[CINEMA] O JOGO DA IMITAÇÃO (resenha)

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Alan Turing tem o currículo mais impressionante que qualquer ser humano tem ou terá. Pode parecer que eu estou exagerando, mas que outro homem na história da humanidade inventou os computadores, e nas horas vagas salvou a humanidade não uma, mas DUAS vezes?

Esse filme é uma cinebiografia sobre o matemático que mudou a história da humanidade.

MAS SERÁ O BENEDITO?

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“Senhor Turing, o senhor está preso por ser culpado por aquele segundo filme completamente desnecessário do Hobbit”

Inicialmente, eu achei temerário escolher Benedict Cumberbatch para interpretar um gênio grosso e antissocial, porque é meio o que ele já faz em Sherlocke Hollywood está apinhada de atores que só sabem interpretar o mesmo estereótipo de novo e de novo (Jolie, Depp, beijo proceis! ;*).

Com efeito, na primeira parte estes temores parecem se confirmar, e a atuação do protagonista parece um Sherlock menos caricato. Felizmente, com a evolução do filme, a atuação passa do gênio arrogante caricato, a um gênio perturbado de verdade.

Outra coisa que o filme faz muito bem é aproveitar outro grande talento de Cumberbatch: sua voz. O filme abusa da narração, e como ele tem uma voz tão foda, que no mínimo três novinhas devem sair do cinema grávidas, a coisa funciona.

QUANTO A HISTÓRIA, A HISTÓRIA É OUTRA…

Turing tem uma das histórias mais incríveis da humanidade, sobre como ele inventou o primeiro computador do mundo em um galpão em Bletchley Park, para processar o código alemão de 129 trilhões de possibilidades, e venceu a guerra usando matemática e estatísticas. Uma história que permaneceu em segredo por cinquenta anos. A história é realmente incrível, mas dificilmente é material de filme, mesmo com sua morte solitária e melancólica – gênios que morrem arruinados são queridinhos das telonas.

Tanto que o filme, ao contrário do que a platéia espera, não tem exatamente um clímax. Porque é assim que a ciência é feita, e ciência de verdade não é emocionante de se assistir.

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Um convite para um casamento? Sério?

Dá pra ver claramente os momentos em que Hollywood abre seu grande livros de clichês para tornar o filme mais palatável ao grande público. Por isso, tá lá o Tywin Lannister apenas para ser o general malvadão ganancioso, draminhas familiares desnecessários e previsíveis (quando durante o filme todo apenas um personagem menciona que tem família, você já sabe como isso vai terminar), e personagens que estão ali apenas para cumprir cotas genéricas.

Keira Knightley é linda, mas está lá só para cumprir cota de flower power (aparentemente isso é uma moda agora, como visto em Agent Carter), e também para ser a consciência de Turing, e tentar fazê-lo um menino de verdade.

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“Agora só falta descobrir o que ela faz”, quem sacar a referencia ganha um high five. o/

Quando tem a famigerada cena piegas em que a equipe de Turing aceita ele como líder (depois de ele ser um babaca completo), eu tive que olhar para cima e amaldiçoar Hollywood. Então eu lembrei que eles têm que colocar essa coisa Julia-Robertiana nos filmes, porque as pessoas exigem isso, e mudei para uma citação do Capitão Nascimento: “São vocês que financiam essa merda, seus viados!”

Quando não está seguindo o manual hollywoodiano de agradar plateias, o filme é carregado pelo carisma e ótima atuação do Benedito, que mantem o espectador não só interessado, como o faz torcer por ele, sem recorrer aos truques fáceis. Duvido muito que ele vá ganhar o Oscar esse ano, mas de forma alguma seria injusto se ele ganhasse.

O filme também aborda a vida pessoal de Turing, que era homossexual em uma época em que isso era crime no Reino Unido. Mas, curiosamente, o filme é bastante conservador nesta parte, e não coloca o dedo na ferida para não incomodar ninguém. O máximo que se tem é uma frasezinha no final do filme (sabe, quando o filme mostra aquelas frases dizendo o que aconteceu com os personagens?), dizendo que a Inglaterra mijou fora do penico por muito tempo.

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“Yeah, yeah, salvou o mundo, venceu a guerra, salvou milhões, avançou a tecnologia em uns 150 anos… mas, vamos falar do que REALMENTE importa: o que o senhor faz com a sua bunda na intimidade do seu quarto”.

Não só toda parte do homossexualismo de Turing é bem levinha, como a parte sobre seu suicídio é não existente. Dá meio que uma sensação que o filme foi editado pelo Marco Feliciano, para ser politicamente correto para a família.

Eu não defendo que o filme tenha que defender uma bandeira ou qualquer coisa (como já comentei anteriormente), eu não me incomodo que isso seja irrelevante no filme, desde que alguma coisa fique em seu lugar.

O filme podia focar nas consequências de ter Asperger (acabar se suicidando sem família ou amigos é mais comum do que você pode imaginar), podia ser sobre as consequências das escolhas morais de Turing, sobre o admirável mundo novo que ele construiu com o protótipo do primeiro computador do mundo… sobre qualquer coisa, desde que fosse alguma coisa.

Como um nerd com Asperger, Alan Turing é grande modelo pra mim – acredite, jogar a vida quando você não consegue articular três frases sem que as pessoas queiram te ignorar ou te socar não é fácil, e ter “gente como a gente” que conseguiu faz toda diferença – e um filme sobre a vida dele é algo tremendamente relevante, mas isso é uma coisa pessoal minha. Para o espectador comum, imagino que seja apenas uma biografia competente, mas não tão relevante assim, senão pela atuação esplendida do Benedito.

nota-3

Em tempo, sobre a segunda vez que ele salvou a humanidade. Turing propôs um jogo que permitiria identificar se o participante é um ser humano ou uma máquina. Quando as máquinas se rebelarem, e nós precisarmos organizar uma resistência para retomar o planeta, agradeçam a Turing por termos como identificar as máquinas infiltradas.

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