[CINEMA] Solaris: A Odisseia Espacial de Tarkovsky Pela Psique Humana

Amanhã estréia Interestelar, mais um aguardadíssimo filme de Christopher Nolan, o “Midas de Hollywood”. O filme vem sendo elogiado por cineastas importantes, entre eles Paul Thomas Anderson e Quentin Tarantino, que chegou a compará-lo a Terrence Malick e Andrei Tarkovsky. Tal declaração me levou a “garimpar” a crítica abaixo, sobre o filme de ficção científica Solaris, de Tarkovsky, a mais provável referência usada por Tarantino para fazer sua comparação:


 

solaris_1972_andrei_tarkovsky_criterion-collectionTítulo original: Solyaris
Direção: Andrei Tarkovsky
Roteiro: Fridrikh Gorenshtein e Andrei Tarkovsky
Elenco: Donatas Banionis (Kris Kelvin), Natalya Bondarchuk (Hari), Jüri Järvet (Dr. Snaut), Sos Sargsyan (Dr. Gibarian), Vladislav Dvorzhetsky (Henri Berton), Anatoli Solonitsyn (Dr. Sartorius)
Ano: 1972
Duração: 167 min.

“Não queremos conquistar o espaço. Queremos expandir a Terra infinitamente. Não queremos novos mundos; queremos um espelho. Buscamos um contato que jamais alcançaremos. Estamos na tola posição de um homem lutando por um objetivo que teme e não deseja. O homem precisa do homem!” – Dr. Snaut

Há quem considere Solaris uma resposta soviética ao americano 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Tarkovsky afirmava não ter assistido o filme dirigido por Stanley Kubrick antes de produzir sua aclamada ficção científica, e que, quando o fez, achou a produção americana “estéril”. A verdade é que, exceto pela maneira extremamente subjetiva com que ambos os longas abordam o contato de seres humanos com inteligências alienígenas, e algumas reflexões filosóficas levantadas por suas tramas, tanto em estilo quanto em conteúdo há grandes diferenças entre eles.

Solaris possui identidade própria. Sua história é mais voltada para as implicações psicológicas decorrentes da falta de interação humana em um cenário alienígena que, por sua vez, parece tirar proveito desta ausência para estudar a natureza dos que estão ali para estudá-lo.

O título do filme é o nome de um planeta descoberto e explorado pelos russos. Segundo relatos de astronautas que lá estiveram, o oceano de Solaris é na verdade um enorme organismo que cobre grande parte de sua superfície, e funciona como um cérebro, capaz de comunicar-se com seres humanos gerando materializações baseadas em memórias retiradas de suas mentes. Neste sentido, Solaris é como o abismo da famosa frase de Nietzche, que quanto mais é encarado, mais profundamente olha o interior de quem o encara.

Apesar do alarde gerado por este primeiro contato, a grande maioria dos responsáveis pelo empreendimento científico vê os relatos de quem esteve lá com desconfiança, desencorajando novas viagens exploratórias. Décadas se passam, e os russos perdem o interesse de continuar suas pesquisas no planeta, limitando-as a uma estação orbital composta de uma equipe de apenas três cientistas.

A história do filme começa do ponto em que um dos cientistas da estação morre sob circunstâncias misteriosas, levando o programa espacial russo a escalar o psicólogo Kris Kelvin (Donatas Banionis) para substituí-lo.

Tarkovsky não tem pressa para chegar ao ponto onde Kris finalmente entra na estação que servirá de cenário para a maior parte da história. O primeiro ato, que ocupa quase um terço da duração do filme, se passa na Terra. Nele vemos o protagonista andando serenamente pelas cercanias da casa de campo de seu pai. A câmera do diretor examina com cuidado as plantas, árvores, um riacho, servindo ao propósito de subjetivar o último contato do protagonista com uma paisagem terrestre antes de sua viagem espacial.

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Mais tarde temos nosso primeiro acesso a informações sobre Solaris através de relatos gravados décadas atrás (a data não é especificada), nos quais Henri Brenton (Vladislav Dvorzhetsky) descreve os estranhos fenômenos que presenciou enquanto sobrevoava a superfície do planeta em busca de cientistas desaparecidos em uma missão exploratória. É neste ponto que Tarkovsky apresenta o primeiro indício do exercício estilístico que realizará em toda a película. A fotografia muda para uma monocromia azulada, buscando diferenciar o passado do presente. Até aí nada que desperte muita atenção. Porém, conforme a trama se desenrola, notamos uma variação fotográfica que passa a pontuá-la até sua conclusão, e releva-se como a principal chave fornecida por Tarkovsky para desvendarmos a história e seus personagens.

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Examinemos com especial atenção algumas destas variações fotográficas.

Reparem como o filme começa com uma fotografia de cores naturais, sem nenhuma intervenção de filtros, salientando o contato direto de Kris com a paisagem por onde caminha.

Mais adiante na história, logo após rever as filmagens de seu relato, e deixar a casa de campo em direção à cidade, notem como as cores da viagem de Brenton são artificiais, a fim de destacar a presença da tecnologia em contraste com o cenário bucólico que deixou pra trás. E mais, observem como os closes no rosto do ator no interior do carro permanecem monocromáticos, reforçando que sua mente ainda permanece sob efeito das memórias de um passado que ainda o assombra, revisitado através do vídeo que assistiu ao lado de Kris.

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Já na cena onde Kris queima documentos e lembranças físicas variadas de sua vida na Terra, a fotografia monocromática pode gerar estranheza num primeiro instante, mas ganha significado quando levamos em conta o aspecto quase ritualístico do ato. Simbolicamente aquele momento representa seu gradual desligamento da natureza que o cerca, e o rompimento de sua conexão com seu planeta natal e seus familiares. Notem como ele conversa com o pai e a tia mantendo certa distância física e emocional. Além disto, a monocromia também remete ao relato filmado de Brenton, uma memória recente que lhe causou forte impressão.

Algumas escolhas mostram-se óbvias mas, ainda assim, eficientes, como o vermelho nas paredes da estação indicando uma presença ameaçadora e perigosa, e a brancura quase onipresente do quarto de Kris, refletindo a impessoalidade do cenário, e o isolamento físico e emocional que o acomete ao descobrir-se num ambiente nada acolhedor. A cor branca torna-se funcional mais tarde, ao refletir em sua superfície outras cores indicativas da influência do oceano de Solaris sobre a mente de Kris.

Outro detalhe que pode gerar estranheza, e até ser visto como deficiência do roteiro e das interpretações, é a maneira fria e superficial com que os dois cientistas remanescentes interagem com Kris. Pouco descobrimos sobre eles, apenas que o Dr. Sartorius (Anatoli Solonitsyn) é mais arisco e obcecado por seu trabalho, sempre trancado em seu laboratório realizando experimentos, enquanto o Dr. Snaut (Jüri Järvet) é o mais passivo diante da situação em que se encontram, aceitando-a e usando-a como meio de refletir a respeito do significado daqueles fenômenos não somente para eles, mas para toda a humanidade que os três ali representam.

Kris naturalmente é o personagem explorado com mais profundidade pela trama. É através dele que descobrimos mais a respeito de Solaris. A partir de seu contato com Gibarian e Snaut concluímos que a carência física e emocional daqueles homens está diretamente relacionada às materializações que vem “assombrando” a estação, algo que se confirma mais tarde quando Kris entra em contato com uma manifestação intimamente ligada a ele.

O suspense que conduz à primeira aparição de Hari (Natalya Bondarchuk) é bem construído por Tarkovsky. Primeiro vemos Kris assistindo os últimos “vídeo-diários” gravados pelo Dr. Gibarian (Sos Sargsyan), pouco antes de seu falecimento. Em seguida, a fotografia fica monocromática, comentando a impressão que o vídeo causou em Kris. Depois torna-se preta e branca, ganhando ainda mais contraste e expressividade assim que ele adormece, dando um aspecto lúgubre ao quarto, para, na cena seguinte, sermos surpreendidos pelos tons quentes e aconchegantes que invadem o ambiente assim que temos o primeiro vislumbre de Hari. É importante também notar que as cores presentes tanto nesta quanto na segunda manifestação/ressurreição de Hari remetem diretamente à cor do oceano de Solaris.

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A capacidade regenerativa que Hari apresenta mais adiante é outro detalhe que não pode ser ignorado. Sendo ela a materialização de uma memória persistente de Kris, seu “poder” provém da vontade inabalável do protagonista em preservá-la, daí o fato de ela sobreviver a ferimentos físicos que não alcançam a profundidade psicológica necessária para afetá-la de maneira irreversível. E, o mais importante, é através dela que a ligação entre Solaris e o psicólogo se fortalece.

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Esse fortalecimento dos laços afetivos entre Kris e Hari é bem trabalhado pela trama. No início o psicólogo trata Hari friamente, sabendo de sua verdadeira natureza, e temendo envolver-se com algo/alguém que não é o que parece ser. Porém, após a segunda vinda de Hari, Kris muda de atitude, inicialmente movido pela culpa, até admitir sua própria carência afetiva. Assim, ele se deixa envolver cada vez mais por sua lembrança manifesta.

O homem como um ser que necessita do outro para manter-se são e consciente de sua própria individualidade é uma ideia recorrente na psicologia, e um conceito importante abordado pelo filme através da interação de Kris com Hari/Solaris, que chegam ao ponto de desenvolverem uma espécie de conexão telepática. Daí a cena próxima ao fim, na qual Kris é conduzido por múltiplas e simultâneas manifestações de Hari para dentro de uma memória sua (indicada pela fotografia em preto e branco) onde reencontra sua falecida mãe (o primeiro “outro” com que o ser em desenvolvimento tem contato após nascer). É a partir deste reencontro onírico que Solaris passa a ter pleno acesso às memórias de Kris, essencial para a compreensão da atordoante conclusão do longa.

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Snaut fala sobre o surgimento, muito sugestivo, de ilhas no oceano de Solaris, que acabam por confirmar as impressões do cientista sobre as aspirações humanas. Em face da revelação final de Solaris, não chega a ser absurdo pensar que ali reside a inspiração que levou Tarkovsky a criar sua própria “ilha de memórias” três anos depois, em um de seus trabalhos mais pessoais. Coincidência ou não, seu título seria O Espelho (Zerkalo, 1975).

Nota 10