é quase possível sentir o cheiro do ambiente. Certamente garantiu um lugar entre os melhores do ano.