[CINEMA] Homem-Aranha: De volta ao lar (ou eu sempre vou me lembrar do Lulu Santos quando vir o nome desse filme)

Após refletir muito sobre o assunto, o que eu posso dizer sobre o último filme do amigão da vizinhança é que… é um ótimo filme de super-heróis. Nada mais, nada menos. Uau, temos um Xerox Rolmes aqui, não é?

Mas meio que é o que tem para ser dito, é isso. isso. É um filme colorido com muita ação e um vilão legal, mas não muito além disso. Claro, tem pequenos Easter Eggs bacanas, mas nada com nenhuma carne real para se falar a respeito. Em resumo, é um bom filme padrão da Marvel e deu.

… o que foi? Hm. É, to vendo que você quer que eu arranque mais palavras sobre esse assunto. Beleza, mas esse é um trabalho complicado, então eu vou precisar pegar alguma coisa para comer primeiro. Enquanto isso, assista esse meme legal:

Que foi? Lazy Town, ué. A atriz da Stephanie tem 26 anos, é perfeitamente legal, tá bom? Hã, eu digo… caham…

Okay, vamos continuar então…

Quando eu escrevi sobre Logan, eu mencionei uma bizarrice que os nerds criaram, que é o gênero “filme de super herói“, o que reduziu sistematicamente os nossos padrões. Como resultado, os nerds se acostumaram a ver o copo como meio cheio: nossas expectativas são tão baixas que louvamos um filme de herói, quando o que realmente queremos dizer é “Eles não foderam a porra toda tanto quanto poderiam”.

O próximo reboot vai ser loko…

Usamos para filmes de super-heróis a mesma barra bem baixinha que usamos para julgar as narrativas de videogames e animes, que seriam incapazes de competir com outras mídias, se usássemos o mesmo padrão de exigência que usamos para o cinema comum ou literatura, por exemplo (salvo algumas exceções).

Isso vem como consequência dos anos 70 e 80, onde sofremos com tantos projetos de quadrinhos de baixo orçamento, toscos ou canibalizados de alguma outra forma, que até mesmo filmes apenas vagamente fiéis ao material de origem – como o Superman de Richard Donner (1978) ou o Batman de Tim Burton (1989) – foram chamados de “obras-primas”, mas que estariam ao lado do filme “O Sombra” na história do cinema se os protagonistas se chamassem “Homem-Rato com Asa” e “Super João”.

Estou mencionando isso porque o que eu vejo dizer a respeito de Spider-Man: Homecoming é basicamente isso: as pessoas estão gritando “esse filme não é uma porcaria, louvemo-lo!”. De fato, ele não é uma porcaria, mas dizer que ele não é ruim é meio que o se pode dizer a respeito dele.

Como um fã do Homem-Aranha de longa data (meio que foi a única HQ que eu cresci lendo, na verdade), eu adoraria me juntar ao consenso geral e informar que o Homem-Aranha: Homecoming é a versão em live-action do meu personagem favorito que eu esperei toda minha vida. Eu esperava poder dizer isso. Eu queria dizer isso. De verdade.

Vamos lá, a Marvel apresentou a versão de Tom Holland do personagem em Capitão América: Guerra Civil ano passado, e foi difícil não se entusiasmar com sua primeira aventura no universo da Marvel. Mas, infelizmente, não consigo bancar o fanboy aqui. Dirigido por Jon Watts, Spider-Man: Homecoming é … okay. Ele tem seus encantos, verdade (de fato, assim como seu protagonista com Tony Stark, o filme parece tão ansioso em agradar aos fãs como um filhotinho hiperativo, que eu estou me sentindo mal por ter que chutar esse filhotinho).

Crédito onde o crédito é devido, tem muita coisa que Homecoming faz certo, começando com a decisão de não voltar a contar a história de origem novamente. Porque, né, o Tio Ben já estava rivalizando com o Kenny, Optimus Prime e Yamcha em número de mortes. E puta que me pariu, chega de “reimaginar” a porcaria da aranha que mordeu o Pedro.

Aliás, um fato curioso: nos quadrinhos a Jessica Jones era colega de classe do Peter e tinha um crush por ele, e só não se declara porque ele foi mordido por uma aranha radioativa e passa mal. Na mesma noite que isso acontece, ela vai pra casa e está “tocando uma” para fotos do Tocha Humana quando o irmão dela entra no quarto e flagra a cena. Eu posso dizer, com certa margem de segurança, que dificilmente veremos qualquer uma dessas coisas em um filme da Disney…

Porque tudo na vida fica melhor com Drax comentando

Começamos logo após os eventos de Guerra Civil. Peter está ansioso por mais aventuras com os Vingadores, mas Stark diz que ele não está pronto, e o instrui a ficar de boas e ser “o amigão da vizinhança” por um tempo.

O que ele faz, mais ou menos. Peter Parker, com 15 anos, luta contra o crime exatamente como um super-herói de 15 anos lutaria contra o crime: de forma descuidada, ingenuamente e, com bastante frequência, mal. Quando Peter finalmente tropeça em alguns criminosos reais – ladrões de bancos que usam armamento alienígena de alta potência – é discutível se suas ações tornam a situação melhor ou pior.

“Então,” você (tomado por um frenesi de ênclises) pode-se perguntar-se a si mesmo: “O que torna Homecoming diferente dos outros cinco filmes de Spider-Man que vimos? Quero dizer, além do fato de que o vilão do filme é, tipo, a versão super-herói de “Hell or High Water“?

A resposta é simples: essa pegada do Homem-Aranha é muito mais relaxada e menos ambiciosa. Por incrível que pareça, nem todos os blockbusters têm que ser sobre um raio azul que vai destruir a Terra. O filme também acerta ao mostrar que o balançador de teias só é realmente poderoso dentro de Manhattan (ou qualquer lugar cercado de prédios), e muitas vezes, no filme, ele luta fora desse ambiente.

Não por acaso, as melhores partes do filme são os momentos cômicos, muitas vezes sob a forma de cameos do Capitão América. As interações entre o Peter Parker de Tom Holland e seus amigos, ou o traje feito pra ele pelo Tony Stark, são ouro puro. O tom divertido do filme também é exatamente o que podemos esperar do cabeça de teia.

A voz da armadura do Homem-Aranha é feita pela Jennifer Connelly. Pronto, agora você tem um novo fetiche nerd para o resto da vida.

Porque, como já diz aquele velho ditado nerd, “o Homem de Ferro é o herói que qualquer um de nós gostaria de ser, o Homem-Aranha é o herói que nós acabaríamos sendo na prática“.

O que torna Peter Parker único entre os super-heróis de quadrinhos – e o que o tornou um favorito dos fãs – é que ele é um estudante geek e inseguro da escola secundária, sempre lutando com problemas escolares, problemas de garotas e problemas de dinheiro. A Marvel foi inteligente em enfatizar o drama colegial em Homecoming, e Holland – muito simpaticamente, e muito graciosamente – incorpora a imaturidade do personagem melhor do que qualquer um de seus predecessores. Nos seus melhores momentos, o filme parece com uma comédia adolescente que acontece de ser um super-herói, ao invés de um filme sobre um super-herói que acontece de ser adolescente.

O Abutre de Michael Keaton também é o melhor vilão da Marvel em anos. Mas se bem que isso quer dizer só que ele tem algumas falas de diálogo, e sua motivação é plenamente relacionável. As cenas dele são boas e fortes, verdade, mas vindo de um estúdio que desperdiçou Christopher Eccleston e Mads Mikkelsen como vilões, estamos comemorando qualquer coisa realmente.

Mas coisas importantes são sacrificadas nos dois extremos desta equação, em detrimento do filme. Se Homecoming funciona como um filme divertido quando quer ser, como filme de ação ele se arrasta dolorosamente. Eu diria até que é, talvez, a entrada menos satisfatória no MCU até agora.

As cenas de luta simples e de rua em Homecoming são passáveis, mas quanto maior elas ficam, mais confusas, mais caóticas e muito menos imaginativa a narrativa torna-se. Esta versão do Homem-Aranha fez sua estréia na batalha do Aeroporto de Guerra Civil, e as cenas de luta do Homecoming – tanto em termos de coreografia geral, quanto em termos de uso do personagem – são pálidas e desinteressantes em comparação. Em geral, Homecoming não parece saber como usar os poderes e o estilo de luta do Homem-Aranha, e confia demais em reciclar trechos de Iron Man, dando-lhe uma armadura de alta tecnologia e artificialmente inteligente.

A trama também deixam muito a desejar: Keaton é previsivelmente sólido como o adversário, mas o enredo sobre armas nunca parece muito importante – todas as vezes que as armas do Abutre causaram mal a cidade, foi por causa do Homem-Aranha na verdade. A sensação que dá é que, se ele deixasse os caras em paz, ninguém se machucaria, e isso é o oposto de como se constrói ameaça num filme.

E é claro que eu não ia perder a chance de postar um meme do melhor cartoon ever, né?

Veja, eu não estou pedindo para o teioso salvar a cidade do raio azul do apocalipse, não. Eu estou pedindo só que ele salve a cidade de alguma coisa importante para alguém em algum nível (como a predação imobiliária de Wilson Fisk em Demolidor), o que não parece acontecer aqui.

Pode-se argumentar, suponho, que isso foi intencional: manter a escala pequena e concentrar-se mais em Peter Parker do que no Homem-Aranha. Mas não é verdade, já que o filme dedica tempo demais a esta narrativa e, verdade seja dita, o lado humano do personagem não é tão grande coisa assim. Quer dizer, Peter é um nerd engraçadalho de se assistir e tudo mais, mas meio que é isso só.

Toda parte sobre a culpa pela morte do tio Ben foi limada da história, e seu interesse amoroso é só uma paixonite de adolescente (embora realista), do tipo que ele vai esquecer em dois meses de qualquer jeito. Você já passou por isso, sabe como é. Estas são decisões compreensíveis, mas, sem esses dois aspectos, o Homecoming acaba por não ter nenhum conteúdo emocional real.

Assim, ele acaba tendo ainda menos profundidade emocional do que o ladrão de Paul Rudd em Homem-Formiga (que pelo menos teve uma vaga história de redenção, e uma filha fofa para ancorar seu personagem).

Eu não quero pegar muito pesado com Spider-Man: Homecoming. É um filme passivelmente agradável, boa comédia ciente do público que tem (lembra dos memes sobre o Homem-Aranha não ser chamado para os Vingadores?), mas nada que vá entrar para a história.

Curiosamente, o sentido de aranha não está no filme (ele sempre ignorava aquela porra mesmo), mas o Tom trocou por outro poder…

É, discutivelmente, o melhor filme do Homem Aranha já feito? Possivelmente, mas se você tirar os filmes do Sam Raimi do contexto do que eram os filmes de super-herói em 2001, fica que esse nem é um feito tão grande assim.