[CINEMA] MOTHER! – Os Significados Ocultos no pôster do novo filme de Darren Aronofsky

Depois de lançar Noé (Noah, 2014), Darren Aronofsky andava meio sumido… Talvez calado demais para os fãs desse diretor de gostos estranhos e filmes um pouco mais que enigmáticos.Contudo, ele retorna agora em 2017 com o misterioso MOTHER!.

O filme é mesmo misterioso; a começar pelo fato de que, segundo o IMDB, este é um filme de terror/drama, o que jamais foi o estilo de Aronofsky (vulgo Arnoldo aqui no NGF).

Claramente não estou falando de drama, pois parece que Aronofsky está sempre flutuando nessa esfera, e buscando a transcendência por meio de experiências limítrofes em seus longa-metragens diversos.

Se você já assistiu a QUALQUER filme do diretor, sabe bem do que estou falando.A questão é que, mesmo ao traçar (ou entalhar) as cenas mais sanguinárias, ou mais malditas de cada um de seus filmes, jamais vimos Darren tratar de terror. Existe, sim, uma parcela grande de terror psicológico e questões angustiantes. Mas isso é bem diferente do que podemos, em cinema, chamar de terror.

Isso por si só já deixa qualquer fã de Darren com muitas curiosidades.

Mother! giraria em torno de um casal cujo relacionamento é testado quando pessoas não convidadas surgem em sua residência, acabando com a tranquilidade reinante. O filme tem data de estreia em 13 de Outubro (em alguns sites, a data constante é 12 de Outubro), e isso é tudo o que sabemos dele.

Mas o pôster do filme, por si só, deixa sinais estranhos:

A arte acima, feita por James Jean, é o primeiro pôster oficial do filme, e não tem poucos elementos intrigantes.

É claro que a primeira coisa que chama a atenção é o coração nas mãos da figura feminina com as feições da Jennifer Lawrence, que sangra amplamente, de suas mãos até seu ventre. Essa pode ser uma referência óbvia à imolação feminina simbólica, não só atendendo ao papel de mãe, mas também aos papéis de esposa, conselheira, aquela que tudo sustenta de cabeça baixa – de acordo com a simbologia tradicional.

É difícil dizer, mas, levando em conta que estamos mesmo lidando com possibilidades, vamos mergulhar nessa interpretação livre. Talvez cheguemos a algum lugar.
Algumas razões nos remetem ao pensamento de que Aronofsky pode ter tentado fazer uma referência forte à Dhea Mater, deidade indo-europeia (muito possivelmente Persa) que veio a tomar formas mais familiares para nós quando os gregos passaram a usar em seu Panteão um nome parecido, e uma deusa com poderes maternos e forças de fecundidade iguais, chamada DEMETER.

Assim como a Dhea Mater, Demeter tinha ligação forte com a lua, com a fecundidade e o lado feminino. Era a deusa das colheitas e da boa fortuna (em agricultura). Também fora cultuada como aquela que não só protegia toda cria da Terra, como também era responsável por ela. Demeter, deusa da fertilidade, nos parece bastante semelhante à forma de representação que Aronofsky utilizou na arte do pôster.

Não apenas os cabelos presos, como as mulheres da antiguidade Clássica prendiam, como as roupas brancas, semelhantes às cerimoniais, e o aspecto de pintura dado ao trabalho.

Esses pequenos elementos fazem com que o pôster de Aronofsky seja quase uma arte-sacra (pagã).
Demeter - a deusa Grega da fertilidade também nos oferta algo. Acima, vemos a imagem de Demeter, que assim como a mulher no pôster, também nos oferta algo.

Outro detalhe que torna mais familiar a análise da imagem principal, e que talvez traga pistas sobre que tipo de transcendência Darren Aronofsky pretende alcançar (e como pretende alcançar) em seu novo filme, é pensar que o termo Dhae Mater – já citado – não “originou apenas a deidade Grega Demeter, mas todo um conceito de Deusa Mãe (Mãe Natureza, sagrado feminino, etc) sangra dessa raiz.

Talvez por isso tenhamos um cenário repleto de flores que nos remetem a órgãos sexuais, mas de forma quase casta, nos fazendo lembrar que o sexo e a concepção são coisas normais no curso da vida humana. E repare como a que está logo à esquerda do nome de “Darren” tem um brilho avermelhado saindo de suas pétalas, sugestivamente em forma de concha, remetendo tanto ao útero materno (ela está alinhada ao baixo ventre da figura feminina) como à cor do magma que reside no interior da Terra, uma das formas de representar Gaia ou Reia, a Deusa Mãe.
A Deusa Mãe é louvada até os dias atuais, e normalmente isso independe de religião, pois não é incomum que façamos referência à “mãe natureza” – pois é… é um conceito pagão. Mas se acalme. Não é por isso que você irá para o inferno.

É interessante reparar em elementos diversos espalhados na figura detalhada. Além de as flores terem um aspecto entumescido (como se fossem órgãos sexuais), e de uma delas estar coberta com um líquido viscoso que remete ao sêmen (imagem abaixo), as colorações utilizadas são todas frias, azuladas, arroxeadas ou esverdeadas. Isso nos remete ao místico, àquilo que não está ligado ao mundo material.

E se restarem dúvidas quanto a esse escape do mundo material para um mundo em que seja seguro (ou mais seguro) estar, no que parece ter sido armado como um ventre materno, basta olhar com atenção para ver que uma das flores tem em seu centro uma discreta maçaneta:

Em Os Vingadores (The Avengers, 2012), o Gavião Arqueiro nos lembra sabiamente que toda porta se abre dos dois lados. (eu juro que não queria meter Avengers nessa análise).

Assim, se há uma maçaneta (supostamente uma passagem para outro lugar), talvez o outro lugar (o mundo material, onde as coisas acontecem em uma instância física) seja onde todo o horror do filme acontece.

Há ainda outros elementos que despertam curiosidade, como um rosto escondido entre as folhagens – que poderia remeter à morte de alguém durante a trama, ou ao luto materno (uma vez que toda a história está ligada a esse fluxo); e um sapinho, misteriosamente colocado entre as folhas úmidas – uma possível referência à morte ou à grande sorte.

As dicas parecem muito claras, até mesmo na grafia do nome, que é fonte de uma análise completa: Mother! é, literalmente, uma raiz para uma árvore. Não entendeu? Ora, basta olhar a tipografia no topo do pôster: a letra T, na grafologia – relacionada à maternidade ou paternidade – dá espaço para o crescimento de vários galhos em arabescos.

E ainda há mistérios insolúveis na arte, como este:

Seria o crânio de algum animal?

E este:

Um camafeu com uma runa? E o que o símbolo significa?

Não sabemos, e nem saberemos dizer o que realmente significam todas as coisas presentes nas imagens do pôster liberado do filme.

Sabemos que Darren sempre tenta resgatar origens em seus filmes – sobretudo no que diz respeito ao aspecto religioso ou espiritual. Sabemos também que, com exceção de Noé (que foi muito deteriorado, talvez por não ser tão autoral), em seus filmes existe sempre alguma forma esdrúxula, incomum e instigante de “abertura” das barreiras cognitivas, ou de aceitação do que é ou não possível em filmes. Ele sempre leva seus personagens aos limites mais duros, para fazê-los transpassar as portas da percepção.

O que esperar de “MOTHER!“?

Talvez finalmente, possamos esperar que Darren volte a ir além, volte a ser autoral como antes, independente do orçamento do filme.