[CINEMA] – Samurai X – Rurouni Kenshin (live action, 2012) [link para assistir incluído]

Antes de mais nada, antes mesmo de desejar feliz ano novo e todas bichornagens adjuntas, vou colocar o link aqui para liberar as boas almas atraidas pelo vortex negro do google:

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Dito isso, vamos aos trabalhos.
Até onde me consta a adolescencia vem com um pacote intrinseco de coisas das quais você não pode se livrar e uma das mais constrangedoras é o a quantia de LIXO ABSOLUTO que você gostava e que se for pensar hoje não há nada senão DOR E VERGONHA. E obviamente você sabe onde eu quero chegar: animes. Animes são ruins e constrangedores, e a pior parte disso é que você gostava dessas merdas. Eu sei, eu estive lá.

Claro, nem todos os animes são ruins depois que você passa dos 19 anos, alguns continuam plenamente gostaveis (sobretudo os que abraçam o seu lado trash de vez, como Highschool of the Dead). Rurouni Kenshin (a.k.a. Samurai X) não é um desses casos que o anime soube envelhecer bem. Mesmo os OVAs que são aclamados como mais “cults e sérios” são bem palhosos de modo que você não consegue abaixar a sobrancelha de “cara, essa porra não faz nenhum sentido”. Quando eu soube que iam lançar um live action então do Molhosodetomate retalhador ergui três sobrancelhas e meia (não pergunte).

O que eu não esperava nem nos meus sonhos mais loucos, o que efetivamente eu não esperava era que o filme fosse bom. Aí então fomos surpreendidos, como já dizia o Zagalo.

Para quem não sabe o anime (e o filme) conta a história de Kenshin Himura, um assassino que lutou pelos rebeldes na guerra civil japonesa no século 19 quando o sistema feudalista foi derrubado e instaurado um governo nacional nos moldes que temos hoje. Após matar mais gente que diarréia na peste espanhola, Kenshin decidiu largar a vida de assassino e não matar mais pessoas. Como ele não sabia fazer outra coisa da vida, se tornou um mendigo andarilho ajudando as pessoas por onde passava. A grosso modo é isso.

Os méritos do filme começam no ponto em que ele concerta varios problemas do anime e que reconhecidamente elevam o filme um passo acima das outras tentativas de adaptação de animes.

XO, XO, XO. VÃO PRA CASA CRIANÇAS

Uma das coisas que mais me incomoda em animes é que como eles são feitos para pré-adolescentes todos os personagens tem que parecer pré-adolescentes, o que é uma merda. Mesmo quando a história se propóe a contar uma temática mais adulta (e Rurouni Kenshin tem bastante sobre politica assim como o periodo de transição do Japão medieval para o século 20) e é um grande corta-tesão que assuntos de relevancia nacional sejam discutidos por pirralhos que mal parecem ter 14 anos.

O melhor exemplo da série é o Sanosuke, o melhor amigo do Kenshin. Na teoria ele é um brigão boemio carefree, o que fica perfeitamente ok se for feito por um adulto. Só que no anime ele não parece ter idade nem pra fazer a barba, o que é causa de um grande broxismo. No filme colocaram um adulto para fazer o papel de um adulto e ficou profundamente legal. Em determinado momento ele esta brigando na mão com um cara na cozinha (como o código dos brigões exige) e para a briga para tomar um goró – o que ficou perfeitamente de acordo com o conceito do personagem

aoki-sano

Filme 1 x 0 Anime

BEM VINDO AO MUNDO SEM SANEAMENTO BASICO

Uma das premissas básicas da coisa é que se passa no periodo de transição do Japão para a era moderna. O problema é que no anime (como todo anime) tudo é muito limpo e muito, muito colorido. E porque isso é um problema? Bem, porque estamos falando de um mundo onde não há calçadas ou saneamento basico, fica bastante estranho e fantasioso que tudo seja tão limpo e colorido.

Com uma dose de bom senso que é raro ver entre nossos amigos amarelicos, o filme tem uma paleta de cores com um aspecto bastante “sujo”. Considerando que o Japão é um país onde chove bastante (é uma ilha na regiões das monções, afinal) não é estranho que exista lama por todo lado, de modo que esse layout mais realista ajuda bastante a vender a idéia

Uma das cenas mais iconicas disso é no momento em que o Kenshin ganha o kimono vermelho (já que ele andava vestido como um mendigo antes disso) a Kaoru pergunta se ele não acha a cor “um pouco demais”? Porque seja perfeitamente natural no anime, no mundo real as pessoas não andam com roupas vermelhas berrantes.

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“Desculpe mas não entendi seu ponto aqui, querido”

ESSE MANJA DOS PARANAUE

Um dos maiores problemas de um anime de luta, que é o que Rurouni Kenshin é seus otakus baderneiros, é que luta em anime usualmente é uma coisa mais parada e menos organica que uma partida de Street Fighter. Sério, tem todos aqueles milhões de clichês de anime de ficar dois dias pensando a cada movimento, os dialogos babacas tipo:
“usarei a tecnica semprepulodetanganolago”
“Ah tecnica semprepulodetanganolago?!”
“Sim, a tecnica semprepulodetanganolago”
“Mas essa tecnica é… esse poder…”

Mimimi estique isso ao infinito. Que saco. Sério, uma luta de espadas que devia durar dois ou três golpes levar dois outrês episódios de vinte minutos é pra matar nego de pereba, tomanocucomacerola!

No filme a coisa é muito mais organica e mais parecida com as artes marciais. Um exemplo chave é que em determinada luta o cara lá usa uma tecnica que tem quase duas linhas de nome e que basicamente é “trocar a mão que está segurando a espada pelas costas para o adversário não ver” (que eu chamarei de “miojinho” para propositos deste texto). Ao invés de três episódios com o dialogo boçal, o cara faz isso e depois pergunta para o Kenshin DEPOIS de fazer “você não consegue nem reconhecer um miojinho?”. Vê? muito mais fluido, muito mais organico, muito mais natural.

Outro elemento chave é que tiraram a maior parte do balançamento de saco pra mostrar como o cara é poderoso. Tipo quando o Sanosuke luta contra o Kenshin com uma espada falicamente desnecessária de grande, o Kenshin pula e fica de pé em fima da parte chata da espada no ar. No filme uma cena parecida acontece, mas aqui a espada bate no chão e o Kenshin apenas pisa em cima dela. O bom senso FC e o meu saco agradecem pelo bom gosto na cena, obrigado.

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É o que eu me pergunto o tempo todo quando estou assistindo animes, apenas o tempo todo…

BOAS ATUAÇÕES. NÃO, SÉRIO.

Vou dizer uma palavra e você me diz a primeira coisa que vier a sua mente, ok? Vamos lá, digamos que eu diga… atuação japonesa! E aí, o que pensou? Se você tem o minimo de bom gosto a expressão “qualidade” deve ter ficado na posição entre 500 e 667 da numeração fibonacci. Por isso eu dizer que pelo menos quatro personagens tem um atuação dignas de um “bom” para cima. Talvez um pouco caricatas demais, mas ainda sim bastante divertidas de se assistir.

Um destaque especial vai para o vilão do filme, o almofadinha Kanryuu Takeda, que parece (e tem o carisma) uma versão japonesa do Javier Bardeen

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 Onde os mullets não tem vez

Bem, basicamente era isso. O longa é um raro caso de bom senso e bom gosto em uma adaptação de uma obra de qualidade questionavel (sim, pode deixar o pequeno otaku dentro de voce amaldiçoar o quanto quiser, mas eu estou certo e voce sabe disso) que resultou em um filme redondinho e assistivel. E no cinema, ao contrário da vida real, ser redondo é bom 🙂