[CURTINDO CINEMA] Leon, O Profissional – “This is from Mathilda”

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Tinha muitas coisas a fazer na noite em que assisti ao filme “Leon, O profissional“, mas mesmo não tendo muito interesse no filme, me deixei levar pela tentação de ficar sem pensar por algumas horas, apenas permitindo que minha mente captasse as informações daquilo que me parecia ser só um filme policial.

Imaginei que veria tiros, explosões, mortes, sangue… essas coisas de filmes americanos que tratam diretamente da violência e de suas muitas formas de manifestação. E realmente é isso o que o espectador vê no filme do início ao fim.

Mas isso não é nem de longe o que realmente importa. E confesso que há muito a se pensar…

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Mas… Vamos por partes.

Spoiler Alert!

O filme é antigo, mas vale o acusativo de spoiler para o caso de você ainda não ter visto essa obra-prima do cinema. Tenho a opinião de que o que vale é a experiência da arte e não os fatos dela, mas estou avisando.

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Um Enredo transparente e Personagens maciços

Luc Besson, conforme muitos colegas de profissão e críticos de cinema afirmam, é um cineasta que tem a capacidade de suscitar amor e ódio. No caso desse filme, consigo ver que ele suscitou mais amor do que ódio.

Curioso é que essa movimentação artística antitética faz de Besson um alvo de críticas. Porém, se há um acerto em sua carreira um tanto questionável, ele se chama “O profissional” . Protagonizado por Jean Reno, o longa-metragem alia com sensibilidade boas doses de ação desenfreada, construção precisa de personagens e uma história interessante, que, muito embora não seja em sua totalidade inédita – pelo contrário, chega a ser bem clichè – ganha contornos inovadores pela abordagem escolhida.

k0m0x5yÉ fato: Não importa o quanto você ame “O profissional“. Talvez seja agora um bom momento para parar e pensar que o enredo do filme é muito superficial. Obviamente não estou falando de todos os aspectos e faces do enredo, mas da primeira camada. Qualquer sinopse desse filme vai deixar claro que O Profissional é simplesmente um filme sobre um matador de aluguel que encontra uma menina de doze anos, lhe dá abrigo e lhe ensina a ser uma assassina.

E é justamente isso.
conteudo_90686Mas, novamente, há muito ALÉM DISSO.

Pelo menos para mim é muito clara a ideia de que a primeira camada do roteiro foi feito em cima de premissas muito bobas, superficiais (sendo isso proposital ou não). E claramente, o enredo não sustentaria o filme. O que dá o peso e retira completamente essa aparência insossa de superficialidade sem-sentido do longa-metragem é a genial construção e a profundidade de cada um dos personagens. Quando analisamos, por exemplo, o antagonista Stansfield (o policial corrupto e claramente perturbado interpretado por Gary Oldman) conseguimos sentir até que ponto os produtores desse longa conseguiram se envolver com cada sentimento que gostariam de passar.

Sobre um Matador Incomum

Leon, O Profissional, trata da história de um calado e soturno matador de aluguel cuja vida não tem outro sentido senão o seu funesto trabalho. Vivendo em um pequeno apartamento, mas cheio de hábitos e trejeitos de um sujeito metódico, Leon é calado, sério, parece apreciar muito o escuro, move-se com exatidão, dorme sentado, olha o mundo como se tivesse nos olhos um mecanismo de mira com zoom, parece ter água gelada em suas veias em vez de sangue, sua única companhia é uma planta.

A planta – um dos símbolos minimalistas do filme – talvez seja uma forma de concretização de identidade de Leon: Plantas não falam, não leem ou escrevem. Leon quase não fala… e é analfabeto.

tumblr_m9f2xcbqkd1r8vbhpo1_500Como disse antes, seu jeito metódico parece fazer do personagem um verdadeiro Robô. Leon vive para matar.

Eu sei… colocado desse modo, parece que estamos falando de um filme sobre um Joe Pesci (em todos os filmes) ou um Jules Winfred (Personagem de Pulp Fiction) da vida.

Mas não é nada disso. Muito pelo contrário, aliás.

Muito embora Leon não tenha um motivo maior para viver, um objetivo real que não o de cumprir sua rotina de “trabalho sujo”,  e “perigoso matador”, é… Diferente.

Uma das cenas mais especiais do filme

Uma das cenas mais especiais do filme

Leon está levando sua vida de profissional bad ass, frio e calculista, cumprindo ordens, silenciando pessoas, atirando sem cerimônia, quando em um dia como outro qualquer, vê, no corredor de seu prédio, uma garotinha de doze anos.

Cigarro mata, mas com certeza o cigarro que a atriz-mirim estava fumando “escondido” foi sua tábua de salvação. Leon parou por um instante para observar a menina que fumava e possuía marcas de agressões.

Algo o tocou?

Impossível dizer; Leon apenas agiu normalmente, tornando a seu apartamento e a sua rotina triste e silenciosa, sempre observando a vida passar pelo buraco na porta ou por frestas.

Mas a menina, sua vizinha, tem uma família ainda mais problemática do que poderia parecer à primeira vista.

E é justamente quando uma tragédia acontece na vida da pequena desconhecida que passamos todos a conhecer Leon. Aquele que nem ele conhecia.

Ah, e claro: Uma coisa engraçada que talvez seja forçação de barra da minha análise prolongada é que os ícones do filme (o leite, a planta e o sangue) formam as cores da bandeira italiana. Coincidência?

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Se você gosta de vilões…

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Louco não é uma palavra suficientemente boa para definir o que Gary Oldman consegue incorporar ao dar vida ao personagem de Stansfield. Não é como se estivéssemos simplesmente falando de um vilão malvado.

Eu sempre insisto muito na ideia de que o maniqueísmo ocidental estraga histórias que teriam tudo para serem maravilhosas, não fosse a separação seca e crucial entre bom e mal. E nesse ponto, O Profissional surpreende também.

Por um lado temos um assassino bom, que vem trazer muitas ideias confusas a serem trabalhadas pela mente do espectador, Afinal, como alguém que tem por objetivo único a finalidade de ceifar vidas poderia ser realmente bom? Se Leon se mostra magnífico e sensível por um lado (com o desenvolvimento do filme), devemos lembrar que seus tiros retiram a vida de quem estiver em seu caminho.

Como pode um assassino ser bom?

A resposta para isso deve ser muito mais simples se comparado ao questionamento sobre o que ou quem é Stansfield. A psicose ou seja lá o nome clínico correto para o que move Stansfield faz dele o vilão perfeito, o cara que você gostaria de ser caso fosse um vilão. Mesmo aparecendo em pouquíssimas cenas do filme, Stansfield é uma das atrações principais e – confesso – o motivo primeiro que me levou a assisti-lo (e eu sei que não estou sozinha nisso).

Para você ter ideia, Stansfield conseguir se tornar um ícone do filme, mesmo levando em conta que a película tem 110 minutos e ele toma menos de 26 minutos de cena.

lp3 Mas não é por acaso que um desalmado consegue chamar atenção da forma como Gary conseguiu ao fazer o personagem. A construção de Stansfiel se deu, de acordo com o próprio Oldman, por meio da observação de entrevistas e filmagens de serial killers, assassinos e psicopatas (sim, há diferença entre os 3 tipos).

Além disso, se você conferiu com atenção a cena em que Stansfield e seus homens entram no apartamento da família de Mathilda, deverá ter notado que os movimentos do policial não são normais: tudo parece arquitetado como os passos de uma dança. O corrupto homem da lei parece realmente ter “Algo com a música que o deixa em êxtase”, conforme seu amigo diz ao ameaçar o pai de Mathilda. De fato, parece que tem… mesmo que as vozes e a música estejam só dentro da cabeça dele.

Claro, há quem diga que a atuação de Gary Oldman nesse filme é um exagero. Eu discordo. Se Gary Oldman pode ser considerado algo exagerado (overactor, no caso), seu talento providencia para que o excesso contribua com a aura de ameaça e instabilidade que persegue constantemente seu Stansfield. O policial bandido é uma bomba relógio e ninguém sabe quando ele irá explodir.

Ok, o León sabe… (tá, foi uma péssima piada)

Sério, nem minha mãe grita assim comigo. 

Um detalhe curioso acerca de Stansfield (além da droga, que eu não tenho ideia do que é), é o fato de que ele está o tempo todo vestido de branco. Leon veste preto.

Mas quem é mesmo o cara malvado?

Mathilda

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Mathilda é filha de um passado confuso e não revelado, mas óbvio demais para sabermos que nada bom pode ter vindo dele. Nada além do pequenino irmão de apenas 4 anos. Tudo ia mal na vida de Mathilda, a pequena jovem de doze anos, dona de uma personalidade introspectiva demais, colérica demais e refém de uma alma por demais judiada. Mathilda vivia em sua semi-família confusa, apanhando sem razões, chutando os dias, ao conhecer o estranho vizinho silencioso. Bom, como não é exatamente comum que se veja uma menina de tão pouca idade fumando, o estranho para e tenta estabelecer contato. Nenhum dos dois é bom nisso. E nada acontece.

Mathilda continua chutando a vida bem longe para não sentir o amargo sabor de seus dias, quando tudo que ia mal em sua vida piora muito: inocente – mesmo tentando parecer precoce – a pobre criança não faz ideia de que, em um piscar de olhos (ou em uma ida à esquina), toda sua família seria assassinada, incluindo seu pequeno e amado irmão. Quando a menina retorna e nota a atmosfera caótica, vai bater à porta do estranho e carrancudo vizinho.

Por um momento, talvez todos os espectadores dessa película tenham sentido a aflição nos olhos na mocinha desesperada, sussurrando entre lágrimas para que o quase-desconhecido lhe abrisse a porta.

Please, Open the door

Please, Open the door

E é justamente ao abrir-lhe a porta que Leon, mesmo sem saber realmente porque salvar aquela garotinha, dá à pequena uma nova vida. Em todos os sentidos.

scaleA atuação da pequena atriz desconhecida é espantosa, digna de premiações. Quem seria essa pequena de tanto talento que consegue ser uma perfeita criança e ao mesmo tempo ter nos olhos o peso de uma adulta que já viveu todas as experiências do mundo?

Se hoje é fácil responder a essa pergunta, penso que, naquela época. o trabalho de Natalie Portman foi o mais expressivo trabalho de uma criança em um filme considerado por muitos um filme B (muito underrated).

Natalie foi e é mais que genial. Mas vê-la em ação no início de sua puberdade é realmente perturbador, no sentido de que a todo segundo confundimos a menina por mulher e a mulher por menina. Ela não age como criança, exceto em raros momentos. E a profundidade dada a seus atos é assustadora.

Não creio em acaso, e não acho que foi graças a ele que depois desse longa metragem Natalie Portman só fez papéis fortes e, em alguns casos até polêmicos (vide Cisne Negro, melhor comentado em nosso cast sobre Darren Aronofsky)

O Bandido, a mocinha e uma amizade apaixonante. 

Leon é, no fundo, um homem com alma de criança. Suas pequenas demonstrações de sensibilidade calada pela vida dura e circunstâncias nada pacíficas são dadas aos poucos no filme, em pequenos respiros de paternalidade e doçura, a partir do momento em que o Matador decide cuidar de Mathilda.

Embora o filme não deixe isso aberto, é muito claro que Leon trabalha para um mafioso (Tony), e qualquer fã de cinema sabe que uma pessoa que lida com a máfia não pode envolver assuntos pessoais em seu trabalho. Mas, mesmo sem admitir, Leon toma para si a dor profunda da menininha de doze anos, que tem mais maturidade (sendo ela amarga e dolorida) que o gentil assassino, ao que parece. Mathilda vê-se disposta a vingar o irmão de 4 anos, e Leon não admite, mas começa a dar espaço para que essa vingança se torne sua dor pessoal.

E nada disso, claro, é por acaso. Com o passar do filme, vemos Leon e Matilda transformarem uma relação de poucas palavras em um relacionamento de amizade pura, quase um amor paternal/filial.

Enquanto o italiano ensina a pequena de coração duro a ser uma assassina profissional (cada um entende o amor como pode), a jovem ensina o indestrutível profissional da morte a ler, escrever e a ter pequenos momentos de alegria.

Mesmo que ele não saiba brincar…

Curiosidades sobre “O Profissional”:

1 –  Em 30 dias o diretor tinha um script, entregue nas mãos de Jean Reno como um presente. A inspiração para o filme veio do personagem do ator em Nikita – Criada Para Matar. Besson decidiu aproveitar a ideia de Victor – O Limpador, dando ao personagem um “primo” nos EUA. Os dois matadores aparecem em cena usando sobretudo, óculos escuros e gorro de lã.

2 – Besson queria que Mathilda tivesse uma mistura de sensualidade e inocência, entre 12 e 14 anos. Devido a complexidade libidinosa do papel, Thaler rejeitou a novata Portman, de apenas 13 anos, e procurou meninas na faixa dos 15 com um quê de Lolita. Besson descartou todas as candidatas, incluindo Liv Tyler – o diretor queria uma atriz que “involuntariamente” tivesse um lado sensual. Portman foi chamada para um novo teste e ganhou o papel com a cena em que Mathilda lamenta a morte do seu irmãozinho.

3 – No roteiro original, Mathilda e Léon se tornavam amantes. O romance com tamanha diferença de idade teria sido baseado na história de Besson com a atriz Maïwenn, que conhecera o diretor aos 12 e se apaixonara por ele aos 15 (quando Besson tinha 32 anos). Os dois estavam noivos na época das filmagens de O Profissional.

Na primeira versão do filme testada em Los Angeles, existia uma cena em que Mathilda pede a Léon que ele se torne seu amante – “A primeira vez de uma garota é muito importante, determina o resto da sua vida sexualmente, li isso em uma revista da minha irmã“, diz a personagem. O público, porém, rejeitou o trecho e o filme recebeu péssimas avaliações durante a exibição-teste. Foi quando Besson e o produtor Patrice Ledoux decidiram cortar a cena. No segundo teste, sem a sequência polêmica, o filme foi avaliado positivamente pelo público.

4 – O ator interpretou o assassino como mentalmente lento e emocionalmente reprimido para que o público não pensasse que o personagem-título era alguém que se aproveitaria de uma garotinha em situação vulnerável. Segundo Reno, uma relação física seria inconcebível por Léon e nas cenas em que o contato romântico é discutido, é Mathilda quem tem o controle da cena.

5 – A cena em que Norman Stansfield fala sobre seu apreço por Beethoven em relação a Mozart foi improvisada inúmeras vezes. A cada take, Oldman fazia algo diferente (veja acima). No mesmo ano do lançamento de O Profissional, Oldman viveria Ludwig van Beethoven em Minha Amada Imortal. Aliás, o grito que virou icônico, vindo do personagem, era apenas uma brincadeira. O icônico “Everyone!”  foi uma brincadeira para fazer Besson rir. Nas tomadas anteriores, o ator tinha dito as suas falas em um tom normal, mas, depois de pedir para o responsável pelo som tirar os seus fones de ouvido, ele gritou o mais alto que podia. Besson gostou e o take gritado acabou no filme.

6 – Ao entrar no hotel, Mathilda registra a ela e Léon como MacGuffin. A palavra é um termo popularizado por Alfred Hitchcock e representa o elemento narrativo que existe apenas para mover a trama para frente. (que vacilo…)

7- No roteiro original, Mathilda seria a responsável por matar Stansfield. Besson mudou o trecho por julgar que o público não aceitaria a transformação da garota inocente em uma assassina juvenil. Segundo o diretor, não era essa a transformação que ele queria para a personagem. No fim das contas, ficamos com a cena (PHODA) em que, em seus últimos suspiros, Leon, vinga Matilda.

Fonte das curiosidades: Omelete
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A conclusão… A conclusão é sempre particular, ao assistir um filme, ou mesmo ler um livro. Mas, particularmente, achei o filme completo em capacidade de emocionar e causar empatia, cenas de ação, cenas engraçadas e até mesmo meigas, além das cenas fortes e impactantes (talvez agressivas) que nos mostram como nós não estamos lidando com um filme qualquer. É Profissional. 😉

Seguem o trailer do filme e uma microgaleria de imagens.

 

2 thoughts on “[CURTINDO CINEMA] Leon, O Profissional – “This is from Mathilda”

  1. Simplesmente um dos filmes mais Marcantes que já assisti! Adoro cada pequena parte do filme, cada detalhe! e o fato de ter três atores cujo talento admiro demais (Reno, Oldman e Portman) só ajuda!

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