[CINEMA] Homem-Aranha – De Volta ao Lar [crítica (ou motivos porque este é um dos melhores filmes do Amigão da Vizinhança)]

Arte original de Rich Davies para o Poster Posse

Depois de enfrentar parte dos Vingadores em Capitão América: Guerra Civil, Peter Parker, o Homem-Aranha precisa encarar seu maior desafio: estrelar seu segundo reboot nos cinemas em 15 anos. A pergunta é: valeu a pena? Na minha opinião, sim, e muito! Vamos aos porquês.

O primeiro acerto de Homem-Aranha – De Volta ao Lar é dispensar algo que já vimos duas vezes desde 2002: contar a origem dos poderes de Peter Parker. O roteiro de Jonathan Goldstein e John Francis Daley conseguiu contornar isto muito bem através de poucos diálogos entre Peter e seu amigo Ned “Nerd”, que logo no início descobre qual é o tal “estágio” pro qual Tony Stark o contratou em Guerra Civil.

“Oh meu Deus! Soltando spoilers logo no segundo parágrafo?!” Calma, jovem, não precisa se exaltar! Isto está em todos os trailers do filme. A Marvel e a Sony não quiseram fazer nenhum mistério em torno disto. E mesmo sabendo disto antes de assistir o filme, o momento em que Ned descobre que Peter é o Aranha não deixa de ser divertido. Aliás, como todas as interações entre Peter e Ned, que é um dos maiores achados desse reboot.

Peter e Ned, a Dupla Dinâmica do filme.

Sério, eu não me lembro de ter me divertido tanto em nenhum dos filmes anteriores do Aranha. Nesta versão atual, Tom Holland tem uma química tão boa com Jacob Batalon, que eu ficava torcendo pros dois aparecerem mais como estudantes do ensino médio do que pro Aranha aparecer se pendurando entre os prédios de Nova York (o que acontece bem pouco neste filme, aliás), ou socando criminosos.

E já que entrei nesse tema, preciso falar sobre o Abutre de Michael Keaton: que vilão excelente!

Arte de Sam Gilbey para o Poster Posse

Preciso reformular a afirmação que fiz no início do texto. O primeiro grande acerto de Homecoming não é sua recusa de recontar a origem do Aranha, mas de já começar a história revelando os motivos que levaram Adrian Toomes a iniciar sua carreira criminosa, e montar uma quadrilha de ladrões cuja especialidade é roubar artefatos tecnológicos alienígenas. Foi ótima sacada dos roteiristas usar Os Vingadores, de 2012, como gancho pro surgimento do vilão. Isto aumentou a conectividade entre os filmes solo dos heróis da Marvel, e inseriu o Aranha e seus coadjuvantes no universo compartilhado, sem insultar nossa inteligência.

Michael Keaton no papel de Adrian Toomes, o Abutre

Mas o Abutre não depende apenas dessa apresentação inicial pra firmar-se como um dos melhores vilões do Universo Marvel Cinemático. Andei pensando a respeito, e creio que ele seja o vilão melhor construído pela Marvel nos cinemas. Suas motivações foram bem definidas, suas atitudes são justificadas pela trama, e seus confrontos com o herói são cheios de tensão. Aliás, graças às excelentes atuações de Michael Keaton e Tom Holland, o melhor embate de Toomes com Parker não é entre seus alter-egos superpoderosos, mas entre Adrian e Peter, dentro de um carro, e depois num galpão (dizer mais do que isto estragaria uma das maiores surpresas do filme). Os diálogos dos dois nestes momentos específicos valem mais do que quaisquer das sequências de ação e porradaria vistas no filme inteiro.

Desde a estreia de Homecoming na última quinta-feira, já li gente dizendo que as sequências de ação não são memoráveis. Eu discordo. Tanto a tensa sequência no obelismo de Washington, quanto o confronto dele com o Abutre numa balsa são espetaculares. Mas isto é uma questão de gosto, creio.

Tom Holland no papel de Peter/Aranha tomando um fôlego entre uma briga e outra

Claro que nada do que citei acima funcionaria se não tivéssemos um protagonista carismático o bastante pra nos importarmos com as encrencas nas quais se mete. Felizmente Tom Holland é aquele caso de ator que nasceu pra interpretar determinado personagem. Sei que será um baita clichê dizer isto, mas tenho que me render à tentação: o rapaz É Peter Parker, assim como É o Homem-Aranha. Em ambas as facetas do herói, a atuação excepcional de Holland é essencial para dar a liga certa pra amarrar todos os elementos e personagens da trama. Holland dá uma aula de como tornar um super-herói cativante e divertido, sem esquecer de cobrir os aspectos mais dramáticos da gama de situações e problemas com os quais se envolve.

Não me recordo de nenhum dos 5 filmes anteriores do Aranha terem transposto pros cinemas tão bem a vida colegial de Peter, nem seu lado Amigão da Vizinhança. Ambos foram muito bem representados no filme, rendendo boa parte dos trechos que me divertiram durante a sessão.

Homem de Ferro e Homem-Aranha numa cena dos trailers que não entrou no filme

No que diz respeito à participação de Tony Stark e do Homem de Ferro na história – que foi alvo da preocupação de algumas pessoas durante a campanha de marketing do filme – fiquei muito satisfeito com as aparições pontuais dele, que só “rouba” a cena uma vez, e no momento certo. De Volta ao Lar não deixa de ser do Peter/Aranha em nenhuma das vezes em que Robert Downey Jr. encarna o herói mais popular do Marvel Studios.

Também li algumas pessoas reclamando do excesso de gadgets no uniforme que o Aranha ganhou de presente do Tony. Particularmente não me incomodou, pois a maioria delas foi usada para tiradas de humor que se encaixaram muito bem nas situações onde ocorrem, e também pra criar o contraste necessário pra valorizarmos ainda mais as atitudes que o herói toma no terceiro ato, quando precisa abrir mão de todas as facilidades para reencontrar sua força interior (numa cena que particularmente me emocionou).

Senti falta de menções mais diretas à tragédia que tirou a vida do Tio Ben, o que acabou diminuindo bastante o peso da tragédia na vida de Peter e May Parker. E me incomodou um bocado a forma como a MJ foi “apresentada”. Não falo da personagem em si, mas da explicação meio “nas coxas” aos 45 minutos do segundo tempo. Particularmente eu gostei da nova versão interpretada pela Zendaya. Mesmo ela não tendo nada a ver com sua “xará” dos quadrinhos, é uma personagem divertida à sua maneira.

Vale também uma menção às homenagens que o filme faz a alguns clássicos juvenis, como Clube dos Cinco e Curtindo a Vida Adoidado (a melhor de todas), que me deixaram com um sorriso de satisfação quando surgiram. Jon Watts merece elogios por incluí-las sem soarem forçadas e gratuitas.

Resumindo: Homem-Aranha – De Volta ao Lar é um reinício promissor, em sintonia com a juventude atual, que leva em conta elementos que já fazem parte da sociedade contemporânea, como redes sociais, web-celebridades e memes. Um filme espirituoso, com um protagonista cativante, pelo qual torcemos o tempo todo, e que te deixa com vontade de assistir mais histórias dele nas telonas. Pois eu digo: Que venham mais filmes! Dá pra ficar ainda melhor. Mas já começou muito bem. E como se tudo isto não bastasse, Homecoming tem uma das melhores cenas pós-créditos dos filmes da Marvel. Não saia do cinema até as últimas letrinhas subirem!

Nota 4 de 5

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