[CINEMA] LOGAN (ou não deveriam existir filmes de super-heróis)

Em algum ponto de 2018 (ao menos a ideia era essa), a DC vai lançar um filme do Batman. Em outro momento de 2019 outro do Flash, supostamente. Nenhum desses filmes tem roteiro ainda e, mal e mal, conseguem manter um diretor no organograma por mais de três meses. Nos próximos dez anos a Marvel já tem organizados todos os filmes do seu universo, não importa quem for dirigir ou quem for escrever. Com efeito, ser diretor de filme da Marvel é igual a ser síndico de prédio: você pode fazer algumas mudanças pequenas que tornam a vida das pessoas mais ou menos agradável, mas não tem real poder de fazer reformas grandes. Você apenas bate ponto e espera pelo melhor. E ao longo dos próximos… eternamente, eu acho… a Fox vai continuar usando as franquias que têm no cinema enquanto elas derem saldo positivo de U$0,01, apenas para manter os direitos. Só.

Nenhum desses filmes será indicado ao Oscar de melhor filme (ou qualquer que seja a premiação que você respeite, não importa, porque não vai). Nenhum vai entrar para a coleção de um cinéfilo por ser imperdível enquanto cinema. Pode até entrar por ser nerd, mas não por ser bom cinema. Nenhum desses filmes vai realmente poder ser chamado de arte. Nenhum.

Por que você acha que isso acontece? De verdade, por quê?

Eu tenho uma resposta boba e meio simples. Não posso evitar, eu sou bobo e meio simples, então é fundamentalmente como eu vejo as coisas. Talvez você concorde com isso, talvez não. Enfim.

Eu tenho a opinião de que arte é sobre expressar alguma coisa. Sintetizar. Qualquer coisa. Você pode passar a vida tentando explicar como você acha que é o corpo masculino ideal, a resposta de Michelangelo foi fazer a estátua de Davi e dizer: “ó, eu acho que é isso”. Taí, arte. Você pode escrever um tratado de 3000 páginas sobre as classificações musicais, e como o gênero acaba influenciando demais (às vezes até engessando) a composição do artista… Fred Mercury fez Bohemian Rhapsody. Bam. Arte. Super arte.

Filmes não são tão diferentes disso, no fim das contas. Você tem uma história para contar, você quer compartilhar um ponto, você faz um filme. Isso é o que faz alguns filmes terem alma, e outros serem esquecidos antes mesmo de você cruzar a porta de saída do cinema.

Não precisa sequer ser algo tão elaborado assim, na verdade. Meu arqui-inimigo, Zack Snyder, fez um filme com um propósito além de “tá no cronograma, e vai ter que dar dinheiro”. Ele quis fazer uma adaptação de quadrinhos para o cinema o mais fiel possível, cena por cena, no que fosse possível. Esse era o objetivo dele, esse era o ponto que ele queria passar. Eu posso respeitar isso. Não acho Watchmen a última Coca-Cola do deserto, mas realmente respeito o que ele quis fazer ali.

E é justamente isso que diferencia Logan de qualquer outro filme jamais produzido baseado em personagens em quadrinhos. Exceto um. James Mangold não fez esse filme porque “ia ser feito de qualquer forma, tá na programação” ou porque “vai dar dinheiro pra caralho, uhuhuhu, vou comer a tia do Bátima, uhuhuhu“. Não. Ele fez esse filme porque ele queria muito fazer esse filme. Ele queria muito chegar a algum lugar com essa história.

Não o capítulo 14/36 de uma saga de filmes de um universo cinematográfico já decidido em reunião 10 anos atrás; não o herói do momento porque ca$$$hing. Se fosse assim, o filme se chamaria “Wolverine” e não “Logan“, com censura de 13 anos no máximo (no Brasil isso não faz diferença, mas esqueça o Brasil e pense nos EUA, onde isso importa para determinar quem entra no cinema), seria uma decisão comercial para atrair público muito mais interessante. Mas não era esse o ponto. O ponto era contar a sua fucking história.

Se isso parece alguma coisa familiar, é porque é bastante parecido com o quanto Ryan Reynolds bateu cabeça para que o filme do Deadpool existisse da forma que existiu. Não porque era fácil fazer, não porque daria dinheiro (claro que ele não esperava perder dinheiro ou passar fome nos próximos meses, mas não é isso), e sim porque ele queria muito fazer esse filme. Ele precisava fazer esse filme.

Enquanto eu não gosto do resultado final do filme do Deadpool, respeito pra caralho o que Ryan Reynolds quis fazer ali. Isso abriu um precedente importante na história do cinema: “Olha só, adaptações de personagens de quadrinhos não precisam ser produções feitas em linhas de montagem sem alma, com censura 18 anos e ainda vai dar lucro… Dá pra acreditar numa coisa dessas?”.

Logan só existe por causa desse precedente. Então, obrigado, Ryan Reynolds. De verdade, obrigado. Eu não gosto do seu filme, mas obrigado mesmo assim.

E é por isso que eu digo que não deveriam existir “filmes de super-heróis” como se isso fosse um gênero. Ou “filmes de videogames”, como se fosse uma indústria própria com regras próprias. Isso é merda de touro. Moonlight não ganhou o Oscar de melhor filme porque venceu “enquanto “filme adaptado de uma peça de Tarell Alvin McCraney”. Não. O filme é bom enquanto filme. Ponto. Personagens. Narrativa. Cinematografia. Ponto.

Ou o filme funciona como filme, que você possa assistir e dizer “uau, teve começo, meio e fim, e eu posso dizer que isso me proporcionou uma experiência única e completa”, ou não, o filme não tem propósito de existir. Simples assim. Talvez você ria, talvez você chore, talvez você reflita sobre alguma coisa. Talvez não. Mas isso é o que cinema, enquanto arte, deve proporcionar.

Isso é o que Logan proporciona. Logan é cinema como arte, como forma de expressar alguma coisa. Eu sinceramente não vejo como Logan deve alguma coisa a outros filmes de ação que foram indicados a prêmios, como A Qualquer Custo (Logan é bem melhor, na verdade) ou Mad Max.

Quanto ao filme em si, bem, não tem muito que eu precise dizer a respeito a não ser “vá assistir”. Sério, é o Velho Logan, um professor Xavier já senil, e a X-23 atravessando o país sendo caçados em uma road trip desesperançada. É sobre arrependimento, é sobre perda, é sobre família, é sobre relacionamentos, é sobre esperança. Que os personagens tenham poderes é apenas um detalhe (mas um muito legal, e feito do jeito que sempre quisemos ver na tela grande. Cada vez que a violência explode na tela, é incrivelmente satisfatória). É um dos melhores filmes da década, nível Mad Max bom. Assista o quanto antes.

Apenas esqueça essa bobagem de “filme de super-heróis”. Isso não existe. O que existem são apenas filmes que são bons enquanto filmes, e filmes que não são bons. Ponto. E Logan é do caralho.

Em uma nota parcialmente relacionada, você deveria assistir o review do General Nerd.
O Mike manda benzão falando do filme em si.