[CINEMA] O que deu errado com o Coringa de Jared Leto?

Acho que é quase uma unanimidade que uma das coisas que mais não funcionou em 2016 foi o Coringa do Jared Leto em Esquadrão Suicida. O problema é que o consenso termina aí quando as pessoas tentam explicar “o que” deu errado. Uns dizem que não é fiel aos quadrinhos o suficiente no visual, outros dizem que é porque ele não é o protagonista do filme, e uns dizem ainda que é por causa da risada de Cazalbé (esse sou eu). Bem, são realmente bons pontos. Só que todos eles estão errados.

Vamos falar sobre o que realmente não funcionou com o Joker do Esquadrão Suicida.

CORINGA MC GUIMÉ?

Uma das críticas mais comuns ao Coringa do filme é que o seu visual é idiota, e que não parece nada com o Coringa. O Jovem Nerd chegou a dizer que o Coringa JAMAIS poderia ter tatuagens porque ele nunca ficaria parado tempo o suficiente para fazer uma tatuagem. Sério. Enfim, foi dito e muito que o visual de “funkeiro” era inadmissível para o príncipe palhaço do crime de Gotham.

Mas é, né? Onde já se viu um Coringa com tatuagens…

Ah, tá, mas aposto que quem fez isso foi um escritor bocaberta e um desenhista retardado sem muita importância que não entendem nada de Batman!

Ah, tá, ok, mas… mas o Coringa é louco, ele jamais teria tatuagens aleatórias malucas ao invés de uma tattoo trabalhada estilosona super bem pensadas… Não, espera, essa frase não tá fazendo muito sentido… É, ok, talvez o Coringa possa ter tatuagens, tá, mas e aquele cabelo de…

Então, entenda, o problema do Coringa do Jared Leto não é o visual. As pessoas reclamam disso porque elas estão chateadas e querem culpar algo, só que elas não sabem o que deu errado – porque o motivo é relativamente complexo, mas já chego lá – então elas culpam o mais obvio: o visual. O problema, amigo, não é esse. A toca do coelho branco vai bem mais fundo que isso.

O CORINGA É ESTRELA DEMAIS PARA SER PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Outra critica muito recorrente ao filme é que o Coringa é o vilão mais famoso e relevante da história dos quadrinhos, ele não podia ser “rebaixado” a um simples personagem secundário com participações que não acrescentam muito a história do filme.

Onde já se viu, né? Um vilão do tamanho do Coringa fazendo só ponta, e deixando o filme para heróis que ninguém conhece, quando o filme obviamente deveria ser inteiramente sobre ele? Puta merda, mas é claro que os fãs jamais vão aceitar isso, é uma falta de respeito achar que vamos engolir algo assim com um personagem da envergadura do Joker e…

… e sabe de uma coisa? De repente eu passei a achar que o problema não era bem esse. Algo me diz que os fãs podem, sim, lidar com um personagem icônico tendo uma participação não-protagonista em um filme sobre ilustres desconhecidos. Não sei porque, mas algo me diz que dá pra fazer sim, e sair aplaudido no fim do dia.

TÁ, MAS QUAL O PROBLEMA DO CORINGA ENTÃO?

A esse ponto você já deve ter adivinhado que o problema do Coringa é a Arlequina. Ou mais precisamente, o Coringa é o problema da Arlequina, já que ela é a protagonista do filme. O problema da Arlequina é mais ou menos o mesmo quando você coloca um personagem com problemas mentais em um papel de alívio cômico: é um castelo de cartas que não resiste muito se você mexer nisso.

Quando foi criada para a série animada do Batman, a Arlequina era um personagem cômico com alguns momentos surpreendentemente sinceros de tristeza. Quando você pensa sobre isso, percebe que não tem muita coisa engraçada em alguém abusar de uma menina mentalmente destruída.

A Pixar, inclusive, fez um filme sobre isso. Ser “especial” não é nem um pouco engraçado (exceto quando é, mas ao menos vamos rir sabendo que vamos todos para o inferno mesmo).

Então a DC tinha um certo problema nas mãos. Eles tinham uma personagem visualmente atraente, mas que vivia um relacionamento abusivo e ADORA isso!

Não, sério, imagine por um momento o tamanho da shitstorm que ia ser se eles fazem isso em um blockbuster. Talvez em 2079 a página da DC pararia de ser derrubada por haters, em uma previsão fantasiosamente otimista.

Ok, eu vou dizer uma coisa que ainda não pode ser dita em pleno 2017, mas é uma verdade que todo mundo sabe: relacionamentos abusivos são, em última instância, compostos por dois lados. Isso mesmo, dois. E a situação é um pouquiiiiiiinho mais complexa do que um vilão estuprador mau como um pica-pau e uma princesa justa e sofrida presa por forças além do seu controle. Não é assim que funciona, mas esse não é um assunto que estávamos prontos para discutir em 2016. Duvido muito que isso mude em 2017

Jessica Jones, por exemplo, que supostamente deveria ser uma série sobre isso, toma todos os cuidados do mundo para sugerir que existem mais tons de cinza aí do que uma pobre moça vitima sofrida. Mas tanto cuidado que você nem percebe se não prestar muita atenção.

É um assunto espinhoso, complexo e honestamente ninguém está interessado em discutir algo pesado assim em uma mídia de massa como um blockbuster.

O que a DC/Warner queria era uma heroína feminina forte para as meninas fazerem cosplay e os caras baterem umazinha, eles não querem iniciar uma discussão sobre nada! E assim foi feito. Tanto que praticamente não existem polêmicas a respeito da Arlequina do Esquadrão Suicida – tirando os dementes de sempre da internet, mas nada em grande escala.

A Arlequina é engraçada e dramática em alguns momentos (mais graças ao talento da Margot Robbie do que à boa execução do filme, diga-se de passagem), mas nunca polêmica.

Eles pegaram uma mulher que tem um relacionamento com um cara que trata ela como lixo, e adora isso, e não tem polêmica nenhuma aí. Em 2016. Ué, que magia é essa? Simples: cortaram a parte do namorado abusivo. E é aqui onde o Coringa tomou no toba.

Como eu disse na resenha do filme, o Coringa do Jared Leto tem uma atuação incrível. Ele realmente passa uma sensação de nervoso que saporra é completamente louca da cabeça e que realmente pode esmagar a sua cabeça com um pé de cabra apenas porque deu vontade, ou porque ele queria provar um ponto sem nexo algum.

Ele é esse cara… mas que não bate na namorada, porque, né gente, aí já seria demais. Ou se faz alguma coisa contra ela, em seguida já pede “desculpa momozim”. Com efeito, tem uma cena que ele faz EXATAMENTE isso (não pede desculpa verbalmente, mas desfaz o que ele fez contra ela pq momozim s2)

Tem alguma coisa nessa equação que está parecendo estranha pra você?

Em resumo, o maior problema do filme é que o Coringa que David Ayer quis fazer em seu filme não é o mesmo que a Warner quis em seu filme. A Warner queria uma jogada de marketing pra família e para o público feminino se identificar, Ayer queria algo bem mais pesado que isso. Nesse cabo de guerra, adivinha quem acabou tomando uma ruim na edição do filme? (que já tem uma edição de merda, aliás)

Então, o problema do Coringa nesse filme não é a caracterização, não é o tempo de tela, sequer é a atuação do Jared Leto. O problema foi querer socar um assunto de classificação etária 18+ em um filme de classificação etária 12 anos. Que surpresa que não deu certo, né?

Sabe outra vez que isso foi feito?

O problema do alcoolismo do Tony Stark em Homem de Ferro 3 que levou uma limbada no roteiro e no seu lugar ficou… bem, eu não tenho certeza do que foi aquilo que ficou no filme, senão um enorme buraco onde claramente deveria ter alguma coisa. O Coringa nesse filme é a mesma coisa.

E se você está fazendo comparações com Homem de Ferro 3 para explicar o seu filme, bem, é porque alguma coisa aí não deu certo.

2 thoughts on “[CINEMA] O que deu errado com o Coringa de Jared Leto?

  1. Nossa, não.
    Batman e Robin: Grandes Astros é um desserviço, aquilo é execrável e uma das piores histórias do Batman e um dos piores Coringas. Usar isso como exemplo, só piora mais ainda o Coringa do Leto. E o desenho ao lado do Coringa do Leto é uma fan arte.

    Coringa do Leto é ruim tanto na atuação quanto na caracterização física. A atuação do Leto ficou parecendo alguém querendo ser louco, não um louco. Não ficou nada natural, você via ali o esforço do Leto em transparecer alguém perturbado, diferente do Ledger e do Jack Nicholson.

  2. Falou tudo slaine82 e digo mais… eu não senti medo nenhum do Coringa do Leto… ele não é uma ameaça… não é indecifrável… é tudo muito óbvio nele… se voce para pra pensar no Coringa do Heath Ledger ou do Jack Nicholson… eles transmitiam aquela sensação de imprevisibilidade que paralisa o adversário… muito fraco mesmo o Coringa, a Arlequina pra mim é como a Sabrina Sato no Panico no passado… servia de sensualidade e também como alívio comico… e só… é muito engraçado que todo filme da DC que é ruim a culpa é dos executivos, nunca dos produtores, diretores, roteiristas, elenco mal escolhido… o mais curioso é que a trilogia Nolan é espetacular, e os executivos eram os mesmos…

Deixe uma resposta