[CINEMA] Frida Kahlo- As Cores da Paixão.

Assisti a Frida quando tinha algo em torno de 13 anos. Mesmo com muito pouca compreensão da maior parte das coisas que jamais sonharia ter hoje, achei o filme fantástico.

Reassisti o filme poucos dias atrás, tomada por um saudosismo inexplicável. E agora sei dizer o porquê.

1 – As Cores da Dor

Muito embora o filme não possa contar toda a trajetória de dor de Frida Kahlo, ele já se inicia mostrando a jovem atrevida e muito fora da curva, de pensamentos muito diferentes daqueles presentes nas mulheres da sociedade de sua época.

A jovem Frida é petulante, inquieta, fugaz, rebelde de um jeito muito único, jamais presa aos caprichos do sexo e sim dona deles.

Mas muito de sua vida e de sua arte é caracterizada pelas dores que passou, sendo Frida dura mas sensível. Uma mulher extremamente sensível.

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Logo no início do longa, vemos Frida sofrer um acidente dentro do que parece ser um bonde – muito embora chamem de autobus (ônibus). O acidente, que poderia ter sido leve, foi quase uma sentença de morte para a jovem artista.  frida

Os danos causados pelo acidente deixaram Frida imobilizada em sua cama por muito tempo. A artista teve problemas sérios com a perna esquerda e com sua mobilidade, mesmo muito tempo após sua recuperação.

Frida não sofreu pouco.

Conforme retrata o filme, não apenas o acidente que não provocou sua morte, mas praticamente trouxe uma espécie de morte em vida. Foi um ponto de grande sofrimento, como também suas ideologias políticas em contradição com a vida do marido Diego Rivera, as traições abertas que Frida precisou engolir e aquelas às quais aderiu, suas múltiplas paixões carnais com homens e mulheres, a impossibilidade de ter filhos; a vida de Frida foi uma Paleta de dessabores e de tons muito sombrios, muito fortes.

A forma como isso é exposto no filme não poderia, claro, ser mais genial. Do alto de suas atitudes flamejantes e encharcadas de uma ousadia deliciosa – muitíssimo bem encorporadas por Salma Hayek – Frida tem pequenas atitudes, olhares, dizeres que nos causam arrepios quentes.

 

2- Atrevida como um Passo de Tango cor de Sangue

É muito difícil saber até que ponto o filme, e mesmo a HQ sobre Frida Kahlo, foram fieis aos fatos e à personalidade da artista. Mas Frida não ficou famosa por acaso. Muito mais que uma pintora à frente de seu tempo, expressando fatos e memórias sombrias por meio de cores gritantes e ângulos inesperados (algo de uma expressão muito lisérgica), tivemos também a mulher militante, valente, sem medo. Frida era curiosamente uma mulher com problemas físicos que deveriam impedir sua mobilidade, mas nada conseguiu segurá-la.

Atrevida, abusada, agressiva em palavras ou figuras que fazia, depravada, quente, chame-a como preferir, mas nada calou Frida e todos os seus impulsos de uma alma inquieta.

E talvez, a melhor cena do filme a expressar isso (além do momento em que Frida corta suas negras madeixas ao som de Paloma Negra) é a cena do tango. A música  – Alcoba azul – que embala os dois corpos femininos a jogar-se petulantemente numa dança de iguais (sem uma pessoa a conduzir, sem quem fosse conduzida) parece tomar conta do espectador com a mesma força que fez ou faria a pintora ter esse tipo de atitude.

Que cena de tirar o fôlego…

Frida, seus abusos foram lindos.

 

3 – Florbela e Frida

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Não é tão difícil comparar a pintora mexicana à poetisa lusitana Florbela Espanca. Claramente nota-se a diferença gritante entre as estéticas, posto que Frida parecia abrasar tudo o que tocava, enquanto a poesia de Espanca mais tinha características no mar que bate amarguradamente nas pedras e as vai desfazendo aos poucos.

Contudo, ambas viveram por e pela arte, derramando suas emoções em códigos e cores. Ambas não comportavam em si e nos costumes antigos que lhes foram passados as paixões que traziam no peito, entregando-se aos mais diversos romances e aventuras. Se no filme vemos Frida como uma mulher envolvente, e que a todo momento parece buscar no sexo algo mais  talvez a vitalidade que outrora lhe faltou em razão das doenças), Florbela Espanca caiu também em numerosos casos, teve seu ninho em muitas camas e fez de sua cama muitos ninhos, chegando a ser considerada a fundadora do “Don Juanismo de Saias”.

Compare você, leitor, a dor e a paixão das duas e entenderá em que ponto se cruzam.

4- Riviera: Comunista, pero no mucho

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Tanto Frida quanto Diego Rivera eram envolvidos com movimentos políticos de esquerda. Aliás, o filme deixa claro que é pela arte e pela política que primeiro acontece contato e a aproximação entre os dois.

A história dos dois artistas é baseada em um fundo político reacionário de esquerda fortíssimo. É uma faceta interessante ver a militância dos artistas. Sobretudo com relação aos trabalhos de Diego.

Durante todo o filme, o marido infiel de Frida é acusado por amigos, conhecidos e “camaradas” de ser um falso socialista/comunista, posto que suas obras de arte são feitas para pessoas abastadas e para agentes do governo.

Eis uma discussão recorrente, aliás.

Quando da ida do casal à América do Norte para exposições de arte bancadas (e muito bem bancadas, aliás) pela família Rockfeller e da decepção de Diego ao ter seu mural destruído por razões políticas, é que melhor visualizamos a relação que dividia o homem Diego como cidadão e dotado de vontades e ideologias políticas do artista Diego Rivera.

 

5- Cores de Frida Khalo, Cores

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Que não se ofendam os fãs mais fervorosos, mas que a verdade seja dita: Frida Kahlo não foi uma mulher bonita.

É claro que por “bonito” compreende-se aquilo que subjetivamente assim determinamos, ou aquilo que a sociedade, por razões diversas, determina.

Mas confesse, seja simplista neste momento: Frida era uma mulher feia, portadora de um penteado exótico, um buço acentuado e sobrancelhas que teriam sido alvo de piadas. Na verdade, são.

Uma das coisas que mais espanta quando pensamos na parte fotográfica do filme é que conseguiram transformar a musa, divinamente linda, Salma Hayek em uma mulher igual à Frida. Desde a adolescência, até a idade mais madura, Salma é quem faz o papel de forma impecável, em rompantes e aparências.

Parece mágica.

Também Diego Riviera ficou muitíssimo parecido. Panzón, foi construído em tudo à semelhança do pintor mexicano.

Até mesmo no jeito de quem chegou em casa com a consciência pesada após de haver passado pela cama de 3 ou 4 mulheres.

Mas é claro que os detalhes que tornam o filme maravilhoso no quesito produção vão muito além da aparência dos personagens.

As transições temporais, feitas de modo imperceptível, mas que conseguimos compreender como tal são um ponto à parte. Não sabemos ao certo quanto tempo se passa entre os fatos que vão marcando com sulcos profundos as sendas da artista plástica. Mas temos a percepção de sua progressão e de sua maturidade à medida em que ela chega, sendo demostrada aos poucos nas roupas, modo de falar, atitudes e fatos políticos, e em seu penteado.

Há que se destacar também as cenas “teatralizadas” ou feitas a partir de “colagens” e stop motion.

Aos olhos mais rústicos, essas partes podem parecer mera falta de recurso, mas quem tiver um olhar mais atento saberá dizer que cada sequência marcada por um produção mais “tosca” (no sentido de primitivo) tem função dentro do filme.

Excelente exemplo disso é o coma de Frida, após o acidente. Vemos uma animação protagonizada por Catrinas.

Se você fosse mexicano e tivesse delírios febris em razão de um acidente quase capaz de levar-te à morte, certamente veria catrinas por todas as partes e as ouviria murmurar também.

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Some-se a isso toda a trilha sonora melodiosa de Lila Downs, que vai guiando, com seu lamento cantado, o espectador pelas sendas de areias quentes e as nuances alegres de uma vida amarga e doce.

 

6- O que você não sabia dela

– O nome completo de Frida é Madgalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón. 

Frieda vem do alemão Friede e significa paz. Não sei se combinou muito…

– A referência alemã do nome vem da família de seu pai, descendente de alemães, o que é citado rapidamente no filme (na cena antes do casamento de Frida e Diego)

– Sua relação com a arte começou desde a infância por influência do pai, mas Frida queria ser médica antes do acidente.

– Ela voltou a andar usando muletas e próteses, mas passou a usar as saias longas icônicas para escondê-las.

Frida era também muito conhecida pelo jeito de se vestir, com as saias longas e óculos coloridos. Poucos de seus amigos sabiam que ela escondia próteses debaixo das roupas.

– Frida também lutou contra a poliomielite desde seu nascimento, o que agravou o problema na perna.

– Ao longo dos seus tratamentos, ela passou por 35 operações cirúrgicas.

A polio agravou a situação na sua perna e na movimentação do resto do seu corpo, além de problemas para ter filhos. Ela sofreu três abortos naturais.

– Das suas 143 pinturas, 55 são autorretratos.


Assista Frida online.