[CINEMA] KINGSMAN: Serviço Secreto (crítica)

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Em determinada cena, o espião britânico está conversando com o vilão do filme (um ainda não sabe da identidade do outro) em um jantar, e a conversa passa por filmes de espiões. O vilão, então, diz que sente falta dos filmes de espião de antigamente, que não se levavam a sério, ao contrário de hoje em dia, em que tudo é realista e repleto de implicações políticas e morais.

Esta é uma cena do filme que retrata bem o que Kingsman almeja ser, e a proposta é deveras interessante: ser um filme de espiões divertido, que não se leva tão a sério assim, com vilões caricatos, capangas impossíveis, e geringonças tecnológicas impraticáveis.

mark hammil kingsman

O que eu te disse sobre usar a Força para levantar a saia das meninas, Luke?

A verdade, no entanto, é que Kingsman tenta ser muitas coisas ao mesmo tempo, e além de um filme de espiões, você vê pitadas de literatura infanto juvenil (jovem comum e fodido é escolhido para uma escola especial que mudará sua vida), excelentes cenas de ação (não por nada, é o mesmo diretor de Kick Ass) e ultraviolencia que deixaria Tarantino constrangido. O filme também brinca com o politicamente correto, e temos, por exemplo, mulheres bonitas que estão ali só pelo propósito de serem bonitas (algo totalmente comum nos filmes clássicos de espiões, mas que gera “polêmica hoje em dia”), e algumas questões sociais interessantes, como nem todo pobre é um coitadinho que só precisava ter uma chance para ser alguém decente, e nem todo rico é um filho da puta que nunca fez por merecer.

Em tempos que os heróis de filmes de ação são tão sérios que parecem andar com um taco enfiado na bunda, e os vilões têm que ser tão moralmente corretos, que você não pode sequer torcer contra eles direito sem se sentir culpado, Kingsman é uma grata surpresa, que vai justamente na contramão disso. Subverter expectativas é algo que o filme faz bastante, e não raro vemos um bilionário servindo McDonald’s no jantar de gala, ou outro ricaço tendo um computador Lenovo.

O filme tem realmente ótimas idéias, como o vilão que quer causar um genocídio em escala global, mas passa mal ao ver sangue, frases de efeito bacanas (como se espera de um filme de agente secreto), e quando quer ser divertido realmente consegue, como as ótimas cenas do garoto sendo treinado na “Hogwarts de espiões”, e ao que se propõe a fazer é excelente. Todos gostamos de ver um gentleman chutando elegantemente bundas, ou ver o babaca do colégio tomando no toba por ser um babaca. Realmente divertido e diferente, do que se poderia esperar de um filme de ação de hoje em dia, e ser “diferente” é uma moeda em falta em Hollywood nos dias de hoje.

kingsman harry

“Ser um cavalheiro não tem nada haver com ser superior aos outros, e sim ser superior a si mesmo. Mas, principalmente, não se vestir como um idiota.”

Ainda mais diferente de uma forma positiva.

… porém.

Sim, tem um “porém”, e o quanto isso vai te incomodar depende de pessoa para pessoa. Eu achei que atrapalhou bastante, mas tem quem ache que isso até melhorou o filme, apenas assistindo para tirar suas próprias opiniões. Acontece que durante 3/4 do filme, o filme é um filme “Sessão da Tarde” divertido e família, mas então, em uma cena ou outra, ele se torna do nada um filme com cenas explicitas de mutilação, violência desnecessária, e gags sobre sexo anal. Nem parece que é o mesmo filme do qual estamos falando.

O que me pareceu extremamente imaturo e desnecessário. Em determinada cena, o filme decide que vai esculachar um culto cristão, apenas porque é “maneiro” esculachar o cristianismo (duvido que eles tivessem coragem de falar assim do islã, por exemplo). O que é isso? O filme foi escrito por um adolescente de 14 anos que não ganhou um iPhone novo dos pais?

O filme alterna de uma censura 12 anos para, do nada, ter sangue demais, violência demais, “ser polêmico” demais (no sentido errado e aborrescente da palavra), e tudo que eu consegui ver foi um enorme DESNECESSAURO passeando pela tela. Se tivesse um produtor executivo para colocar a mão no ombro do diretor Matthew Vaughn e dito: “menos, criança, menos”, sem duvida teria sido um filme tão bom quanto Guardiões da Galáxia.

Como preferiu se render aos seus impulsos juvenis, o resultado final fica ao gosto do freguês – mas longe de ser uma unanimidade divertida.

nota-3