[CINEMA] Guardiões da Galáxia: Vol. 2 (ou você não quer o que acha que quer)

Oh boy, esse texto vai me render tantos amigos, mas tantos amigos

Alguma vez você já disse “Fulano é tão foda que eu assistiria uma hora dele(a) apenas sentado olhando para o nada”? Provavelmente sim. Sei que eu já. Eu totalmente assistiria a Jessica Nigri fazendo um cosplay de cachorro-quente, ou o Nick Offerman sentado fazendo nada senão beber uísque por uma hora. Aliás, quer saber? Vou fazer isso nesse exato momento, volto daqui uma hora.

… ok, voltei! Demorei um pouco, porque, afinal de contas, é a Jessica Nigri vestida de cachorro-quente … um delicioso e fodendo cachorro-quente… Hm, quer saber? Esperem aí que eu já volto.

… oh, Jessica, porque você tem que ter o mínimo de autoestima só pra que eu jamais tenha nenhuma chance contigo?… Aham, bem, acho que esse texto atrasou um pouco. Mas o que importa é que estamos de volta! Bem, dizia eu que a aritmética algumas pessoas são tão acima da curva que você pode afirmar que veria elas fazendo absolutamente qualquer coisa, por mais desinteressante que fosse.

Depois de assistir Guardiões da Galáxia, eu saí do cinema pensando: “Uau, esses caras são tão legais. Eu assistiria outro filme deles sobre qualquer coisa só para ver mais tempo deles na tela!“. Acho que muitos de vocês pensaram isso e, enquanto fã que foi positivamente surpreendido, essa é uma reação tão válida quanto inofensiva. O problema, o real problema, é quando o diretor do filme e a equipe de produção saem com essa sensação.

Quer saber? Vou botar esses caras juntos aí fazendo qualquer coisa que vai ficar bom. Eu fiz um filme tão maneiro!“, James Gunn e sua Gunngue (viram o que eu fiz aqui? Hã? Hã?) devem ter pensado.

Verdade seja dita, ele não está TÃO errado assim em pensar isso. Rápido, responde sem olhar no Google: qual é a trama do primeiro filme? Pois é. Eu achei realmente difícil lembrar o que exatamente acontece no primeiro “Guardiões“, e não apenas porque foi lançado há quase três anos. O primeiro “Guardiões” do diretor James Gunn foi um grande sucesso só porque sua equipe de heróis improváveis era muito gostosa de se assistir, com revoltas e personalidades únicas, certo?

Bem, não exatamente

Sim, as pessoas saíram do cinema encantadas com o Vin Diesel interpretando uma adorável árvore senciente que só dizia “Eu sou Groot”, e então queriam mais disso. Drax encantou com sua auto-seriedade e interpretação literal de tudo, e então as pessoas quiseram mais disso. A flecha assoviadora do Yondu é muito maneira, então queremos mais dela, mais mortal, mais foda! As referências da cultura pop da década de 70 e da década de 80, muitas vezes explicadas a alienígenas de maneiras divertidas e enganosas pelo Senhor das Estrelas, tiveram que ser repetidas e até mesmo aumentadas. Todos vibraram com a Karen Gillan levando umas piabas na orelha porque a Amy era uma companion mimada e insuportável… Tá, ok, esse fui só eu. Geral ama aquela biscate só porque ela é ruiva. Vocês merecem mesmo o lazarento do Chibinal como showrunner de Doctor Who, taqueopareo mesmo…

Ah, onde eu estava? Ah sim… Qual é o problema com isso? Nenhum, realmente. Todas essas coisas são realmente ótimas, e temos mais disso no segundo filme. Melhorado até. Groot está mais adorável que nunca, Drax é o lazarento mais engraçado deste lado da galáxia, e temos centenas de referências novas aos anos 80 – desde Pac Man até David Hasselhoff.

O público tem tudo que achava que ele queria. O problema é que é as pessoas não sabem o que elas realmente querem.

Reação depois de assistir Guardiões da Galáxia 1 e 2

E aí reside o real problema do filme, é o que tem entre uma piadinha e outra: nada. Absolutamente nada. Aliás, até tem umas explosões em CGI, mas ninguém está realmente se importando. A coisa que pouca gente deu crédito no primeiro filme se revela uma das mais importantes para Guardiões da Galáxia funcionar como filme, que é o plot. Sério, pense a respeito: no primeiro filme os heróis improvisados têm que aprender a trabalhar como equipe enquanto fazem coisas difíceis e desafiadoras.

Eles têm que escapar da prisão usando pouco mais que um esparadrapo e a perna daquele cara. Eles têm que derrotar um vilão genérico mau como um pica-pau, MAS que tem uma das Joias do Infinito. São todas coisas incríveis e chocolatantes.

No segundo filme nossos heróis estão basicamente a passeio, e em nenhum momento eles parecem ameaçados, ou que não vão resolver as coisas com uma piadinha ou outra. Com exceção da excelente cena de abertura do filme (a melhor abertura que eu já vi em um filme de super-heróis desde Watchmen), NADA durante o FILME INTEIRO é um desafio para os nossos heróis, e o filme transmite, em muito, essa sensação de que nada realmente está em jogo aqui.

Pior do que isso, não existem escolhas reais sendo feitas aqui, e poucas coisas são mais brochantes numa narrativa do que heróis puramente reativos. Veja, no primeiro filme, Peter Quill e sua gangue de desajustados faz algumas escolhas importantes: eles escolhem lutar para salvar a galáxia, mesmo que não seja obrigação deles (a galáxia já tem sua “polícia galáctica” para cuidar dessas coisas, obrigado), e no fim ele deliberadamente aceita a destruição para derrotar o vilão. Tudo termina melhor que o esperado, mas foi uma escolha dramática da galera.

Isso é por viajar na TARDIS e estar sempre com cara de bunda de quem não acha nada incrível, Amy!

Nos quadrinhos, a Mantis é a virgem Maria dos Kree que acaba como prostituta vietnamita. Não faço a minima ideia de porque James Gunn não usou essa backstory

No segundo filme não existe escolha nenhuma a ser feita. Pode parecer que Peter tem que escolher confiar ou não no seu pai, mas meio que não existe escolha nenhuma quando, do nada, eles estavam se dando super bem, e o cara solta “Ah, e eu matei a sua mãe e pretendo acabar com toda vida no universo. E caso reste algum dilema moral para com o público, matei seu walkman também.”

Mas puta que me pariu incongruente, isso não é o caralho de uma escolha, né? Do mesmo modo eles têm que deter o vilão, mas nesse caso também não é uma escolha, porque não tinha mais ninguém ali para fazer isso. Os heróis só de deixam levar pelos acontecimentos, e isso é uma forma muito, muito errada de contar histórias.

Falando em vilão do filme, que chavascas foi aquela? Do nada parece que ativaram um chip de malignidade e ele quase olha no relógio e diz “opa, estamos entrando no terço final do filme, hora de ser DU MAUUUUU!!!”, porque nada daquilo faz o menor sentido. Muito menos para um ser onipotente com bilhões de anos de idade. Você vê claramente que aquilo não parte do personagem, e sim do roteiro dizendo “tanto faz, mete uma cena de ação genérica aqui e… Olha só o baby Groot! Ele não é adorável?”. Sim, o Baby Groot é adorável, mas isso não justifica cenas de ação com tão pouco em risco para os personagens.

Meu ponto é que, por mais legal que seja o desenvolvimento dos personagens e as relações entre eles – e nesse filme é muito – não tem como fazer um filme só com isso sem ter algo interessante acontecendo ao fundo. Isto deveria ser um filme, não “Casos de Família“!

Pra não dizer que o filme só erra entre uma punchline e outra, ele acerta muito a mão com o alien azul Yondu (Michael Rooker), embora para isso tenha sido socado um retcon do tamanho da Alfa Centauri no primeiro filme. Porque o Yondu que vimos ali, e o relacionamento dele com Peter Quill, não é nada do que vimos no primeiro filme. MAS, se você ignorar isso, e só considerar o que acontece no segundo filme, o arco dele é bem desenvolvido, e ele tem a única cena de ação do filme inteiro onde alguém luta colocando algo em risco. Não é por nada que é a segunda melhor cena de ação do filme (porque a abertura ainda é legal pra caralho)

O arco final do Yondu mescla boas piadas com cenas de ação fodas. Isso é o que fez o primeiro filme tão ótimo

Guardiões da Galáxia Vol. 2 começa e termina bem, como se esperava, mas o meio de campo do filme dá mais balão que o do Atlético Goianense (essa possivelmente é a piada mais limitada que eu já fiz, já que o público nerd que gosta de futebol se resume basicamente a… eu mesmo). Como a maioria das outras sequências “parte 2” no MCU, este segundo capítulo está dividido entre o desejo de ser focado mais no desenvolvimento dos personagens (uma vez que não é nem a história de origem, nem a final) e as demandas financeiras de ser um blockbuster.

A primeira parte é muito bem feita, a segunda é desastrosa. O que dá um saldo de “é, legal, esquecível, mas legal“, muito abaixo do que poderia ser.

No lado positivo, temos todos os motivos para esperar que Guardiões da Galáxia Vol. 3 seja bastante fantástico.

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