[CURTINDO CINEMA] Requiem for a Dream – Moralista? Repense…

Sempre relutei muito em escrever acerca de Requiem for a Dream (Réquiem para um Sonho).

Famoso demais, discutido demais, cult demais, desconhecido demais (embora famoso, ainda bem desconhecido, acreditem), antigo demais, “lugar comum” demais.

Mas, ao ouvir que esse filme poderia ser moralista demais, esse artigo se fez necessário.

É hora de sair da zona de conforto.

Acho simplista dizer que Requiem for a Dream é um filme sobre drogas, muito embora todo ele seja a respeito disso. Tempos atrás, a equipe do Nerd Geek Feelings (com alguns membros que nem são mais do site) gravou um cast sobre esse e outros filmes do diretor Darren Aronofsky (ou, como o Cilon o chama: Arnoldo), e uma conclusão foi basicamente que Requiem seria um filme sobre drogas e as sensações causadas por elas. E, claramente, os estragos.

Não posso discordar dessa forma de ver. Aliás, se você buscar qualquer crítica a esse filme, na grande maioria das vezes verá que sites e artigos falam da imersão no mundo das drogas. Ponto.

Mas, e se tentarmos ir além?
Requiem for a Dream fala de Sonhos. Não por acaso, esse nome está relacionado ao título. Relacionado? Não… está no Título.

Harry (Personagem do Jared Leto) tem o sonho de construir uma vida normal e pacata com sua namorada Marion (Jennifer Connelly). O bom e velho sonho americano.

Harry tem uma mãe viúva que tem poucas alegrias na vida. Quase nenhuma, na verdade, já que seu filho único é viciado em drogas, e a senhora aposentada só tem como companhia as vizinhas e, claro, sua boa e velha televisão – volta e meia vendida para a loja de penhores por Harry, em troca de algum dinheiro para comprar drogas. Sara (Ellen Burstyn), a viúva infeliz, tem o sonho de participar de um programa de auditório que acompanha na televisão. Pode parecer um sonho simplório (e é?), mas muito pouco querem os que nada têm.
Correndo por fora, mas não irrelevante, temos Tyrone (Marlon Wayans). Amigo de Harry, pretende ser seu sócio, já que ao menos no consumo de drogas os dois já têm parceria.

Parecem sonhos justos, mesmo se pensarmos nas drogas.

Claro que não estou entrando no mérito de certo ou errado aqui. Nem me caberia.

A questão é que Harry, Marion e Tyrone apenas querem ter um negócio rentável  não ligado ao tráfico, a princípio), e Sara apenas deseja participar de um programa de televisão usando seu velho vestido vermelho para passar o resto de seus dias de dona de casa viúva contando às amigas, em 15 versões diferentes, como foi falar com o apresentador esquisito de terno excessivamente engomado.

Certa vez, discutindo acerca desse filme na faculdade, ouvi de um colega a afirmação de que Requiem for a Dream seria um filme muito moralista, pelo fato de colocar a droga como ponto alto bem antes de uma queda sem anteparos, ou a raiz de todo mal.

O que disse a ele, repito aqui: Requiem não poderia ser considerado moralista, não ao menos do ponto de vista dele, que procurava defender o consumo de drogas ilícitas como algo que não deveria ter consequências tão terríveis como as mostradas no filme.
A questão é que o filme não acusa as drogas não legalizadas de arruinarem o ser humano; Não é a heroína, a cocaína, a maconha ou o LSD que acabam com a vida de todos os personagens, levando cada um deles a um fundo de poço mais miserável que a morte, talvez. Em primeiro lugar, devemos lembrar que o final mais triste (talvez) é reservado a Sara, usuária de drogas lícitas, receitadas por um médico especialista. Pílulas para emagrecer; para desacelerar, acelerar, acalmar, dormir, acordar, não ter fome…

Como assim moralista, se critica a indústria farmacêutica? E não só a americana, mas todas, já que remédios hipnóticos e com efeitos psicotrópicos podem ser conseguidos com alguma facilidade, e uma boa quantia de dinheiro, de forma legal em qualquer lugar do mundo.

Basta lembrar que no Brasil, o remédio mais vendido depois dos anticoncepcionais, é o Clonazepan – um calmante fortíssimo indicado em casos de depressão profunda, síndrome das pernas inquietas, síndrome do pânico, esquizofrenia, etc, mas vendido como se fosse bala de coco em doses industriais.

Requiem for a Dream não é moralista também porque a queda não é apenas e “tão somente” por que 3 jovens e uma senhora de cabelos (agora) excessivamente vermelhos – parecendo o Bozo – resolveram se divertir enchendo a cara de substâncias alucinógenas em maior ou menor grau de periculosidade porque foi divertido e pronto.

A questão do filme nem sequer é falar do quanto as drogas são ou não prejudiciais. E se você acompanha a filmografia de Darren Aronofsky, vai notar que o que ele faz é sempre levar o ser humano ao seus limites por diversos meios.

Em “O número Pi“, por exemplo, temos Cohen, que é um gênio da matemática e padece de dores de cabeça terríveis, que parecem caracterizar uma enxaqueca com aura. Cohen busca a elevação pela matemática, mas é sua genialidade também o seu grande problema. E é apenas quando abre mão de sua mente brilhante que consegue ter uma vida normal (ou quase isso). Seria preciso ver o filme para compreender, mas nada que venha de Aronofsky é superficial. São sempre momentos, camadas, níveis de superação, que levarão a compreensões diferentes ou estágios diferentes.

Neste caso, temos a queda pelas drogas, mas antes da queda, os personagens alcançam alguma transcendência. Claro… toda história tem o clímax após a complicação.

Aqui, contudo, tem-se a complicação do enredo após o clímax. Quando tudo parece ir se encaminhando para as sendas desejadas. Quando os sonhos parecem que irão começar a dar certo, os personagens começam a experimentar uma gradual (mas nunca lenta) queda.

Requiem for a Dream não é um filme moralista, mas com certeza é um filme que dá lições de moral. Existe uma diferença nisso:

O moralista condena os erros que ele mesmo pratica. E quase sempre fala sem conhecer o assunto, de forma parcial, sem tentar compreender lados, sentimentos, razões.

Uma lição de moral é a forma inteligente que qualquer Cautionary tale (pode ser, sim, o caso de Requiem, dependendo de como você foca sua leitura) terá de mostrar ao leitor/espectador o que houve de errado, quais as razões, o que levou cada personagem/vítima ao seu insucesso ou ruína, e o que poderia ter sido diferente.

Não é como se Darren desse ao filme um tutorial de como cada um dos personagens deveria ter agido para ser feliz para sempre. Mas nenhuma vida vem com manual, e tentar não se enfiar em problemas anunciados como potencialmente mortais nos quatro cantos do planeta, já seria um início.

Algo que impressiona no filme, de forma realmente insana, é a maneira como cada substância é mostrada em todo o potencial que uma experiência cinematográfica poderia oferecer. A capacidade de imersão é tamanha que as cenas chegam a doer, acelerar batimentos cardíacos, e causar dar náuseas.

Drogas capazes de acelerar o sistema nervoso fazem com que as cenas sejam colocadas em frames frenéticos, em cujas trilhas sonoras, entrecortadas pela falta de compreensão distorcida, agitam quem assiste com suas batidas inconstantes e inquietantes.

O mesmo ocorre com as drogas capazes de desacelerar a percepção dos estímulos externos, causando uma redução dos reflexos, pensamentos e ideias. Seja ela a maconha ou o calmante.

O nível de perturbação que as cenas de Requiem causam é tamanho que é muito difícil assistir ao filme sem pausá-lo, ou, no mínimo, tentar.

E, sempre voltando ao ponto principal de discussão: Como Requiem for a Dream pode ser moralista se as cenas mais aflitivas são justamente as protagonizadas pela pobre senhorinha que se entope de remédios receitados?

Sejamos coerentes: Requiem não é um filme feito para contar a você e a seus amigos o quanto usar drogas é ruim, embora bata nessa tecla da maneira mais violenta. Também não é Requiem um filme feito para dar uma lição de moral. É a limitação mental de grande parte dos telespectadores que faz com que a massa creia nesse besteirol.

Darren não passa lições de moral em seus filmes.

Darren usa situações reais, vidas desgraçadas, mentes perturbadas, e todo o limite do ser humano, para dividir com as audiências, capazes de alcançar alguma compreensão, uma experiência mental ou transcendental através da transposição de limites diversos.

Mas, se depois disso tudo, você que usa Rivotril, Cocaína, Maconha, bebe igual a um alcoólatra, fuma qualquer coisa, ou tem QUALQUER VÍCIO QUE ATRAPALHA SUA VIDA, e acha que esse filme é moralista, só posso recomendar uma coisa: reveja seus conceitos. E o filme.