[CINEMA] PLANETA DOS MACACOS: A Guerra (ou Macacolipse Now!)

A primeira e mais importante coisa que você precisa entender sobre o terceiro filme da revolução simiana é… que você entendeu o título do filme errado. Sim, quanto antes você entender isso, mais feliz você será. Eu sei que eu cometi esse erro.

Porque, veja, quando lemos um título como “Guerra“, logo pensamos em muitas explosões, tiros, porrada e bombas, exércitos e tudo mais. Confesso que me esforcei para imaginar como seria um filme dessa trilogia no gênero que consagrou Michael Bay, mas não é nada disso realmente.

War for the Planet of the Apes é um filme de guerra, sim. Mas não esse tipo de guerra…

… e sim ESSE tipo de guerra:

Oh… Ok, agora eu consigo ver onde esse filme quer chegar.

Então espere muito menos Pearl Harbor e muito mais uma mistura de Apocalypse Now (ou Ape-calypse Now, como o próprio filme faz essa piada) e “A Grande Escapada“. Desde o (re)começo, os filmes da série Planeta dos Macacos têm servido como uma metáfora para varias facetas do comportamento humano.

Uma coisa com que eu fiquei intrigado (estavam distribuindo trigo na entrada do cinema) é que a série sempre foi sobre como o coletivo da espécie humana é mau e covarde, mas como, individualmente, as pessoas podem ser boas e bem intencionadas. Esse é um elemento que parece faltar nesse filme, já que os humanos aqui parece que são maus como pica-paus apenas pelo prazer de serem.

Quer dizer, no segundo filme existe um motivo real para o atrito entre humanos e macacos, mas aqui não tem nada que os humanos possam vir a ganhar enchendo o saco dos nossos primos primatas. Parece. É apenas muito mais para frente que você realmente entende o que está acontecendo aqui: guerra. A guerra nunca muda.

Colocada contra a parede, a humanidade responde da forma que respondemos a quase tudo que é diferente da gente: com ódio, fogo e fúria. MAS – e essa é a grande sacada aqui – esse não é um filme sobre seres humanos, e sim sobre o messias dos macacos, Cesar. ELE tem que vencer a guerra dentro de si e transcender a humanidade, para se tornar algo melhor. Essa é a grande pegadinha do filme: embora a referencia óbvia a Apocalypse Now seja o vilão do filme – o coronel humano interpretado por Woody Harrelson – a verdadeira referência a Apocalypse Now é o atoleiro de ódio e insanidade que Cesar tem que atravessar para ser o que os macacos precisam que ele seja.

Isso quer dizer que ele comete muitos erros, tem delírios e, se estivesse vivo, Koba poderia dizer a ele: “Não somos tão diferentes, você e eu”. Essa é a verdadeira guerra, e a guerra é sobre insanidade – como tão bem retratou o filme de Coppola nos anos 70.

Muito bem cambada, ouvi dizer que estão dando Oscars pra quem for molestado por um urso! O Zé Colméia é meu!

TRAGAM UM MITO PARA ESSE OSCAR

Nada disso seria possível, é claro, sem uma atuação fenomenal de um dos melhores e mais dedicados atores dos nossos dias: Andy Serkis. Ele transmite, através da maquiagem digital, como Cesar se sente e os seus conflitos através da sua postura, dos seus movimentos, das suas expressões. Ele carrega o peso de toda uma sociedade nas suas costas, AO MESMO TEMPO que sua própria cruzada pessoal de vingança e loucura – sem deixar de transmitir uma aura de liderança messiânica.

De alguma forma, Serkis consegue transmitir, na sua fala, a raiva, a tristeza e o esforço de quem não está falando sua língua nativa AO MESMO TEMPO (de novo). Ele genuinamente parece um líder militar tarimbado, marcado pela idade, endurecido pela violência, assombrado pela perda, mas ainda fisicamente forte, e com uma aptidão natural para o comando. Sério, se isso não é digno de um carequinha dourado na estante, eu não sei mais o que seria (qualquer coisa eu mando uma foto do nosso editor para ele).

A GRANDE ESCAPADA

A Guerra é um filme de muitas metáforas espelhadas (os macacos são uma crítica aos vícios da nossa sociedade, ao mesmo tempo que os incorporam de outras maneiras), mas não dá para fazer um filme só com críticas sociais e uma atuação fantástica do Andy Serkis (embora o chamem se um dia forem fazer “Textão de Facebook – o filme“). Então sobre o que é o filme, realmente?

Bem, A Guerra é um filme de prisão e da tentativa de Cesar, e sua fiel trupe de asseclas improváveis (caracterizada no primeiro ato do filme), de salvar a sua colônia dos nazistas humanos. Tipo A Grande Escapada se o Steve McQueen atirasse cocô nos soldados alemães.

Homem de preto o que é você faz? / Atiro em macaco com peste pior do que o Antraz!

Você deve estar pensando que essa é uma premissa ruim, já que é uma prequel, e todo mundo sabe como essa história termina: os macacos herdam a Terra e os humanos são reduzidos a trogloditas. Bem, sim, mas o diretor Matt Reeves teve um insight muito inteligente, e deixa claro que, enquanto OUTROS macacos podem herdar a Terra, você não pode ter certeza sobre esse grupo do Cesar em um futuro imediato, e é isso que faz o filme funcionar.

Isso quer dizer que o filme se inspira no melhor do gênero: existem cenas pesadas, de tortura até – como você poderia esperar de um campo de concentração – ao mesmo tempo que o filme sabe quando ser deliciosamente divertido nas cenas dos planos de fuga.

Se alguma coisa, talvez o maior problema do filme seja demorar demais nessa situação, quando ele finalmente desabrocha “sobre o que o filme é”, realmente. Embora eu entenda porque o filme fez as escolhas que fez, dá pra dizer que o filme “de verdade” é sobre a parte na prisão.

No primeiro ato do filme, Cesar encontra pelo caminho uma menina para guiar por um cenário pós-apocalíptico, sendo uma figura parental para ela… porque você sempre quis aquele DLC de The Last of Us em que todos eram macacos, é claro.

Outra coisa marcante é que, tirando um ou dois personagens humanos, o filme não tem medo de colocar seu centro de gravidade narrativa dentro deste mundo simiânico, e não sente a necessidade de equilibrá-los o tempo todo com humanos, como nos outros filmes.

É um filme corajoso, já que conta com poucas falas, porque os macacos preferem se comunicar em linguagem de sinais, que são legendadas. Mas o americano médio – e o brasileiro também – beira o analfabetismo funcional, então, fazer um filme pesadamente legendado é sempre um risco.

O filme tem algumas grandes cenas de ação e sequências de combate (embora não seja um filme de ação per se, ao contrário do que o título pode te levar a pensar), assim como toques de humor esparsos, mas bem colocados. E também não tem medo de longas cenas de diálogo e confronto entre os personagens. Evita personagens unidimensionais (mesmo o “coronel malvadão” não é tão preto-e-branco assim), sabe quando ser sensível e quando ser épico.

As metáforas sobre a humanidade são ricas (algumas meio óbvias demais – ao governo Trump e seu muro), mas, talvez a mais rica de todas é a que vem do público, e não do filme: diz muito sobre nossa própria espécie que, assistindo o filme, torçamos não pela salvação da humanidade, mas por sua completa erradicação. O quanto antes possível.

Como bem disse Pablo Villaça, “considerando o estado do Brasil e do planeta em 2017, devo dizer que esta não é uma mensagem das mais absurdas.”

E embora o filme demore um pouco para chegar onde precisa chegar, quando o faz isto o torna um dos melhores blockbusters da temporada. Menos que três Oscars e eu nem comemoro.

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